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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O Corinthians de Sylvinho e o futebol que se opõe à movimentação

Técnico Sylvinho durante treino do Corinthians no CT Joaquim Grava - Rodrigo Coca/Agência Corinthians
Técnico Sylvinho durante treino do Corinthians no CT Joaquim Grava Imagem: Rodrigo Coca/Agência Corinthians
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

21/06/2021 17h38

Quem assiste aos jogos do Corinthians sabe que o time joga de forma dormente. É uma equipe que não corre, que prefere o toque de bola lento - lateral ou para trás -, que é incapaz de encaixar um contra-ataque porque, naturalmente, contra-ataque exige velocidade.

Justiça seja feita, esse modo de existir em campo vem desde Carille. É um teste para nossa capacidade de se manter de olhos abertos. Sylvinho, que chegou falando em intensidade, talvez precise de mais tempo para acordar o time, e de fato esse Corinthians que estamos vendo há cinco jogos já é um time mais coeso do que o de Mancini - mas ainda muito, extremamente, catatônico.

Se no papel o Corinthians não é um super-time, longe disso, é bastante possível que uma equipe bem treinada composta por jogadores jovens e não estrelados seja competitiva, dinâmica, criativa. Para isso palavras como movimentação e intensidade precisam ser pilares de construção da nova forma de jogo.

Acontece que o Corinthians sucumbe ao futebol conservador, organizado a partir do medo como afeto central, assombrado pela possibilidade de errar, de perder, de sofrer gols.

Um time que atua mobilizado pelo medo e pela segurança extrema, além de não conseguir evitar levar gols, vai ter que abrir mão de se arriscar, de jogar em velocidade, de trocar passes rápidos em espaços curtos.

Um time assim organizado, vai se movimentar pouco quando tem a posse de bola e vai desencorajar que os jogadores ousem deixar suas posições em campo em nome de um suposto controle do jogo. É isso o que estamos vendo. Mais do que deficiências técnicas, a questão corintiana passa pela falta de movimentação e de intensidade.

O futebol oferece a possibilidade de um time jogar mais coeso em espaços pequenos - e aí toques rápidos e movimentação são determinantes - ou alargar o campo e ocupar os espaços maiores, com movimentação (sempre) e lançamentos, que é o que faz o Palmeiras de Abel. O Corinthians não tenta ne uma coisa, e muito menos a outra.

O clube que se diz do povo deveria fazer constar de seu estatuto a forma como se comporta em campo. Palavras como entrega, intensidade, criatividade, luta, união, solidariedade e alegria poderiam orientar a formação de uma cultura de jogo. Vida é movimento e o futebol, que como arte tem a função de ser também uma crítica da vida, precisa ser movimentação e intensidade constantes. Quando veremos o Corinthians jogar com a alegria e a intensidade que o futebol merece?

Se seguir atuando sonolentamente, o Corinthians vai ficar ali da metade para o fim da tabela e a melhor notícia que poderá oferecer ao torcedor e à torcedora em 2021 é a de não ser rebaixado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL