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Idolatria a Kobe fez camisa 24 quebrar tabus no basquete brasileiro

Gabriel, revelação do Flamengo, posa com a camisa 24 - Divulgação/Flamengo
Gabriel, revelação do Flamengo, posa com a camisa 24 Imagem: Divulgação/Flamengo
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

29/01/2020 04h00

Aos 17 anos, Gabriel vive a expectativa de receber a primeira oportunidade de vestir a camisa do Flamengo e fazer sua estreia no NBB. Não vê a hora de vestir a regata rubro-negra com o número 24 nas costas. Afinal, no basquete, diferente do futebol, o preconceito com o 24 - número do veado no jogo do bicho - é superado pela idolatria a Kobe Bryant.

É o astro norte-americano, morto em acidente de helicóptero no domingo, a razão pela qual quatro jogadores estejam inscritos para jogar a atual edição do NBB com o número 24, mesmo tendo à disposição qualquer número do 0 ao 99. Como comparação, na última rodada do Campeonato Brasileiro de futebol do ano passado, só um atleta, um terceiro goleiro, vestia a 24.

No caso de Gabriel, garoto com passagem pela seleção sub-17 e já no elenco principal, Kobe foi a inspiração para se tornar um jogador de basquete. "Em 2017, quando eu estava na dúvida se ia ou não continuar jogando basquete, assisti ao documentário do Kobe, Peso da Grandeza. Foi o que abriu meus olhos, foi quando eu disse: é isso que eu quero", contou ele ao Olhar Olímpico, por telefone, logo depois de posar para a foto que ilustra essa reportagem, seu primeiro contato com a 24 do Flamengo.

Para homenagear Kobe, que vestiu a 24 durante boa parte da carreira (antes usava a 8), Gabriel jogou com este mesmo número na Espanha e nos Estados Unidos, onde jogou no high school. Ao ser inscrito no NBB, pediu para ser o camisa 24 novamente. "No basquete ela é a mais aclamada. Tem o preconceito, mas ele é minha inspiração".

O mesmo diz Leonardo Eltink, ala que joga seu quarto NBB, desta vez pelo São José. "Quando comecei a ter meu primeiro contato com o basquete, o Kobe estava no auge. Ara ele quem dominava a liga [NBA]. Então para mim Kobe Bryant foi o melhor jogador da história. Quando pude escolher o número que gostaria de usar no meu primeiro uniforme profissional, nem hesitei em pedir a 24. É uma pequena homenagem a um grande ídolo", lembra.

Divulgação/Pinheiros
Imagem: Divulgação/Pinheiros

Na base brasileira, o uso do número 24 é praticamente proibida, não por preconceito, mas porque se joga apenas com os números padrões, de 4 a 15. Por isso, Danilo Sena, jogador de 20 anos do Pinheiros, só teve a oportunidade de usar a 24 em dois torneios na base. Quando o ala chegou ao adulto, porém, não teve dúvidas.

"Quando comecei a jogar basquete, com 7 ou 8 anos, ele tinha acabado de ganhar um campeonato e estava no auge dele. Os movimentos mais plásticos dele, o 1 contra 1 dele, era o que tava mais em evidência e para mim ele era o cara do momento. Ficava vendo pelos jogos e ficava tentando imitar, e então passei a usar a 24 quando podia", explica.

Divulgação/NBB
Imagem: Divulgação/NBB

Além deles, também homenageia Kobe com o número 24 nas costas o ala/pivô Douglas Nunes, da Unifacisa, equipe da Paraíba que estreia no NBB. O norte-americano Shamell, maior cestinha da história do torneio, jogou boa parte da carreira como o número 24, mas mudou para o 8, também em homenagem ao ex-craque do Lakers. Na segunda (27), quando o São Paulo recebeu o Franca, ele voltou a utilizar o número.

Até quem não queria homenagear Kobe Bryant, aliás, o fez diretamente. Alexandre Paranhos, do Mogi, escolheu a 24 em referência a Paul George. Acontece que o próprio craque do Los Angeles Clippers usava a 24 para homenagear Kobe - atualmente ele joga com a 13.

Preconceito

Arthur Marega Filho/São José Basketball
Imagem: Arthur Marega Filho/São José Basketball

Ainda que a escolha pelo 24 no basquete seja quase sempre uma referência a Kobe Bryant, o que torna seu uso mais natural, ainda assim quem escolheu fazer essa homenagem teve que se acostumar com as tradicionais referências ao veado do jogo do bicho e, consequentemente, à homossexualidade.

"Sempre tem aquelas piadinhas, bem desnecessárias, de pessoas que não entendem muito do basquete, mas nunca importei com isso, porque eu sei o que esse numero significava e significa pra mim", afirma Eltink, do São José.

Danilo Sena também não se ofende. "Já fizeram sim, brincadeira leves, mas nenhuma ofendeu. São brincadeiras de quem não é do basquete. Quem joga basquete conhece o poder desse número", avalia.

Olhar Olímpico