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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como o futebol ensina homem a odiar mulher

Torcedora-símbolo do Talleres, Elvira Reyna acompanha estreia da equipe na Libertadores - Reprodução Twitter
Torcedora-símbolo do Talleres, Elvira Reyna acompanha estreia da equipe na Libertadores Imagem: Reprodução Twitter
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Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

23/05/2022 18h00

"Vai pra cima delas, Timão". "Dessas bichas teremos que ganhar". "Chuta que nem homem". "Você joga feito mulherzinha". "Esse gol até mulher grávida faria".

Essas são frases corriqueiras em campos (e até em transmissões) pelo Brasil. Se a princípio parecem inocentes, basta uma rápida análise para entender que são pensamentos contribuem para o aprofundamento do preconceito contra a mulher.

Tem sido fácil detectar a homofobia em algumas manifestações como "dessas bichas teremos que ganhar". Mas é importante que a gente fale também da dimensão de misoginia desses gritos.

O ideal da masculinidade vai sendo formado em oposição ao que é considerado feminino. Se mulher é associada a fraqueza, sensibilidade exagerada, vulnerabilidade e falta de competitividade, por exemplo, ser homem é ser forte, não revelar sentimentos, ser competitivo e não se deixar penetrar por nada.

Quando a ideia do que é ser mulher cola nos valores vendidos como femininos, fica bastante fácil entender que mulher é, então, inferior. Não é tão capaz quanto homens. Não segura o tranco.

Um homem que pensa assim vai imediatamente imaginar que a mulher dele precisa ser protegida. Tudo o que você protege pode ser chamado de seu. "protejo, logo obrigo" é um método bastante comum de dominação. O Estado faz isso a todo o instante.

Obrigo a que? Obrigo a se comportar, a se vestir de determinada maneira, a falar de determinado jeito, a cuidar da casa... eu poderia seguir listando.

Seguindo com o pensamento, todos sabemos que só somos verdadeiramente donos daquilo que podemos destruir. Se não podemos destruir, não somos donos, temos apenas usufruto.

E é assim que muitas de nós somos destruídas via abusos, assédios, estupros e assassinatos.

O ódio à mulher é uma doença social. Ela atinge a todos, especialmente aos homens héteros que agem conforme as regras acima.

Ódio á mulher se chama misoginia. Vivemos, portanto, numa sociedade misógina.

Tudo faz parte das estruturas machistas e patriarcais que nos organizam socialmente.

Só que o mesmo machismo que nos destroi a todo o instante também aprisiona os homens.

O ideal de masculinidade diz que ser homem é ser viril, não demonstrar sentimento, não chorar, não pedir ajuda, aguentar o mundo nas costas, ser o provedor etc etc etc. Esses valores aprisionam os homens dentro de jaulas nas quais eles se debatem sem nem saber por que estão se debatendo.

O futebol é arena capaz de reafirmar e reproduzir todo esse horror. Nela, homens se comportam de acordo com essa cartilha de masculinidade. Dentro dela, mulheres são diminuídas através de abusos, assédios, violências, cantos, berros e opressões. A fim de tentar ridicularizar o adversário, muitos escolhem compará-lo a uma mulher. E aí a misoginia é acrescentada de homofobia.

Dizer que um homem "dá o cu" é a tentativa máxima de inferiorizá-lo. "Dar" qualquer coisa é ultrajante, é "coisa de mulher".

Oferecer um orifício de seu corpo à penetração - a despeito de todos os homens serem capazes de gozar quando a próstata é estimulada - é, além de coisa de mulher, considerado "coisa de viado".

Por que? Porque "homem que é homem" não se deixa penetrar, atravessar, tocar. Nem emocional, nem fisicamente.

Desse modo, se coloca em movimento um circuito de horrores.

Mas o futebol é também arena dentro da qual podemos, juntos e juntas, destruir todo esse horror.

A destruição passa por entender o que cada um desses gritos pode fazer. E o que deixar de cantá-los pode gerar.

Eu adoraria ver o Corinthians puxar essa transformação para além das já manjadas jogadas de marketing. Seria uma revolução com a cara do time do povo.