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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly: Em gesto comovente, Corinthians e Santos se ajoelham em campo

Camacho e Renato Augusto se ajoelham em protesto contra o racismo antes de Corinthians x Santos - Ettore Chiereguini/AGIF
Camacho e Renato Augusto se ajoelham em protesto contra o racismo antes de Corinthians x Santos Imagem: Ettore Chiereguini/AGIF
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Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

21/11/2021 20h22

Corinthians e Santos entraram no gramado, colocaram-se em seus respectivos campos, o juiz tomou seu lugar e então, sem que estivéssemos esperando, todos se ajoelharam. Em gesto marcado pelos Panteras Negras, jogadores e trio de arbitragem ergueram um dos braços com o punho cerrado. Foram segundos de um tipo de emoção rara no futebol.

Um momento chato e constrangedor para os puritanos que não querem ver o futebol invadido por política. Um momento de extrema beleza para quem sabe que o futebol é uma expressão cultural e que, como tal, deve atuar na luta pela liberdade, pela justiça e pela igualdade de oportunidades.

Cleber Machado, que narrava o jogo na Globo, ficou visivelmente emocionado e fez um comentário enaltecendo a atitude. E eu imaginei que a imagem dos jogadores ajoelhados invadiria o noticiário com destaque, mas não foi, infelizmente, o que aconteceu.

É uma pena que toda nossa retórica antirracista não seja transferida a gestos práticos, como teria sido destacar efusivamente a manifestação que antecedeu o clássico.

Quando dois rivais históricos se unem por um mesmo sonho e nos oferecem uma imagem tão poderosa como essa, todos ajoelhados em campo, uma fresta é aberta. Quando uma fresta se abre, a luz pode entrar. A luz entra através da divulgação destacada da imagem e também pela divulgação da informação. É assim que as grandes transformações ocorrem: quando somos afetados de formas diferentes. E imagens fazem isso de forma mais potente do que palavras.

Deveríamos estar falando da manifestação com euforia máxima. Hora de contar a história dos Pantera Negras, de falar da importância da luta antirracista, de chamar a atenção para o racismo enquanto força estrutural e não apenas desvio de caráter. Hora de celebrar jogadores, comissão técnica, trio de arbitragem que se manifestaram. Hora de perguntar para os jogadores como eles decidiram se manifestar, de quem partiu a iniciativa, o que sentiram naquele momento.

Fizemos isso? Não acho que tenhamos feito. Não com o barulho devido. Não com a importância que o momento pedia.

No jogo entre Bahia e Cuiabá, vi os jogadores do Bahia ajoelhados, mas não vi os do Cuiabá. A imagem estava fechada, posso ter perdido alguma coisa. Também não escutei narrador ou comentaristas enaltecendo o gesto, explicando do que se tratava. Perdi de novo alguma coisa? Espero sinceramente que sim.

Como corintiana, fiquei feliz com o resultado do clássico. Como torcedora e cidadã, fiquei comovida com os dois times e com a arbitragem antes do pontapé inicial. E não é todo dia que um trio de arbitragem trabalha para nos emocionar posotivamente.

A imagem dos rivais ajoelhados em nome de uma mesma causa mostra, poderosamente, como podemos nos unir mesmo estando em lados diferentes do campo. Mostra o que temos em comum. Mostra como somos mais fortes juntos.

Obrigada aos dois times e à pessoa que tomou a iniciativa de sugerir a manifestação.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL