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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly: A última grande inovação futebolística

Jogadores do Flamengo comemoram 2º gol de Bruno Henrique na partida contra o Barcelona-EQU - Staff Images / CONMEBOL
Jogadores do Flamengo comemoram 2º gol de Bruno Henrique na partida contra o Barcelona-EQU Imagem: Staff Images / CONMEBOL
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

23/09/2021 12h58

A última grande inovação no futebol foi o pobre jogador que se deita atrás da barreira para que o chute rasteiro não chegue ao gol. Não por acaso, é um recurso de defesa e não de ataque. Não por acaso, é um recurso tão eficiente quanto desmoralizante. No mais, o jogo segue sem nada de novo. Gasta-se tempo e ideias na formação de sistemas defensivos cada vez mais rebuscados, de formas criativas de fazer faltas táticas para interromper o adversário de atacar. Esse é o futebol de hoje, reflexo da sociedade amedrontada e confinada na qual vivemos.

O medo como afeto político central e o único objetivo de ser campeão, a qualquer custo, para poder levantar a taça e, com ela, dinheiro e patrocínios. Futebol virou negócio e quase nada além disso.

Quando um time, mesmo que seja o time que você chama de rival, ameaça romper com essa lógica acovardada é preciso torcer por ele. O Flamengo desafia o jogo bruto, truncado, defensivo e, desde Jesus, atua para entreter, emocionar, comover. Há os que critiquem o aspecto vulnerável dos sitema defensivo - e eles terão razão. Mas um time organizado para atacar, criar, construir vai sempre ser aquele mais propenso a levar gols. Será que existe alguma coisa muito errada com isso?

Numa sociedade que se divide entre vencedores e perdedores, sim. Mas uma sociedade assim clivada nunca vai ter espaço para arte, poesia, música. Essas atividades serão sempre marginalizadas, tomadas como ingênuas, protagonizadas por aqueles e aquelas que não entenderam por que estamos aqui.

É uma pena que essa forma empresarial de existir tenha nos contaminado a esse ponto. Uma pena que o futebol brasileiro tenha se tornado um território de pontapés, desarmes, faltas, defesas e de pouca coisa além disso. Uma pena que o drible, esse fundamento tão nosso, tenha virado ofensa, imoralidade.

Minha confiança é a de que o futebol acabe se impondo pela via da imprevisibilidade, do mistério, da magia. É nossa única chance. E por isso hoje eu torço. Nem que precise me pegar, para meu próprio espanto, torcendo para o Flamengo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL