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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Um dia histórico para o futebol feminino no mundo

Camp Nou recebeu mais de 91 mil pessoas para o jogo entre Barcelona e Real Madrid pela Liga dos Campeões feminina - Pedro Salado/Quality Sport Images/Getty Images
Camp Nou recebeu mais de 91 mil pessoas para o jogo entre Barcelona e Real Madrid pela Liga dos Campeões feminina Imagem: Pedro Salado/Quality Sport Images/Getty Images
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Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

30/03/2022 19h56

Noventa e uma mil pessoas. Havia 91 mil pessoas assistindo Barcelona e Real Madrid no Camp Nou. O número seria absurdamente alto se estivéssemos falando de uma final da Liga dos Campeões masculina. Mas não era final, não era semifinal e muito menos masculina.

As 91 mil pessoas estavam no estádio para ver os times femininos de Barça e Real em campo. É uma marca histórica para o futebol feminino, esse esporte tão maltratado, estigmatizado e marginalizado.

Eu cresci num Brasil que proibia, por lei, mulher de jogar bola. Depois, mesmo quando a lei caiu, uma mulher que jogasse bola tinha que enfrentar uma série de barreiras erguidas pela misoginia, pelo machismo e pela LGBTfobia. Jogar profissionalmente então era aventura para as grandes guerreiras. Nossa sorte é que elas existiram e lutaram por uma sociedade na qual um dos maiores estádios do mundo chega a reunir quase 100 mil pessoas para ver um jogo de quartas de final de campeonato europeu.

O mundo muda. Demora, muita gente não chega a ver o resultado da luta, mas ele muda. E ele seguirá girando até que um dia nenhum ser humano precise enfrentar opressões e humilhações por causa de seu gênero, seu sexo, sua sexualidade, sua pele, sua classe. A luta é todo dia, é extenuante, é, por vezes, dilacerante. Mas as vitórias são também inúmeras e nesse 30 de março a gente teve uma vitória dessas grandes e retumbantes.