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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como o skate revolucionou nossas vidas a partir dos Jogos de Tóquio

Rayssa Leal executa manobra na final do skate street feminino nas Olimpíadas de Tóquio - Jeff PACHOUD / AFP
Rayssa Leal executa manobra na final do skate street feminino nas Olimpíadas de Tóquio Imagem: Jeff PACHOUD / AFP
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

05/08/2021 12h30

Ninguém estava preparado para ser atravessado pelo skate nesses jogos olímpicos. Eu não estava. E nem sei, de verdade, se o fenômeno é mais localizado ou se o impacto foi sentido no mundo inteiro. O fato é que o skate olímpico foi a melhor coisa que aconteceu desde que fomos paralisados pela pandemia.

De esporte marginalizado à paixão nacional; de prática proibida a objeto de desejo. Mas por quê?

Acho que os motivos são tão singelos quanto potentes.

A união entre competidores e competidoras, que não é exclusiva do skate, mas que é mais apaixonante. Há momentos em que não parece que aquelas pessoas estão competindo; a impressão é que estão apenas se divertindo. Entre sessões eles e elas dançam, cantam, se abraçam.

Quando alguém cai e se desestrutura emocionalmente, os demais partem para um abraço solidário. A vitória de um tem gosto da vitória de todos e de todas. Competem sorrindo, mas não se acanham em se mostrar tristes com tropeços. É muito afeto poderoso circulando, e estamos todos e todas precisados e precisadas desse tipo de emoção.

A linguagem que envolve o skate é, para quem não tem familiaridade com o esporte, muito nova e essa é uma outra das maravilhas que a atividade fez por nós. Linguagens novas, linguagens adaptadas, linguagens revolucionárias nos mobilizam de modos diferentes, e é esse tipo de mobilização que pode nos ajudar a sair do atual estado de coisas.

Quando Karen Jonz usou o substantivo xereca como verbo - e Jonz estava apenas fazendo circular a linguagem dos skatistas - ela iniciou um movimento sem volta.

Xerecar a vida tem significados potentes na sociedade atual. Quando a gente diz que o futuro é feminino não queremos dizer que o futuro é das mulheres ou às mulheres pertence. Queremos dizer que só sairemos dessa enrascada em que nos metemos quando as características atribuídas ao feminino - cuidado, solidariedade, carinho, ternura, comunhão, atenção - circularem livremente entre todos os seres humanos. Esse enxerecamento da vida é a saída para dias melhores e Jonz nos fez um enorme favor ao transformar nossas bucetas em verbo.

O skate nos afetou a todos de um jeito inédito, e as revoluções nascem a partir de novos afetos. Nas palavras do professor Vladimir Safatle: "As transformações políticas não são questões de novas ideias, mas de novos afetos. Não são novas ideias que produzem grandes transformações; são novos afetos que produzem grandes ideias."

Obrigada skatistas de todo o mundo: vocês abriram uma fresta em nossas cabeças e é pelas frestas que a luz gosta de entrar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL