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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

É proibido se apaixonar pelo jovem craque do seu time

Kayky comemora gol do Fluminense contra o Junior Barranquilla pela Libertadores - Mailson Santana/Fluminense FC
Kayky comemora gol do Fluminense contra o Junior Barranquilla pela Libertadores Imagem: Mailson Santana/Fluminense FC
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

07/05/2021 17h27

Toda vez que eu vejo o garoto Kayky, do Fluminense, pegar na bola eu sinto emoções contraditórias: uma mistura de tristeza e exaltação, uma sensação de começo e de fim.

Kayky, o atacante de 17 anos que na quinta-feira 6 de maio fez o gol de empate do Flu no jogo contra o Junior Barranquilla, sai do time em dezembro. Foi vendido por quase 200 milhões de reais ao Manchester City.

Vamos fazer um parenteses aqui para dizer que o City de Manchester pertence ao City Football Group, empresa de Abu Dhabi, dona de outros tantos times pelo mundo: O City Football Group , de Abu Dhabi, é dono de Manchester City (Inglaterra), Melbourne City (Austrália), Montevideo City (Uruguai), Lommel (Bélgica), New York City (EUA) e Mumbai City (India), além de ter participações em Girona (Espanha), Sichuan Jiniu (China), Yokohama Marinos (Japão), Troyes (França) e Bolivar (Bolívia). A corporação está ligada a outras corporações que atuam no ramo de extração de combustíveis fósseis e de venda de petróleo e de gás. Fecha parenteses.

Quem já viu Kayky em campo sabe que o garoto é um extraordinário e que deve se transformar em um craque. Hoje, forma o ataque com Fred e Luiz Henrique, outro jogador muito acima da média e que nasceu na base do clube.

Cair de amores pelos dois não vai levar o torcedor do Fluminense a lugar algum: é certeza de abandono, sofrimento e saudade. Não faz isso não, vai por mim. O máximo que podemos desejar de uma relação com essas promessas é, num futuro próximo, vê-los em um campo europeu e, orgulhosos, apontarmos para a TV dizendo: nasceu no Flu!

Mas os entendidos da economia do futebol explicam pacientemente que é preciso vender jogadores para colocar dinheiro em caixa. A gente balança a cabeça como quem concorda sabendo perfeitamente que, se a venda de jogadores jovens para times europeus resolvesse balanços, clubes como Santos, Fluminense, Palmeiras, São Paulo e Corinthians - para citar apenas alguns que trabalham bem suas bases - não estariam com seus caixas arrombados. E, ainda assim, aceitamos como verdade incontestável que fazemos os craques para que eles sejam vendidos porque essa é uma espécie de lei universal, da mesma forma que o sol nasce no leste e se põe no oeste e isso não podemos mudar.

Se aceitarmos essa premissa, a pergunta seguinte deveria ser: se o clube não está ganhando com a venda desses meninos, quem então está ganhando?

A partir daí, um tanto de outras questões apareceriam.

Seguindo uma lógica dialética de pensamento daríamos no: por que precisamos nos curvar ao domínio europeu? Por que devemos imitar tudo o que eles fazem, da entrada em campo dos jogadores e juízes até a forma como o jogo é cronometrado na tela da TV? Não somos nós os maiores formadores de craques? Não somos nós os conhecidos como "o país do futebol"? Talvez precisemos mudar nossa linha fina para "o país que forma e exporta seus craques".

Aceitamos com muita tranquilidade explicações ruins para problemas sérios, essa é a verdade. Como a tal da "Guerra às drogas", que há décadas não dá resultado nenhum e apenas mata inocentes, traumatiza as favelas e periferias do Brasil, executa nossos jovens. Por que seguimos acreditando nela? Por que não exigimos que não se mate mais em nosso nome? Por que seguimos acreditando no "se vendermos mais esse craque teremos, finalmente, saúde financeira".

Nosso futebol está às vésperas de ser completamente colonizado por esses grupos empresariais de nome gringo com cede em paraísos no oriente médio.

"Sucateie para vender", diz o ditado para indicar como as empresas estatais são oferecidas aos gringos por um preço infinitamente menor do que valem. Nossos clubes estão sucateados, a lei já permite que existam aberrações como um time que se chama Red Bull Bragantino, e é uma questão de pouco tempo para que vejamos nossos times virarem empresas.

É o que queremos? Um time existe para dar lucro? Para ter gestor? Para ser uma empresa de compra venda de uma mercadoria que um dia já chamamos inocentemente de "jogador"? Para ter sócio-torcedor? Para ser proprietário de uma "arena"? Para servir de propaganda para as empresas que seguem extraindo do solo nossos recursos finitos levando o planeta ao caos climático? Onde vamos jogar bola quando tudo for savana?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL