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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Desabafo de Casão faz refletir sobre fragilidade humana e como ela nos une

Sócrates e Casagrande jogaram juntos no Corinthians de 1980 a 1984 - Reprodução/Instagram
Sócrates e Casagrande jogaram juntos no Corinthians de 1980 a 1984 Imagem: Reprodução/Instagram
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Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

20/05/2022 04h00

Na quarta, dia 18 de maio, Fernanda Lima e Rodrigo Hilbert receberam Casagrande para bater um papo sobre Excessos. O programa "Bem Juntinhos", para o qual trabalhei como roteirista ao lado dos craques Bruna Bopp e Heitor Flumian, tinha na mesa, além de Casão, o poeta Fabricio Carpinejar e a psiquiatra Analice Gigliotti. Como sempre, Casão falou abertamente de sua experiência com as drogas. Eu, que estava vendo o episódio ao lado de minha mãe, que tem 85 anos, notei como ela estava emocionada com as coisas que Casão dizia.

Num certo momento, bastante comovido, Casão contou sobre uma noite na qual, ziguezagueando pela Vila Madalena, em São Paulo, e sabendo que não deveria mais estar ali e sim em casa, pensou em contratar um assassino de aluguel para acabar com sua vida. O pensamento vinha com a imagem de ele querer terminar com aquela noite, mas não necessariamente morrer. Queria acordar no dia seguinte. Sóbrio. Inteiro. Vivo. Mas, naquele instante, não queria mais viver.

Minha mãe ficou atordoada com a coragem de Casão revelar essa história publicamente. "Quanta dor ele deve ter sentido", ela me disse. Foi a primeira vez que vi minha mãe humanizar o abuso de drogas. Até escutar Casão, ela associava droga à vagabundagem e à delinquência. Não via a questão na chave do transtorno, da doença, do cuidado, do afeto. Com uma frase, Casagrande mudou a visão de uma mulher de 85 anos.

Sem piscar, minha mãe escutou tudo o que ele disse balançando a cabeça como quem concorda. Escutou quando ele falou que ir e voltar sóbrio da Copa de 2018 foi a grande e maior conquista da sua vida. Escutou quando ele disse que ser recebido pelos filhos e poder dizer que esteve sempre sóbrio durante todo o período de trabalho na Copa foi sua maior vitória. Viu Rodrigo se identificar com Casão, chorar ao lembrar do pai que morreu depois de uma vida de abuso de álcool.

Ao final, minha mãe, talvez sem saber o que dizer, me pediu para chamar Casão para comer na casa dela. "Avisa que eu vou fazer meu macarrão", ela disse. "E avisa que ele é muito bacana", emendou.

Existe uma enorme potência que é compartilhada quando a gente tem a coragem de se revelar frágil. É com essa fragilidade que nos conectamos uns aos outros. É por ela que nos apaixonamos. E, nessa hora, as mais improváveis conexões podem ser feitas. É na vulnerabilidade da condição humana que o executivo se conecta a pessoa em situação de rua. O porteiro ao escritor. A prostituta à beata. O estivador ao advogado. A estudante ao aposentado. A professora ao boleiro.

Podemos amar a Deus, podemos celebrar um ser divino todo poderoso e onipotente. Podemos nos curvar a Ele (ou a Ela). Mas paixão e identificação a gente sente pelo homem que sangra na cruz. É com ele que fazemos alianças. É ele que queremos salvar porque, ao fazer isso, estamos também nos salvando.