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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly Lacombe - É oficial: desperdiçamos a passagem de Jesus

Jorge Jesus comanda o Benfica durante a partida contra o Barcelona na Liga dos Campeões - REUTERS
Jorge Jesus comanda o Benfica durante a partida contra o Barcelona na Liga dos Campeões Imagem: REUTERS
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

18/10/2021 13h01

Eu estava mesmo odiando amar o Flamengo, mas alguma coisa em mim se entristeceu demais durante o empate com o Cuiabá. O Flamengo foi prejudicado pela arbitragem, verdade (ah, os inocentes do Leblon que acharam que o VAR tudo resolveria...), mas assistir ao time de Renato Gaucho jogando foi testemunhar a absoluta ausência das lições e dos conceitos deixados por Jorge Jesus. Acabam o toque de bola, as triangulações, a intensidade, a rapidez, o drible, a alegria, a criatividade e renascem o cruzamento a todo custo, o toquinho lateral sem criatividade, o conservadorismo, a caretice.

Será que a fase de encantamento rubro-negro está acabando? Será que veremos a partir de agora apenas o futebol de resultados: vencer a qualquer custo nem que para isso seja preciso cruzar 700 bolas na área e tirar o zagueiro mais alto do banco para entrar exclusivamente a fim de tentar fazer o gol com uma dessas 700 bolas?

É uma pena se isso de fato estiver acontecendo. Uma pena ainda maior que muitos outros times não tenham se inspirado no trabalho que Jesus fez no Flamengo. Temos, claro, minha nova paixão, o Fortaleza. Mas o Fortaleza vem numa pegada muito sua que começa com organização e planejamento, e termina em alegria e ofensividade dentro de campo. O Fortaleza estaria assim mesmo sem a passagem de Jesus. No mais, temos muito do mesmo: um futebol conservador, sem criatividade, sem ousadia, sem inovação.

Mas é claro que, mesmo perdendo o encanto, o Flamengo seguirá sendo um dos mais fortes times do Brasil, só que terá perdido a magia - e perder a magia é afrontar o futebol, o que sempre acaba em algum tipo de punição cósmica.

Uma parte de mim vai rir se isso acontecer. Mas vai ser minha parte mais mesquinha, vaidosa, apequenada e arrogante. Minha melhor parte, aquela onde o amor pelo jogo pulsa vibrante - vai deixar cair uma lágrima no dia em que a filosofia de Jesus tiver morrido de vez.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL