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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly: Viver da ilusão de que o VAR resolverá

Sala de VAR na Arena Corinthians - Fernando Torres / CBF
Sala de VAR na Arena Corinthians Imagem: Fernando Torres / CBF
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

15/10/2021 10h50

A chegada do VAR deixou uma imensidão de torcedores e de torcedoras radiantes. Finalmente teremos justiça no futebol, diziam. Acabou esse negócio de juiz tendencioso, agora os lances serão julgados na mesma hora com as imagens paradas, tudo está resolvido.

Havia os chatos como eu que diziam que não era bem assim, que o VAR não resolveria muita coisa e que sua maior função seria deixar o jogo mais entediante, mais parado, mais pragmático.

Acho que a essa altura dos campeonatos já podemos dizer que não há quem tenha uma relação de puro amor com o VAR. Se num jogo ele atua a favor do seu time, no outro ele pode errar estrondosamente. Era mesmo esperado que assim fosse desde que resolvemos escolher a figura mais odiada desse esporte - o juiz - e concluir que a solução para o fim dos erros de arbitragem seria a de inserir outros juízes, muitos outros. "Vamos colocar muitos juízes dentro de uma sala fechada cheia de monitores e ar condicionado e eles decidirão, lance a lance, de quem é a vantagem". Sempre que vemos a sala do VAR nas transmissões elas parecem o ambiente mais sério e atento do universo. Homens e mulheres rigorosamente compenetrados olhando seus monitores. Eu queria ver o movimento dessa sala durante os 90 minutos de um jogo, isso sim.

Vamos falar francamente? Se o VAR quisesse dar um pênalti por escanteio em todos os jogos ele poderia, certo? Olha a imagem com atenção, congela o lance, acha o zagueiro puxando ou empurrado o adversário e está consumado o crime. O que faz ele não marcar todos esses penaltis? O que faz o VAR não marcar dois penaltis claríssimos para o Galo contra o Santos no primeiro tempo e, no segundo, dar dois outros que na minha opinião nem foram falta?

Futebol não cabe em planilhas. Um tanto de injustiça sempre vai fazer parte do jogo. Somos falíveis. Erramos. Cometemos deslizes. Sim, a entrada do VAR pode, claro, corrigir um lance aqui outro ali. Mas não fará isso todas as vezes e inaugurará uma nova dimensão de injustiças no futebol.

Mas esse nem é o problema mais grave. Para mim, o mais grave é não poder mais gritar gol sem esperar alguma validação da sala de controle. É o fim do que o jogo tem de mais emocionante, de mais pulsante, de mais delirante. Você grita, pula, se acaba em euforia para dali a uns minutos o gol ser anulado. Ou, quase tão triste, você não grita nada porque o bandeira levantou seu instrumento de trabalho e anulou o gol, mas dali a um tempo nossos herois trancados na salinha do VAR dizem que foi gol sim. O pobre narrador precisar performar seu "goooool" e você até celebra, mas sabe que faz isso dentro de um ambiente que beira o ridículo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL