PUBLICIDADE
Topo

Julio Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por que não pensar em Ancelotti, campeão em cinco países, na seleção?

Carlo Ancelotti seria um bom nome para a seleção brasileira? -  Pool via REUTERS/Peter Powell
Carlo Ancelotti seria um bom nome para a seleção brasileira? Imagem: Pool via REUTERS/Peter Powell
Conteúdo exclusivo para assinantes
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

01/05/2022 04h00

Qualquer técnico brasileiro sonha em ser o treinador da seleção brasileira e largaria tudo pela chance (menos Muricy). Mas a realidade não é a mesma lá fora. A Argentina nunca conseguiu convencer caras como Simeone, por exemplo. Na Europa, é a mesma coisa. O universo de clubes é mais valorizado do que o universo de seleções.

Com a saída de Tite após a Copa e a onda de treinadores estrangeiros no futebol brasileiro, é grande a chance de a CBF ir atrás de um importante nome internacional. Sabemos que Guardiola e Klopp, os melhores, não são viáveis. Por que não pensar em Carlo Ancelotti no comando da seleção?

Campeão espanhol com o Real Madrid, neste sábado, Ancelotti tornou-se o primeiro técnico a triunfar nas cinco principais ligas domésticas da Europa. Com o Real, havia sido campeão europeu na primeira passagem (2014), mas não do Espanhol. Antes, fora vencedor também na Itália (Milan 04), Inglaterra (Chelsea 10), França (PSG 13) e Alemanha (Bayern 17).

Curiosamente, a variedade de títulos chama mais a atenção do que propriamente a quantidade. E isso fala muito sobre a personalidade de Ancelotti. Ele nunca foi um cara de colocar o ego por cima de tudo, criar atritos, atropelar obstáculos ou quebrar marcas, chegar a recordes, bater no peito.

Chegou ao Bayern para ficar por três anos. Ganhou praticamente tudo no primeiro, aí alguns caras do elenco não gostavam de ficar no banco e começaram a dar problema. O que faz Ancelotti? Não compra brigas, não vai à imprensa, não faz "de tudo" para ficar no cargo. Simplesmente, aceita e se manda.

Algumas decisões de carreira até podem ser contestadas. Poderia ter ficado mais aqui ou ali, não ter pego este ou aquele clube. Mas o fato é que Ancelotti sai "bem" de todos os lugares. É um agregador, não um destruidor nos ambientes em que trabalha. Gosta tanto disso que justifica assim o fato de nunca ter assumido uma seleção nacional: "Já pensei algumas vezes no assunto, tive a chance em 2018, com a Itália (após a Azzurra ficar fora da Copa). Mas tenho de ser honesto: gosto muito do dia-a-dia. Eu não gosto só dos jogos, eu gosto do trabalho diário. Enquanto isso for assim, será difícil eu assumir uma seleção. Não gosto de trabalhar três vezes por ano. A experiência de uma Copa do Mundo foi fantástica, espetacular, mas, quando o desejo de trabalhar todos os dias acabar, eu paro".

Em 94, um recém-aposentado Ancelotti (parou de jogar em 92, quando estava no Milan) foi assistente de Arrigo Sacchi naquela Itália vice-campeã do mundo. No ano seguinte, começou o voo solo. Treinou Reggiana, Parma, Juventus, Milan, Chelsea, PSG, Real Madrid, Bayern, Napoli, Everton e, quando a carreira começava a apontar para baixo, voltou para o Real - e para ser campeão.

Não considero Ancelotti um gênio tático, basta ver como o Real Madrid tem sofrido coletivamente em duelos da Champions League. É um treinador simples, básico, quase. Às vezes, o que um jogador e um time precisam é do básico mesmo. Do tipo: colocar Vinícius Jr para jogar sempre, não só às vezes.

Um técnico que tem algumas virtudes importantes, que o próximo treinador da seleção, principalmente se for estrangeiro, tem que ter. É muito calmo, muito tranquilo, consegue ter uma relação saudável com imprensa, cria ambientes tranquilos onde trabalha, adapta-se muito aos diferentes países, fala idiomas, conhece estrelas e sabe lidar com egos. Não é muito diferente de Tite, por exemplo, no jeito de ser.

Tem mais: no histórico, tem grande relacionamento com jogadores enormes da seleção (Cafu, Kaká, Dida, etc, etc, etc), que poderiam ajudá-lo em vários aspectos. A lista é longa, até por ter passado por tantos clubes importantes da Europa.

Queremos um técnico estrangeiro para revolucionar o futebol brasileiro, trazer táticas atualizadíssimas e mexer no futebol de base, nos conceitos, no imaginário popular? Aí, realmente seria necessário buscar outro nome. Queremos um técnico estrangeiro que faça uma transição suave, que se esforce para compreender o Brasil e o brasileiro, que conquiste a confiança geral e ganhe uma Copa do Mundo? Eu pensaria em convencer Carletto.