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Julio Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Gomes: Com todo respeito à seleção, mas hoje é o dia do rock, bebê

Nirvana  - Montagem: Pedro Antunes
Nirvana Imagem: Montagem: Pedro Antunes
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Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

24/09/2021 13h06

A seleção brasileira foi convocada. Foi-se o tempo em que isso era um grande evento. É só para a Copa do Mundo mesmo, cada vez mais só para a Copa do Mundo. Hoje, quero dedicar este espaço a outra seleção. A seleção de melhores discos da história da música.

Hoje, não há mais discos. Ou eles não fazem parte da relação com a música, que mudou. Não vou falar que é melhor ou é pior, simplesmente é diferente. Mas, 30 anos atrás, mal havia sido consolidada a troca de vinil para CDs. Discos, singles, clipes na MTV, tudo isso era importante. E não era um mundo conectado, não havia nem a Internet em nossas vidas. A globalização pós-Guerra Fria ainda engatinhava.

Exatamente 30 anos atrás, no dia 24 de setembro de 1991, foram lançados dois discos. Um chamado "Nevermind", de uma banda underground chamada Nirvana, formada por três rapazes. Outro, chamado "Blood, Sugar, Sex, Magic", de uns caras californianos de uma banda chamada Red Hot Chili Peppers.

Você pode gostar, pode não gostar. Pode ser de outra geração. Mas, indiferente, tenho certeza que nunca ficou a várias das músicas destes dois álbuns.

Qual a chance de dois discos tão enormes, tão históricos, tão fodas, com o perdão da palavra, terem sido lançados no mesmíssimo dia?? Vocês acreditam em coincidências? Quem é mesmo o Deus da música? Dizem que é Apolo. Esse cara deve ter trabalhado como nunca em 1991.

Não sou especialista em música. Sou apenas alguém que sempre ouviu muita música, que comprou discos na adolescência, que teve a sorte de poder ir a muitos shows. E que, depois de velho, resolveu aprender a tocar bateria. Até que estou indo bem. De "Nevermind", male male, já toco as minhas três músicas preferidas. De "Sex, Magic", ainda nenhuma. Mas vou tentar. O batera do Red Hot é muito fera. Já sobre Dave Grohl nem falo muito, porque me dá vontade de tomar uma breja com o cara e sei que isso nunca vai acontecer.

Em 1991, quando eu tinha 12 anos, não dei a menor bola para o que estava acontecendo no mundo da música. E nem aos 13 ou aos 14. Eu só queria saber de futebol, Fórmula 1, Olimpíadas e Nintendo. Em 1991, a Lusa ganhou a Copa São Paulo de juniores, eu só queria saber da Lusa.

Mas, pensando bem, olhando em retrospectiva, talvez 1991 tenha sido um dos anos mais importantes da minha vida. Além dos dois álbuns citados, alguns outros foram lançados. O "Black Album", do Metallica; "Ten", do Pearl Jam; "Out of Time", do REM; "Achtung Baby", do U2; "Use Your Illusion 1", do Guns N' Roses; "Badmotorfinger", do Soundgarden - que alguém disse que também saiu no dia 24 de setembro, mas o Wikipedia avisa que foi em 8 de outubro.

Que ano! É o equivalente do draft de 1984 da NBA, talvez? Ou o equivalente à temporada 1986 da Fórmula 1, a "daquela" foto? Sei lá. Sei que ouvi e ouço muitas dessas músicas, que fizeram parte da minha vida e de muita gente que está lendo este post até aqui. Cada um vai se lembrar de um momento, de um evento, de uma situação da vida, alguma amiga, amigo, namorada, namorado, em que alguma música destes álbuns todos foi importante.

Em 1992, veio o "Live", do ACDC. Putz! Dá vontade de chorar. Fico me perguntando que músicas têm o mesmo efeito nos últimos 5, 10, 15 anos. Quase todos nós acabamos "parando" no tempo, em algum momento, e carregamos nossos gostos para sempre, ignorando as novas coisas que chegam. Bem, se for para parar no tempo, que seja em 1991, por mais que tanta coisa brilhante tenha vindo e me influenciado muitíssimo depois também.

Minha filha mais velha tem 8 anos e sempre que toca "In Bloom" no rádio ela fala para mim: "adoro essa música, papai". Eu também, filha. Foi por causa dela que eu resolvi aprender a tocar bateria.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL