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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Olimpíadas de 2021 mostrarão que nada jamais será como antes

Paulinho, atacante da seleção olímpica, durante treino no CT do Palmeiras - Marco Galvão/CBF
Paulinho, atacante da seleção olímpica, durante treino no CT do Palmeiras Imagem: Marco Galvão/CBF
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

21/07/2021 18h07

Diante do que estamos vivendo, diante do desespero, do sofrimento, das perdas, do desamparo e do medo, pode parecer que tudo está apenas piorando, que dias melhores ficaram para trás, que estamos indo para o abismo.

Essa é, de fato, uma leitura aceitável da situação. Eu mesma tendo a fazer essa interpretação a depender do dia, da situação, do humor. Mas aí vêm pessoas como Douglas Souza, do vôlei, e Paulinho, do futebol, para me lembrar que as fissuras que já foram feitas nesse modo de existir do Brasil institucional são irreversíveis e que estamos caminhando para um lugar melhor e mais inclusivo - apesar de tanto sofrimento e destruição.

Douglas Souza está derrubando, sozinho, muitas partes do muro do preconceito dentro de um ambiente que, descobrimos recentemente, é um sólido reduto de apoiadores do atual mandatário e, portanto, de pensamentos fascistas, racistas, machistas e LGBTfóbicos. Ao usar suas redes sociais para performar feminilidade de forma inteligente, digna e honesta, Douglas convida a torcida brasileira a fazer parte da festa da inclusão.

Já o atacante Paulinho, ao, abertamente, reverenciar um Orixá escrevendo texto primoroso no qual diz, entre outras maravilhas: "nunca foi sorte, sempre foi Exu" e "Que Exu ilumine o Brasil", também crava seu nome na luta contra a intolerância e contra o racismo religioso. O texto é histórico e pode ser lido aqui.

Mas teve mais, e os Jogos nem bem começaram: a narradora Natália Lara, do SporTv, deu uma aula sobre identidade de gênero durante jogo entre Canadá e Japão, pelo torneio de futebol feminino, ao explicar, por ocasião de uma substituição, o por que do uso dos pronomes neutros para se referir a uma pessoa trans não binária.

A seleção australiana de futebol feminino entrou em campo com a Bandeira aborígene em vez de usar a tradicional, fazendo uma importante homenagem às populações originárias da Austrália. Enquanto as australianas se manifestavam, a seleção da Nova Zelândia, adversária da Australiana, se ajoelhava em campo contra o racismo.

Há dias em que o pessimismo predomina e parece que tantas lutas, tanto sangue, tantas perdas e tanto esforço talvez não nos levem muito longe. Mas há outros em que basta prestar atenção para enxergar que heróis, heroinas e heroines estão por todos os lados, de cabeça erguida, fazendo o que até ontem parecia impensável.

Como ensina o professor Vladimir Safatle: política não é apenas um lugar de regras, leis e normas; é também uma questão de novos afetos. Aos sermos afetados de formas diferentes somos capazes de nos transformar e, transformados, de alargar nossa capacidade de incluir, servir e amar.

Essa vai ser uma Olimpíada terrível para fascistas e conservadores em geral porque, como ensina o aforismo, Exu matou um pássaro ontem com a pedra que jogou hoje: estamos transformando o presente de tal forma que o passado será reescrito e o futuro, com sorte, salvo. Vai ser uma tremenda Olimpíada.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL