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Olhar Olímpico

REPORTAGEM

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A 660km do mar, Praia contrata dupla olímpica e inova no vôlei de praia

Ana Patrícia e Duda - Raphael Oliveira/@EAZPhoto
Ana Patrícia e Duda Imagem: Raphael Oliveira/@EAZPhoto
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

07/01/2022 04h00

Apesar do nome, o Praia Clube fica a mais de 660 quilômetros da praia mais próxima. Apesar da distância, o clube de Uberlândia será precursor no vôlei de praia, que nasceu ao lado do mar. Potência na quadra, a agremiação anuncia hoje (7) a contratação da dupla Duda/Ana Patrícia, recém-formada pelas duas jovens estrelas da modalidade no país, e das promissoras Tainá e Vitória.

O modelo é inédito no Brasil. Ao longo dos anos, as duplas têm trabalhado com comissões técnicas cada vez maiores, mas é dos atletas a responsabilidade financeira pela equipe. O que eles ganham em premiação e em patrocínio paga o salário de treinadores, auxiliares, fisioterapeutas, médicos, nutricionistas etc. Os treinamentos acontecem em redes permanentes em praias ou em pequenas estruturas privadas, como a da técnica Cida, mãe de Duda, em São Cristóvão, interior de Sergipe.

Pela primeira vez no vôlei de praia de alto rendimento no Brasil, duas duplas vão defender um clube —no caso, o Praia—, que arcará com a estrutura física em Uberlândia e a contratação, até o fim de 2024, pelo menos, de uma comissão técnica formada por 12 pessoas.

"Acho que nos traz uma segurança maior em todos os sentidos. Nunca enfrentei problemas desse tipo nas minhas outras equipes, mas, sem dúvida, ter toda a estrutura do Praia Clube a nossa disposição nos conforta bastante, nos dá segurança para treinar com mais motivação ainda por todo o suporte que estão dando a nossa equipe", diz Duda, eleita a melhor jogadora do mundo em 2018 e 2019.

Ela disputou a Olimpíada de Tóquio jogando com Ágatha, mas a dupla brasileira, cotada ao ouro, sofreu uma dolorida eliminação nas oitavas de final. No fim do ano, a sergipana de 23 anos decidiu "abrir a dupla", forma polida de se dizer que alguém pediu o divórcio no vôlei de praia —no caso, o rompimento foi amigável.

Quando procurou por Ana Patrícia —sua parceira no bicampeonato mundial sub-21 em 2016 e 2017 e "solteira" depois de encerrar sua dupla olímpica com Rebecca— ficou sabendo da ideia do Praia, que já havia sido apresentada a ela pelo presidente da Federação Mineira de Vôlei, Tomás Mendes.

"A gente conversou sobre perspectivas, viu que tinha metas e objetivos comuns, e a partir daí a gente fechou. Quando eu apresentei a proposta, estava tudo muito distante, era só uma possibilidade. Mas as coisas foram avançando e acabou dando tudo certo", conta Ana Patrícia, que já se mudou de mala e cuia para Uberlândia, onde passará a morar e treinar.

Na onda que vem fazendo bombar os esportes de praia no interior do país, o Praia construiu recentemente 15 quadras de areia, que se somaram às outras nove que o clube já tinha. "O Praia já tem excelência no vôlei feminino de quadra, é um dos expoentes mundiais, e depois das Olimpíadas de Tóquio nós entendemos que o vôlei de praia precisava reorganizar, de apoio. O clube tem estrutura não só de quadra, mas de pessoal especializado, e pode dar tranquilidade para os atletas", explica o presidente do Praia, Guto Braga.

Ele afirma que o time profissional, composto por Duda, Ana Patrícia, Tainá e Victória (campeã mundial sub-19 e sub-21), será todo bancado com recursos de patrocinadores, apenas. Mas, por também atender equipes de base que serão formadas para treinar no clube até pelo menos 2024, a estrutura e os profissionais técnicos terão suporte de verbas públicas do Comitê Brasileiro de Clubes (CBC), que incentiva que a matriz esportiva brasileira se estabeleça nos grandes clubes sociais.

Potência no vôlei feminino, em que é atual campeão sul-americano, o Praia quer expandir sua participação no esporte de alto rendimento. Já ganhou medalhas nas Paralimpíadas na natação e, além de investir no vôlei de praia, também está montando uma estrutura profissional de beach tênis, tendo contratado André Baran, melhor brasileiro do circuito profissional. "Tudo passa pelos clubes. É onde o atleta consegue ter a tranquilidade, profissionais capacitados. Queremos que outros clubes venham para dentro do vôlei de praia, ajudando a desenvolver esse esporte", diz o presidente do Praia.

Dream team

O último ciclo olímpico mostrou que, no vôlei de praia feminino, altura é cada vez mais fundamental. A falta de jogadoras de mais de 1,90m é um problema crônico da modalidade no Brasil, com pouquíssimas exceções. A mais destacada delas, de longe, é Ana Patrícia (1,94m), de 24 anos. Já Duda é, talvez, o maior talento já revelado no vôlei de praia brasileiro, cotada para ser melhor do mundo desde que tinha 15 anos e já era melhor que qualquer menina de 20 e poucos anos.

A união das duas jogadoras, que ganharam dois mundiais de base jogando juntas, é, em tese, no papel, a possibilidade de o Brasil voltar a dominar o vôlei de praia. As duas sabem desse potencial, mas evitam carregar muita pressão nas costas.

"A responsabilidade é, primeiramente, com a gente mesmo. A gente tem capacidade de fazer grandes coisas. Viemos de um ciclo muito difícil, muito duro e a gente está vivendo outro momento, de descobrimento de novo. O vôlei de praia é um casamento e a gente está construindo nossa relação agora. A gente não tem essa preocupação agora de ser o melhor time do Brasil. As preocupações, elas têm níveis. A gente quer se entrosar primeiro. Se fizer isso bem, a gente tem grandes chances de chegar bem", opina Ana Patrícia.

"Temos ótimas lembranças juntos. Fizemos grandes campeonatos, conquistamos títulos que marcaram a nossa carreira quando éramos bem jovens e a expectativa é que as conquistas estejam com o nosso time de novo daqui para frente. Acredito que, com a maturidade de nós duas, temos tudo para conseguir resultados ainda melhores. A altura, claro, é algo que ajuda muito no cenário, principalmente internacional. Mas, a Ana Patrícia tem muitas qualidades como atleta e tenho certeza que vamos evoluir juntas", avalia Duda.

A dupla terá como treinador Lucas Palermo, que era analista de desempenho de Ágatha/Duda e que vem acompanhando Duda desde que era auxiliar de Cida em Sergipe. Será a segunda experiência dele na função, depois de estrear comandando Tainá/Victoria.