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Julio Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Gomes: Gallardo cumpre ciclo no River e deveria ser alvo de todos os clubes

Marcelo Gallardo comemora título argentino do River Plate - Divulgação River Plate
Marcelo Gallardo comemora título argentino do River Plate Imagem: Divulgação River Plate
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Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

26/11/2021 11h19

O River Plate conquistou ontem, depois de vencer o Racing por 4 a 0, o título da Liga Argentina. Eram sete anos na fila, muito para um clube como o River, maior campeão do país. É preciso voltar ao período de 18 anos de seca, entre o fim da década de 50 e meados de 70, para encontrar um período tão grande sem títulos nacionais.

O título encerra com chave de ouro o ciclo de Marcelo Gallardo. Um ciclo que não era vitorioso em casa, mas que havia feito do River a maior força do continente - de 2014 para cá, foram dois títulos de Libertadores, uma final perdida no apagar das luzes para o Flamengo, uma Copa Sul-Americana e três Recopas.

Gallardo ainda não decidiu se vai ficar ou não no River Plate, mas todos sabem (e ele deve saber também) que é hora de avançar na carreira. Era importante ganhar o título doméstico, para que essa conta não ficasse pendente. E ele veio, afinal, em uma campanha irretocável e que decolou após a eliminação diante do Atlético-MG na Libertadores - foram 13 vitórias, 3 empates e nenhuma derrota desde então. Com foco somente no Argentino, não teve para ninguém.

Neste momento, a especulação mais forte é que Gallardo poderá assumir a seleção uruguaia, que demitiu Óscar Tabárez e tem quatro jogos decisivos entre janeiro e março para tentar a classificação para a Copa do Mundo.

O mercado de seleções não é a menina dos olhos dos grandes treinadores do mundo. Tanto que a Argentina, por exemplo, não conseguiu convencer seus grandes nomes, como Gallardo, Simeone ou Pochettino, a assumir a bucha. Mas o caso do Uruguai até pode ser interessante para Gallardo. Se ele conseguir classificar o Uruguai para a Copa, poderia disputar o Mundial daqui a um ano e voltar ao mercado em seguida. Seria um ano de "pausa" até retomar a carreira de técnico de clubes, caso ele assim deseje. Se não se classificar para a Copa, paciência, não foi ele quem colocou o Uruguai no buraco. E já estaria livre para assumir outro projeto no meio do ano.

O nome de Gallardo foi ventilado no Barcelona há alguns meses, mas não vemos o Manchester United, por exemplo, especular sobre ele. Ou o PSG, que não está satisfeito com Pochettino. Deveriam. Qualquer clube do mundo deveria estar de olho em Gallardo. É um técnico que se mostrou muito bom em três coisas que são essenciais: fazer o time jogar bem, com protagonismo e coragem; gestão de elenco, sem problema algum com estrelas, egos, etc; e capaz de se reinventar e reconstruir time - o que é uma realidade mais sul-americana que europeia, mas é uma necessidade constante por lá também.

Quando Gallardo for para a Europa e explodir, nunca mais haverá uma janela de oportunidade para um clube brasileiro. A hora é agora. Gallardo cairia bem em qualquer time daqui. Mas, se pensarmos de forma realista, em quem tem grana para pagá-lo, pensaremos em Flamengo, Palmeiras e Atlético.

Os três deveriam neste momento estar em conversas com os agentes de Gallardo. No caso do Flamengo e sua gestão, que é muito mais amadora e apaixonada do que vende, está claro que Renato cairá se não vencer a Libertadores. Sinceramente, não vejo por que tomar decisões assim em função de resultados. Se for campeão, Renato terá se transformado no técnico ideal para muitos anos? É claro que não.

No caso do Palmeiras, a vontade é segurar Abel. E aí tem sentido. Mas está claro que Abel não vai durar aqui por muito tempo. As ofertas continuarão chegando para ele e o futebol brasileiro não irá mudar em seis meses. O português continuará irritado com arbitragens, calendário, jornalistas, torcedores e vizinhos chatos, nossas mazelas, enfim. Uma hora ou outra, resolverá ir embora.

E o Atlético tem Cuca. Todos sabemos que Cuca tem prazo de validade. Aliás, o próprio Atlético já deveria saber bem disso. E o projeto do Galo, após a conquista do Brasileiro, deveria ser o de se consolidar como força nacional e continental, com um jogo condizente com o material humano que tem. Gallardo seria perfeito para as constantes reconstruções que o futebol brasileiro demanda e para fazer um time jogar bem, de forma a se impor sobre a concorrência.

Mesmo quem não tem a mesma realidade financeira deveria estar indo atrás dele: Corinthians, Inter e Grêmio, por exemplo.

Não acho que trocar a Argentina pelo Brasil seria um avanço para carreira de Gallardo. Ele e seus agentes deveriam estar de olho na Europa, mantendo as portas abertas para a Copa do Mundo. Mas quem lidera os clubes brasileiros têm a obrigação de ir atrás no que há de melhor no mercado.

Gallardo reposicionou o River Plate no continente. A realidade do futebol brasileiro dificulta que grandes técnicos se sobressaiam, nossa várzea fora de campo equilibra muito tudo dentro do campo. Mas ele poderia ter valor inestimável para quem conseguisse convencê-lo.

Na Europa, dirigentes são menos ousados para tomar decisões assim. Gallardo já jogou no PSG, por exemplo, tem alguma história no clube. Quem arriscar, será recompensado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL