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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Imoralidade FC

Fronteira entre área de cultivo de soja e a floresta amazônica em Mato Grosso - Paulo Whitaker
Fronteira entre área de cultivo de soja e a floresta amazônica em Mato Grosso Imagem: Paulo Whitaker
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

22/02/2021 17h59

O torcedor do Inter que pagou para escalar Rodinei, Elusmar Maggi, pertence à sétima família mais rica do Brasil de acordo com a Revista Forbes; e, em 2014, teve fortuna estimada em 4,9 bilhões de dólares. Estamos em 2021, então é razoável pensar que esse valor deve ter aumentado bastante.

Mas, obviamente, cada um é dono do seu dinheiro e, sendo ato legal, coloca ele onde quiser. Nada de errado até aí desde que esse absurdo acúmulo não tenha usado atalhos para se acumular (evasão, sonegação, exploração, corrupção). Não tendo caído em nenhuma dessas tentações criminosas que tanto colaboram para a desigualdade da nossa sociedade, segue o jogo e escale-se Rodinei.

O que me intriga nesse episódio distópico de um torcedor ter pago a multa de um milhão de reais para que Rodinei, que está emprestado pelo Flamengo ao Inter, pudesse jogar contra o clube ao qual ainda pertence, é outra coisa sobre a qual gostaria de falar.

Quem são aqueles que têm um milhão nesse país que a cada dia se afunda um pouco mais na miséria? Os Maggi tem muitas vezes isso aí.

Segundo matéria publicada pelo UOL, a fortuna da família Maggi - aquela mesma de Blairo Maggi, ministro da agricultura de Temer - vem de uma das maiores plantações de soja do mundo. E aqui precisamos fazer um desvio.

Mais de 95% da colheita de soja vem de variedades geneticamente modificadas resistentes a pesticidas. Já teríamos aí um problema. Mas tem mais. O principal destino da soja é a ração animal e algumas das melhores regiões do mundo para que a soja seja plantada são as florestas (a cada dia mais) desmatadas do nosso país.

Na Amazônia brasileira, mais de 400 mil quilômetros quadrados de floresta tropical foram derrubados nos últimos 30 anos, segundo dados do Instituto Brasileiro de Pesquisas Espaciais: parte para pasto, parte para o cultivo de soja.

Vivemos numa sociedade em que a riqueza está acumulada de forma imoral, e quando essa riqueza para se acumular depende da destruição do planeta, que causa, entre outras mazelas, aquecimento global e o aparecimento de pandemias, temos sim que falar sobre isso.

Num mundo socialmente justo, sem pandemias e onde o futebol pudesse funcionar como uma arena dos sonhos, talvez não houvesse nada imoral nesse pagamento de um milhão de reais por Rodinei.

Mas nesse mundo em que vivemos, à beira de terminarmos com a possibilidade de vida decente no Planeta, com os trilionários ensaiando um teatro bizarro que envolve a colonização de Marte e no meio de uma pandemia que já levou a vida de 250 mil brasileiros, acho que precisamos sim falar de como algumas riquezas estão sendo acumuladas e usadas.

A história do pagamento de um milhão de reais que deu a Abel Braga o direito de escalar Rodinei que acabou sendo expulso e assim colaborou magistralmente para que seu time saísse derrotado, teve, para os roteiristas dessa novela chamada Futebol, um final triunfal - e assim vai ser registrada pelos livros. Mas é hora de não nos acanharmos desse outro debate.

Porque somos nós, que não acumulamos mega fortuna nenhuma, que sentimos os efeitos desse acúmulo no nosso dia-a-dia; circunstância que afeta todas as relações humanas e afeta tão tristemente esse jogo que a gente ama.

A gente precisa começar a entender quem são, o que fazem e como reproduzem seu capital aqueles que mandam no Brasil.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL