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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly: A Conmebol inaugura uma nova dimensão do ridículo no futebol

Torcida foi realocada no estádio Centenário na partida entre Athletico-PR e Bragantino pela final da Sul-Americana - LECO VIANA/ESTADÃO CONTEÚDO
Torcida foi realocada no estádio Centenário na partida entre Athletico-PR e Bragantino pela final da Sul-Americana Imagem: LECO VIANA/ESTADÃO CONTEÚDO
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Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

21/11/2021 14h48

No sábado, dia 20 de novembro, tive que assistir a final da Sul-Americana, ou da "Sula", como agora tentam emplacar os organizadores. Digo "tive" porque precisaria comentar o jogo na sequência então não poderia simplesmente escapar do jogo se ele estivesse ruim - como foi o caso. Foram duas horas bastante reveladoras, ainda que ao mesmo tempo tristes.

A final única é uma imitação do que fazem nossos camaradas da Europa. Funciona por lá porque toda a estrutura logística é outra: há meios de transporte com preços relativamente acessíveis, há uma cultura que sempre se relacionou com os mata-mata dessa forma, existe uma tradição.

Nossa tradição são dois jogos, são finais em que os times estão perto da sua torcida, estádios cheios. Como estaria o estádio do Athlético nessa final? E o do Bragantino? Ambos lotados, certamente. Teríamos um jogo tedioso nessas situações? Posso apostar que não.

A final única não representa nosso futebol. Aqui as coisas acontecem de um jeito diferente, torcemos e jogamos de modo distinto ao europeu. Ou costumava ser assim.

Ao imitarmos tudo o que fazem do outro lado do oceano, da entrada em campo às finais únicas em local previamente escolhido, passando pela cronometragem do jogo com a marcação dos 90 minutos corridos em vez dos dois tempos de 45 minutos, estamos descaracterizando nosso futebol.

Para piorar, a final foi transmitida apenas pela Conmebol TV. Para assistir era necessário, primeiro, achar o ambiente da transmissão e, em seguida, assinar. "Ah, mas não era tão caro assim". Se fossem 10 reais já seria caro.

Passamos por uma crise sem precedentes: quase 80% de nossas crianças vivem em insegurança alimentar; ou seja, não fazem todas as refeições diárias. A fome voltou, o desemprego está em números absurdos, o sub-emprego, do qual não se fala, tira a dignidade de milhões de brasileiros, o litro da gasolina está batendo oito reais, o botijão de gás está 150 em alguns lugares. Pagar para assistir uma final, nessa situação, é imoral.

Pelos mesmos motivos, claro que o estádio estava às moscas. Um dos repórteres em campo tinha saído de Paris, conforme ele mesmo disse. Com o preço da passagem em níveis absurdos, era mais barato trazer o profissional da Europa do que levar daqui? Provavelmente sim.

E, se é esse o caso e uma corporação não acha razoável pagar os preços abusivos de um voo SP-Montevideo-SP, quem é o torcedor ou a torcedora que pode pagar?

Mas nada disso importa: o espetáculo é todo feito para a TV.

O show que abriu a tarde da final foi realizado integralmente de costas para os cinco ou seis mil torcedores que estavam presentes. De costas para o público, de frente para as câmeras. Só isso vale: a espetacularização feita para honrar os contratos de patrocínio.

O DJ no estádio - uma figura cuja existência já explica boa parte da decadência do jogo - esgoelava-se para simular uma euforia que as imagens negavam. Fecha a câmera ali na mulher animada que dança sem parar e segue o baile.

A torcida do Athletico, em maior número, foi amontoada na parte do estádio de frente para o Sol. Por que? Porque era o fundo necessário para que as câmeras captassem a aglomeração. O estádio estava quase vazio, como mostraram as tomadas aéreas, mas e daí? Vamos fingir que eles vieram: fecha a imagem na torcida e sobe o áudio da gritaria.

A Conmebol inaugurou uma nova dimensão do ridículo com essa final entre Bragantino e Athlético.

A transformação do jogo primordialmente em espetáculo para a TV é um sinal de decadência do futebol. Ao tirarem as gerais e os geraldinos do presencial tiram também um pouco - ou muito - da alma do que é o futebol. Não nos querem mais como torcedores, mas como sócios e consumidores. Sócios no prejuízo, diga-se. No lucro, voltamos a ser excluídos.

Tratar o cidadão como um bicho é convidar ele a se comportar como tal. Selvageria não é pular de emoção e euforia no ônibus que leva os jogadores do seu time, isso é paixão. Selvageria é transformar o futebol em uma mercadoria voltada apenas para a TV. Selvageria é paparicar patrocinadores acima de todos, buscar o lucro acima de tudo, excluir torcedores de baixa renda do estádio, levar uma final para longe da casa dos finalistas, cobrar para ver os jogos pela TV, aceitar passivamente o abuso dos corpos femininos que vão aos estádios.

A lista da selvageria é enorme, mas a gente só consegue enxergar a violência quando ela é praticada pelo torcedor, nunca quando ela vem das instituições. Sobre essa, calam. E assim, um jogo por vez, o futebol vai morrendo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL