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Julio Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A magnífica experiência amazônica e a frustração de uma Copa perdida

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Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

27/01/2022 16h00

Todo brasileiro deveria ter a chance de visitar a Amazônia. É com este sentimento utópico que deixo Manaus, cidade que sempre quis conhecer - as férias em família justificam a pausa desta coluna por um período maior do que o habitual. Estamos de volta, junto com os Estaduais! Eu já falarei das coisas boas - e são muitas - da Amazônia. Mas para mim foi impossível, durante a viagem, esquecer da Copa do Mundo e da primeira coisa que se vê ao sair do aeroporto de Manaus: a Arena da Amazônia.

Foram 660 milhões de reais gastos para a construção da arena, que hoje custa mais ou menos 1 milhão por mês. Ela foi tratada na época - e segue sendo até hoje - como o grande "elefante branco" da Copa. Não tem elefante no Amazonas. Mas tem pirarucu, sucuri, jacaré, bacurau, gavião, tambaqui, tucuxi, macaco, preguiça, iguana, boto cor-de-rosa...

Para que serve um grande evento, se não para mostrar ao mundo tuas belezas naturais, atrair o turismo e pagar o investimento feito com ganhos de longo prazo? É impossível um gringo não pirar com as coisas que eu vi e vivi nos últimos seis dias. Americanos, japoneses, chineses, essa turma vai fazer turismo em lugares mais caros e muito, mas muito menos bonitos. Como conseguimos não aproveitar a Copa?

(Parênteses: claro que uma Copa pode ser usada para fins políticos, como fará o Catar neste ano. O vídeo lá no topo da página, da edição #34 do Podcast Futebol Sem Fronteiras, comigo e Jamil Chade, fala sobre isso).

O absurdo não foi fazerem um estádio em Manaus. O absurdo seria ter uma Copa do Mundo no Brasil sem um estádio em Manaus. Como poderíamos pensar em deixar a Amazônia de fora? Dito isso, porém, o ceticismo tinha razão de ser. Somos um país simplesmente incapaz de aproveitar oportunidades. Uma sociedade que não gosta, não consegue viver dentro de planejamentos, cronogramas, longo prazo.

De que serviu a Copa para Manaus? Como fugir da resposta mais simples ("serviu para um monte de gente ganhar dinheiro com a construção de um elefante branco e deixar a conta para a população pagar")? É difícil fugir dessa resposta. Possivelmente ela seja a única. E dá uma agonia danada pensar que perdemos a grande oportunidade de fazer explodir o turismo em um local tão especial, tão diferente de tudo.

Sabem quem jogou em Manaus? Os Estados Unidos. A Inglaterra. A Itália. Portugal. Clientes perfeitos. Sabem com quanto tempo de antecedência se sabia disso? Mais de seis meses. Qual foi o trabalho feito por Manaus e o Amazonas no período pré-Copa e pós-Copa junto a estes e outros públicos? Vou dar apenas um dado: o número de passageiros no aeroporto de Manaus em 2019 (antes da pandemia) foi o mesmo de 2013. Acho que o número, por si só, mostra que não houve nenhuma mudança brutal em relação ao turismo na Amazônia.

Certamente houve uma melhora aqui, outra ali, na cidade. Certamente há obras que saíram e outras que não saíram (o monotrilho, por exemplo). Mas o essencial, o mais importante, era fazer uma divulgação absurda em cima da Copa, capacitar a população local, fortalecer os empreendimentos turísticos e, posteriormente, aumentar, duplicar, triplicar o número de visitantes na região. Nunca ocorreu.

A Amazônia recebe turistas, é óbvio. Mas na mesma escala que antes. Recebe um ou outro jogo da seleção brasileira, é verdade. Outro dia o Vasco esteve por lá. Mas ao custo de 1 milhão por mês para os cofres públicos. O uso da arena não é tão "multi" como deveria ser em uma cidade de mais de 2 milhões de habitantes.

Aliás, falando de futebol, o que se vê nas ruas são basicamente referências a Flamengo e Vasco na região. Nas camisas, nos barcos, nas bandeiras fincadas diante de alguns sítios na estrada que sai de Manaus rumo ao Parque Nacional de Anavilhanas. Alguém teve a ideia de colocar telões, proporcionar uma experiência a 40 mil pessoas na Arena da Amazônia para ver a final do Flamengo na Libertadores, ano passado? Enfim.

A frustração se dá essencialmente porque isso aqui é maravilhoso. E agora, depois do desabafo, vamos à parte boa. Algumas dicas do que tive a sorte de poder fazer e viver. Sei que a realidade financeira não permite à maioria viver esta experiência - outro problema, o preço do turismo no Brasil, que empurra brasileiros para fora, não para dentro, mas este tema eu deixo para depois. Espero, aqui, ajudar um pouquinho a animar quem estiver pensando em vir e contribuir com o planejamento de quem efetivamente fizer a viagem.

Postei algumas fotos da viagem em minha conta no Instagram, para quem tiver interesse e me seguir por lá (https://www.instagram.com/juliogomesfilho).

ANAVILHANAS

Alguns dos famosos hotéis de selva estão em Novo Airão, a 180km de Manaus. É uma viagem que dura entre duas horas e duas horas e meia de carro. A primeira metade, por uma estrada duplicada, novinha em folha. A segunda metade, com mais buracos, mas ainda assim bem tranquila. Novo Airão é a base para conhecer o Parque Nacional de Anavilhanas, um arquipélago com centenas de ilhas, lagos, igarapés e igapós formados pela passagem do Rio Negro.

Há pousadas e outros tipos de hospedagem que não têm o carimbo e nem o preço dos tais hotéis de selva (que já incluem todas as refeições e passeios). Fiquei em uma pousada chamada Bela Vista, que fica na beira do rio e, para meu gosto, foi bastante "de selva". O dono é alemão, então o local é decorado com muitas placas e pôsteres da Europa. As bandeirinhas de dezenas de países penduradas e já com as marcas do tempo nos lembram que a decoração de época de Copa do Mundo era aquela. As iguanas tomam o café da manhã junto - aprendi que elas gostam de cascas de melão e mamão, mas não de melancia.

Eu não sou muito fã de pacotes fechados. Então gostei da opção de ajeitar meu traslado até lá (aluguei um carro, na ausência de opções melhores), ficar na pousada e combinar os passeios individualmente. Para isso, entrei em contato com a secretária da cidade do município, Suzianne Oliveira, que passou o mês de janeiro inteiro pacientemente respondendo minhas mensagens e me colocando em contato com vários atores locais.

O Reco (que se chama Redcleife em homenagem a algum personagem ou arista, mas ninguém sabe disso em Novo Airão - número 92 991599272) foi um baita guia para mim e minha família. Nos levou uma hora de barco para fazer a trilha que chega à gruta de Madadá. Passou por igarapés lindos. Levou também a uma prainha, a única sobrevivente nesta época. Isso é importante. Em janeiro, as praias ainda deveriam estar lá, mas o rio encheu muito mais cedo do que o previsto. Setembro e outubro parecem ser meses ideais para pegar a "seca", ou seja, as lindas praias que surgem na região. O primeiro semestre é época de cheia.

A Sandventure (@sandventure.san no Instagram), da San (92 984482028), foi a empresa com quem fiz os passeios "fora da caixinha". Andamos de bike aquática e stand up paddle. Essa foi uma grande decisão, pois o contato com o rio, a natureza, os bichos, a Amazônia, enfim, transforma-se em muito mais ativo do que passivo. Fazer o próprio passeio. Ir daqui até ali, com tuas pernas e braços, não pela força do motor do barco alheio. As meninas da equipe (Maria e Karen) são excepcionais, recomendo muito.

BOTOS

Sim, eles apareceram. Mas o rio é tão negro que é difícil observar para onde eles vão, quando vêm. Tem também o tucuxi, outro primo do golfinho, mas que não curte muito a interação com os humanos. Em Novo Airão, há um deck em que é possível, com o apoio de instrutores, ver os botos cor-de-rosa de pertinho. Um bicho muito gracioso, que corre risco de extinção. Segundo as instrutoras, antes a interação com os botos era na água, mas havia gente que batia nos bichos, dava cerveja a eles ou tentava montar neles. Sim, alguns seres humanos deram muito errado.

Agora, ficamos no deck. Dá para ver direitinho, passar a mão e tudo mais. E, segundo elas, os botos ficaram muito mais calmos desde a mudança. Em Manaus, ainda há passeios que levam para fazer a interação, digamos, ecologicamente incorreta.

MANAUS

É uma cidade grande. Para quem não tem o tempo e a grana para ir a Anavilhanas ou outra região de hotéis de selva, uma boa chance de "experimentar" a Amazônia em Manaus é conhecer o MUSA. Um jardim botânico que fica literalmente no limite entre cidade e selva, a meia hora do centro. Tem várias explicações e exposições legais, tem um aquário que nos mostra as dimensões de pirarucus e tambaquis, tem vitória régia e tem uma torre de 42 metros, de onde é possível ver um lindo pôr-do-sol e ficamos por cima da imensidão das árvores.

Em Manaus, há também locais que foram importantes um século atrás, quando o ciclo da borracha trouxe riqueza e muita gente para a região. O Teatro Amazonas é belíssimo, possivelmente o mais bonito do Brasil. Vale a pena visitar e conhecer por dentro - os espetáculos continuam acontecendo. Alguns dos restaurantes mais famosos de Manaus estão em volta dele, na região central da cidade.

ENCONTRO DAS ÁGUAS

O encontro do Rio Negro com o Solimões - que é o Amazonas - e um negócio surreal. Uma coisa é saber, ver na TV. Outra é presenciar. Botar a mão na água e notar a diferença da temperatura das águas. Deveria haver modos e mais modos de fazer este passeio em Manaus. Mas acaba que o mais econômico é mesmo ir até o Porto da Ceasa, que fica a uns 20 minutos do centro, e combinar lá mesmo com um dos barqueiros da cooperativa Solinegro. O nosso barqueiro, o Fred, nos levou também a uma pequena comunidade onde indígenas te esperam com bichos exóticos para tirar fotos (e pagar, claro) e fazer uma apresentação. Perfeito para gringos e para uma experiência rápida de alguns costumes. Ficar a um metro de uma sucuri solta rastejando no chão foi o que eu curti mais.

O passeio ainda pode incluir uma parada no Parque Janauari, onde uma trilha com macaquinhos assanhados leva ao visual das vitórias régias. Há restaurantes flutuantes ali também. Por perto, há um tanque com 24 pirarucus (o maior peixe de água doce) monitorados por biólogos, em que é possível brincar de tentar pescá-los. Logicamente, ninguém consegue. A força do bicho é extraordinária. Há opções de passeios maiores, que levam a outros flutuantes em outra parte da cidade e à interação com os botos entrando na água.

CULINÁRIA

Por fim, a explosão de sabores talvez seja a grande recordação que eu leve para casa. Entre restaurantes caros e outros nem tanto, Manaus oferece uma gastronomia amazônica extraordinária. O pirarucu é o "bacalhau da Amazônia", o tambaqui é o peixe mais gostoso que já comi na vida, tem o matrinxã, o tucunaré... O restaurante mais famoso é o Caxiri, em Manaus. Ruy Tone, o empresário que é dono do Caxiri, do Mirante do Gavião (um dos hotéis de selva em Anavilhanas) e do Flor do Luar (o restaurante flutuante famoso de Novo Airão) caprichou nos empreendimentos e nos cardápios. Aliás, é leitor desta coluna e nos permitiu almoçar no hotel sem estar hospedado nele (gratidão!).

Senti que falta um meio termo entre a vida real e alguns preços proibitivos, seja de restaurantes ou hotéis. Viagens "budgets" para a Amazônia deveriam ser mais fáceis de organizar, sem precisar passar por perrengues. Mas este é um desafio não só por lá e, sim, do país inteiro. Cobra-se muito, explora-se muito e existe a clara preferência por ganhar muito de poucos, em vez de ganhar pouco de muitos.

É o legado inexistente da Copa do Mundo, Olimpíadas e qualquer evento que se faça no Brasil. O turismo para poucos. O que os responsáveis pelo turismo no Brasil se esquecem é que os gringos também gostam de viagens que caibam no bolso. E é por essas e outras que acabam indo para outros lugares. Estamos restritos ao turismo para rico e o turismo do perrengue. Um dia, talvez, isso mude.

*Importante citar que todas as "propagandas" acima são feitas por serviços que paguei normalmente. É uma divulgação de coração, sem qualquer tipo de interesse.