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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly Lacombe: Marta livre

Internado, Pelé assiste ao jogo entre Brasil e Argentina no futebol feminino - Instagram
Internado, Pelé assiste ao jogo entre Brasil e Argentina no futebol feminino Imagem: Instagram
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

20/09/2021 19h25

Em meus devaneios, se eu fosse treinadora da seleção brasileira de futebol, a primeira coisa que eu faria seria chamar Marta de lado e perguntar: "Como você quer jogar? Me diga como você se sente bem em campo e vamos organizar o time a partir disso". Claro que eu não tenho a categoria de Pia Sundhage para treinar uma seleção com o peso da brasileira, ou nenhuma outra, mas em meus delírios eu agiria assim.

Vendo o amistoso da seleção brasileira contra a seleção argentina nessa segunda-feira eu fiquei com a impressão de que Pia mais ou menos concorda comigo. Senti um misto de alegria e de tristeza ao perceber Marta jogando mais solta, mais perto da área, mais alegre. Senti tristeza porque não foi assim que ela jogou em Tóquio; e alegria porque Marta jogando livre e na intermediária adversária é um evento iluminado pela mesma força que acendeu as estrelas.

Como Marta mesmo disse, a hora dela é agora. Não é amanhã, e não vai existir uma Marta para sempre. Seria muito importante que a gente deixasse ela livre para ocupar os espaços que julga importante serem ocupados. As demais jogadoras são incrivelmente talentosas e como muitas são jovens e têm o fôlego da idade, não seria demais pedir que corressem um pouco por Marta, para que, assim, a melhor jogadora da história do futebol feminino pudesse estar livre para ser - enfim - aquela rainha que todas e todos nós, incluindo o rei, gostamos de ver.

O resultado? Vencemos por 4x1, Marta fez um gol de falta que, francamente, eu poderia ficar vendo em looping de tão primoroso e, outra vez, abrimos as portas para nossos maiores e mais malucos sonhos. Como se o futebol existisse para qualquer outra coisa que não exatamente essa: nos deixar sonhar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL