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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly: 600 mil mortos e a solene omissão do nosso futebol

ONG estende lenços brancos em Copacabana em homenagem aos quase 600 mil mortos pela Covid-19 - Reprodução
ONG estende lenços brancos em Copacabana em homenagem aos quase 600 mil mortos pela Covid-19 Imagem: Reprodução
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

09/10/2021 12h51

O que tem o futebol a ver com a Covid, com as vidas perdidas, com o descaso do governo na atuação sobre o controle do contágio, com a negligência na compra das vacinas que, tivessem chegado antes poderiam ter reduzido o número de mortos em até 400 mil (O Vietnã, que tem metade da população brasileira e atuou desde os primeiros dias com isolamento e distanciamento, registra 20 mil mortes até esse 9 de outubro. Mas o Vietnã é comunista e por isso não se fala muito sobre o absurdo sucesso no controle da pandemia).

Se a gente entende o futebol como uma das expressões mais fundamentais da nossa cultura, então teremos que aceitar a realidade de que ele tem tudo a ver com a tragédia. Quem acha que futebol não é expressão cultural mas apenas um negócio como qualquer outro, então esse texto provavelmente não será de grande interesse.

Mas o que tem, afinal, o jogo a ver com isso?

Tem a ver por não ter se posicionado formalmente, por não ter se unido em torno de uma comunicação de massa, por não ter proposto uma campanha educativa diante do sumiço de atuação estatal. Tem a ver por não ter abandonado a fúria mercantil em nome de conscientização social, ainda que temporariamente.

Que as emissoras antes de cada jogo televisionado mostrem o número de mortos e narradores, em tom dramático, cantem algumas estatísticas não basta. Teria sido preciso mais, muito mais. Teria sido preciso enfrentar a administração federal e sua pulsão de destruição. Teria sido preciso resgatar a função social e educativa do jogo e vir a público de forma organizada falar da seriedade da pandemia. Teria sido preciso usar seus craques, que tem canal aberto e livre com o que a masculinidade tem de mais destrutivo, para falar diretamente com esse torcedor. Pedir resguardo, pedir que usassem máscaras, pedir cuidados, pedir que todos se vacinassem.

Verdade, o futebol não tem obrigação contratual de fazer o que o governo não fez. Mas teria, sim, dever moral de devolver à sociedade um pouco, pelo menos um pouco, da riqueza que acumulou ao longo desses anos todos mesmo praticando um futebol que, verdade seja dita, já deveria ter nos afastado dos campos e dos "pagar para assistir" há temos.

O futebol brasileiro deixou escapar uma chance enorme de mostrar que pode ser melhor e maior. Em vez disso, seguiu se apequenando em seu castelo de mármore limpo com passadas de pano para assédios sexuais e batalhando para continuar arrecadando de todas as formas possíveis durante a pandemia.

O futebol brasileiro, enquanto instituição, é uma vergonha nacional. Que quando tudo isso passar a CBF possa ser refundada e que a nova associação seja capaz de montar um corpo diretor que represente esse país como ele precisa ser representado, com diferentes sexos, sexualidades e cores. Que o futebol possa perder a alma de ser um negócio que compactuou com o genocídio para recuperar a alma de ser vida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL