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Julio Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Gomes: Um dia após o outro. Flamengo e Renato ganham aula de humildade

Renato Gaúcho lamenta gol sofrido pelo Flamengo contra o Athletico-PR na Copa do Brasil - Thiago Ribeiro/AGIF
Renato Gaúcho lamenta gol sofrido pelo Flamengo contra o Athletico-PR na Copa do Brasil Imagem: Thiago Ribeiro/AGIF
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Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

28/10/2021 04h00

Nada como um dia após o outro, nos conta o ditado. A Terra gira, ao contrário do que dizem alguns, e o passado sempre volta para nos atormentar quando damos brecha. Renato Gaúcho é vítima dele mesmo. O Flamengo, também.

Quando certo patamar é atingido, a postura passa a ter outro peso. "Saber ganhar" é tão ou mais importante do que "saber perder". Se a postura ao ganhar é a da soberba, logo virá a cobrança. Renato é mau ganhador e mau perdedor. Quando ganha, bate no peito e desdenha de rivais. Quando perde, transfere responsabilidades.

Há um ano, o Grêmio de Renato passava pelo São Paulo, de Diniz, na semifinal da Copa do Brasil. Depois daquele jogo, o atual técnico flamenguista fez um chulo paralelo machista para desdenhar do controle que o rival havia tido em campo - sem, no entanto, fazer os gols necessários. "Vou te contar uma historinha sobre posse de bola. Teve um cara que pegou uma mulher bonita e levou ela para jantar. Levou para jantar à luz de velas, conversou bastante. Saiu do restaurante, foi na boate e ficou até as 5 horas da manhã com ela. Gastou uma saliva monstruosa. Aí, na boate, chegou um amigo meu, conversou com ela 15 minutos e levou ela para o motel. Entendeu? Se não entendeu outra hora eu explico. Meu amigo ganhou o jogo."

Ontem, na entrevista após a derrota por 3 a 0 do Flamengo para o Athletico, jogo em que teve 73% de posse de bola, Renato não se lembrou da parábola. Mas reclamou algumas vezes da sorte, de "a bola não ter entrado", da postura do adversário...

Ele tem certa razão na análise do jogo. O Flamengo teve inúmeras oportunidades para fazer mais de um gol e mudar a história da partida, mesmo com todos os erros defensivos. Ter a posse de bola e transformá-la em 25 finalizações é uma tática que costuma dar certo. Ontem, por várias razões, não deu. Acontece, é do jogo. O que não é do jogo é ridicularizar o adversário quando as coisas dão erradas para ele.

Um ano antes desta infeliz declaração, no fim de 2019, Renato mostrou a faceta de mau perdedor. Desdenhou algumas vezes do trabalho de Jorge Jesus no Flamengo, dizendo que "se tivesse um time de 200 milhões, faria jogar bonito e ganhar". Agora ele tem. Não faz uma coisa nem outra. A Terra gira.

O Maracanã se manifestou duas vezes contra Renato ontem. Quando o mandou tomar no ** e quando cantou "ole, ole, ole, ole, Mister, Mister". Não tenho a menor dúvida de que a primeira ofensa entrou por um ouvido e saiu pelo outro. A segunda, no entanto, que nem ofensa era, certamente pegou fundo. Foi um tapa na cara. Magoou.

A torcida cantou também "time sem vergonha". E aí entramos em outro campo. O do torcedor de futebol que não aceita qualquer coisa que não seja a vitória. Ou ganha ou é "sem vergonha". É como se não houvesse um adversário do outro lado.

O hino do Flamengo diz: "Eu teria um desgosto profundo (...) Se faltasse o Flamengo no mundo". O hino do Flamengo não diz que "só há o Flamengo no mundo". Aliás, o hino do Flamengo é um dos poucos, se não único, que cita um adversário direto na letra (o Fluminense). O que mostra que o autor, pelo menos, não achava que só existia o Flamengo no mundo.

Mas é o que parece. Quando dirigentes atuam com arrogância e torcedores embarcam. O Flamengo sempre foi e será gigantesco, mas passou grande parte de uns bons 20 anos (do meio dos anos 90 ao meio da década passada) sendo café com leite. Competia regionalmente, mas não nacional ou internacionalmente, salvo a exceção de um ano ou outro. De 2019 para cá, o clube fez a superioridade financeira, construída com todo mérito, se transformar em superioridade esportiva.

Ganhou muita coisa. Ainda pode ganhar a Libertadores deste ano. Mas não é possível acreditar em supremacia. Foi este tipo de postura que fez o São Paulo, por exemplo, cair do cavalo (e está difícil montar de novo).

Por mais doída que seja uma derrota por 3 a 0, em casa, em uma semifinal de Copa do Brasil, não é possível chamar de "sem vergonha" um dos dois times mais vencedores da história do Flamengo. Alguém já gritou "time sem vergonha" para o Fla de Zico, nos anos 80? É claro que não.

A torcida precisa baixar um pouco a bola, compreender que o Flamengo não vai ganhar tudo e nem será o time hegemônico que os dirigentes querem fazê-los crer. Dirigentes, aliás, que precisam dar respostas. De que adianta ter orçamento de clube europeu, mas demitir um técnico atrás do outro em períodos tão curtos de tempo? Por que mandar Ceni embora? Quem autorizou ou pediu a Renato para que escalasse os principais jogadores do time mesmo sob risco de sentirem lesões? Por que áreas médica e de preparação física sofrem tantas mudanças e estão sob feudos políticos dentro do clube? O que aconteceu com Pedro?

Muitos torcedores de clube passaram a defender dirigentes de forma cega e apaixonada. Vemos isso claramente, por exemplo, quando citamos a absurda tragédia do Ninho do Urubu, que levou vidas jovens e inocentes, e denunciamos a maneira cruel como o clube lida com as famílias. Logo chega a tropa de choque digital para uma grande passada de pano.

Amar o clube não é defender cegamente o que falam e fazem seus dirigentes. Amar o esporte não é desprezar adversários. O Flamengo e Renato deveriam tirar lições do banho de humildade que receberam no Maracanã.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL