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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly: A Justiça Desportiva faz um afago no racismo

Celsinho, meia do Londrina, faz gesto antirracista após marcar gol contra o Coritiba - Ricardo Chicarelli/ Londrina EC
Celsinho, meia do Londrina, faz gesto antirracista após marcar gol contra o Coritiba Imagem: Ricardo Chicarelli/ Londrina EC
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Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

19/11/2021 10h31

No seriado "Ted Lasso", que conta a história de um treinador de futebol americano contratado por um time da Premiere League inglesa, um dos jogadores vive repetindo a frase "futebol é vida". De fato, poucos aqui ousariam discordar do mantra. Mas acontece que o futebol pode também ser morte e a justiça desportiva, um tribunal composto basicamente por homens brancos, tem trabalhado para que o nosso futebol tenha um pacto com o que temos de pior.

Quando um diretor do time do Brusque fez referências racistas ao jogador Celsinho, do Londrina, a pena foi, entre multas ao clube e ao dirigente chamado Julio Antonio Petermann, a perda de pontos.

O Brusque recorreu alegando que seu elenco era formado majoritariamente por afrodescendentes e que a decisão não prejudicaria o responsável pelo ato, mas o grupo todo. Um argumento que carece de lógica e de dignidade. Mas que colou. Os auditores do STJD decidiram dar aquela atenuada na punição e devolver os pontos ao Brusque.

A notícia da diminuição da pena é o que basta para passar o recado de que racismo é ruim, mas não é também assim tão grave a ponto de um time ser punido com perda de pontos. "Tá bom, vai: exageramos na primeira punição" é a mensagem enviada à sociedade pelo STJD. Num mundo que quer se fazer mais justo, a perda de pontos nem estaria em debate: o Brusque teria sido eliminado do campeonato e fim de papo.

Só que esse nosso mundo não quer ser justo, quer dar pinta de justo, pagar de correto sem necessariamente mudar suas estruturas ou consciência. Para essa turma, aparências bastam. "A multa ao clube e ao dirigente foi mantida, o que mais vocês querem, militantes?"

Queremos ações que estejam carregadas de significado prático. Eliminação do campeonato seria pedir o mínimo quando o dirigente de um clube comete injúria racial contra o jogador rival. Punir o autor da injuria com uma grana e afastamento temporário não basta porque o racismo vai muito além de um desvio de caráter. Trata-se de uma estrutura de poder que nos organiza, nos socializa, nos individualiza.

Vejam o que diz o estatuto da FIFA sobre o tema: "A FIFA está comprometida com o respeito aos direitos humanos internacionalmente reconhecidos e deverá empreender esforços para promover a proteção desses direitos". Não se escreve uma frase vaga e vazia como essa sem muito pensar, debater, reescrever. Uma redação final ruim como a que está acima não é acidente, é planejamento. Fingem que estão se manifestando contundentemente, mas estão apenas enrolando.

Como um tribunal composto por homens brancos pode entender do tema racismo (ou machismo) a ponto de fazer as reparações necessárias? Eis aí as estruturas excludentes e opressoras na nossa sociedade. Um tribunal de justiça que represente a população brasileira precisaria ter maioria negra e equivalência numérica entre homens e mulheres. O fato de nossas instituições terem a cara de um homem branco de comportamento heterossexual é uma autodeclaração sobre racismo, machismo e LGBTfobia.

É sempre bom lembrar que o Nazismo esteve amparado por leis, o Apartheid esteve amparado por leis, a escravidão esteve amparada por leis. A justiça esteve de mãos dadas com os maiores crimes contra a humanidade da história. Se a gente quer mudar o Brasil vai ser preciso primeiro mudar a composição de nossas instituições.

Racismo mata. E mata todos os dias. Mata corpos, mata espíritos, dignidades e desejos. Entender violência apenas quando vemos uma vidraça de banco quebrada, ou um assalto na esquina, é entender quase nada sobre o que violência de fato é. A violência que mata é monopólio das instituições e pode ser perfeitamente aplicada com uma canetada. Futebol é vida. Mas futebol também pode ser morte e nossa justiça tem colaborado para que assim seja.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL