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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly Lacombe: Quanta paixão ainda existe no futebol?

Daniel Alves é apresentado pelo São Paulo no gramado do Morumbi - Amanda Perobelli/Reuters
Daniel Alves é apresentado pelo São Paulo no gramado do Morumbi Imagem: Amanda Perobelli/Reuters
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

10/09/2021 17h38

Um dia o futebol foi paixão. Era o território onde formávamos nossas subjetividades, onde aprendíamos a perder, chorar, sofrer. Onde convivíamos com a alteridade abraçados àqueles que em nada se pareciam com a gente, mas que torciam por um mesmo time e estavam numa mesma arquibancada. Um dia os estádios foram espaços que reuniam todos e todas, ricos e pobres, abastados e excluídos. Um dia houve jogadores que vestiram as camisas de nossos clubes por amor. Ou que se apaixonaram por ela enquanto, cobertos com o manto, construíam uma história.

Futebol um dia foi paixão, perda de sentidos, entrega, salto no abismo. Um dia.

Hoje o futebol é negócio. Falamos em termos de orçamentos, marketing, metas, balanços. Jogador é mercadoria. Se precisar fingir paixão por uma camisa, que assim seja. Vende mais se parecer sincero.

Num mundo dividido entre patrões e empregados, jogador é empregado. É trabalhador. Difícil pensar assim se imaginarmos que estamos falando de milionários. Mas será que estamos?

Em matéria da agência Estado intitulada "Brasil paga salário mínimo para mais da metade dos jogadores", ficamos sabendo o seguinte:

"Uma pesquisa divulgada pela plataforma Cupomvalido.com.br, que reuniu dados da CBF, Statista e E&Y sobre o esporte, mostra que mais da metade dos atletas que atuam no Brasil tem de se virar com um salário mínimo.

"Baseado em vencimentos com carteira de trabalho assinada, o levantamento indica que 55% dos boleiros recebem a remuneração de R$ 1.100, não considerando, por exemplo, os direitos de imagem. Entre os jogadores que faturam até R$ 5.000 o porcentual cai para 33%. Somente 12% têm remuneração superior a R$ 5.001.

"De acordo com o estudo, o Brasil possui 7.020 clubes registrados, sendo que 874 agremiações são profissionais ativas. A região Sudeste é a que aloja a maior parte desses times (39%) e a que paga melhor também (média de R$ 15 mil). Já os vencimentos mais baixos estão concentrados no Nordeste (em torno de R$ 1.000). O País possui mais de 360 mil atletas registrados, sendo que 25% são profissionais.

"Num comparativo a esse cenário de penúria para a maioria dos jogadores que atua no Brasil, Neymar é um objetivo quase inalcançável para quem corre atrás da bola. Principal nome brasileiro em atividade no planeta, o atacante revelado pelo Santos embolsa R$ 405 milhões ao ano. Se for considerado os rendimentos com publicidade e patrocínio, as cifras alcançam R$ 501 milhões. O estudo indica que cerca de R$ 52 bilhões são movimentados no futebol aqui no Brasil. De acordo com a pesquisa, 80% do valor total dos salários está concentrada em apenas 7% dos atletas".

É uma realidade que nos escapa. E por nos escapar ficamos sem saber como analisar o episódio Daniel Alves x São Paulo, ficamos sem saber o que pensar de Neymar e suas firulas verbais, sem saber o que pensar do craque que parecia amar nosso time e, ainda assim, decidiu sair. Como devemos conformar e implicar esses atletas dentro de nossos afetos? Devemos enxergá-los como homens privilegiados que são pagos para fazer aquilo que faríamos de graça em nome de uma paixão? Devemos dirigir a eles nossa ira por se comportarem como mercadorias?

Neymar não consegue entender por que não é amado de forma unânime. Se eu fosse ele, tampouco entenderia. Vejam: se tudo no mundo funciona como uma planilha, se o que esperam de mim é performance, por que exatamente não sou adorado? Não podemos jamais desconsiderar que o racismo faça parte dessa raiva - porque o racismo faz parte de absolutamente tudo em um país erguido sobre 400 anos de escravidão.

Só que o território social é um território de circuito de afetos. São os afetos que nos levam a julgar e a agir. Quando o pai de Neymar tenta negociar com Jair Bolsonaro uma colossal dívida com a Receita ele está mobilizando muitos afetos. Quando Neymar é acusado de abuso sexual, ele mobiliza outros tantos. Quando Neymar escolhe simular uma falta a seguir jogando, ele mobiliza mais uma penca de afetos. Quando Neymar posa sorridente ao lado de um presidente genocida ele está mobilizando mais um tanto de afetos.

O modo como somos afetados nos leva a sentir e a reagir.

Que afetos o futebol e aqueles que atuam profissionalmente, de jogadores a dirigentes passando por empresários, têm mobilizado? São bons afetos? Não me parece que sejam.

Como podemos começar a entender esses cenários emocionais cheios de complexidades?

Eu tenderia a sugerir pensar nos seguintes termos: jogador de futebol é classe trabalhadora e com ela deveria compactuar. Aliar-se aos anseios, sonhos e desejos da classe trabalhadora. Aqueles 7% que concentram 80% dos salários deveriam agir em nome dos 93% que estão de fora dessa conta. E estamos falando apenas do futebol masculino: o cenário do feminino é ainda mais triste e perverso.

Quando Daniel Alves ou qualquer outro jogador se manifesta publicamente a favor de uma administração que trabalha pesado e sem descanso em nome da concentração e do acumulo de riqueza, que levou o preço do botijão de gás a 150 reais em algumas regiões, que fez o preço da gasolina se aproximar de sete reais, que fez a fome voltar ao Brasil, que compara negro a gado e que diz que família sem pai ou avô é fábrica de elementos desajustados ele está jogando contra 93% de seus colegas. Apoiar Paulo Guedes e Jair Bolsonaro é apoiar esse estado de calamidade econômica e social. E nesse lugar temos um nó difícil de ser desfeito. Mas é para ele que precisamos olhar.

O mundo mudou, é verdade. E mudou para melhor. Mas estamos passando por uma zona de turbulência que envolve perda de muitos direitos e um retrocesso econômico perverso. Seria preciso que todos aqueles que cruzaram fronteiras impossíveis de serem cruzadas atuassem em nome dos que hoje sofrem e da classe trabalhadora. E isso vale para o futebol e para qualquer outra coisa na vida.

Talvez o futebol não volte a ser o que foi, mas por que não sonhar com o dia em que teremos construído um esporte com menos desigualdades, menos miseráveis e - Oxalá - mais criatividade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL