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Julio Gomes

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Como é difícil gostar desta Copa América

Jogadores da seleção brasileira comemoram gol sobre a Venezuela, na abertura da Copa América - Mateus Bonomi/AGIF
Jogadores da seleção brasileira comemoram gol sobre a Venezuela, na abertura da Copa América Imagem: Mateus Bonomi/AGIF
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

13/06/2021 20h02

A Copa América deveria ter sido cancelada. Simples assim. Sem pandemia, ela já não deveria ter sido realizada em 2020, apenas um ano após a edição 2019, no Brasil. Com a pandemia, ficou para 2021. Com o aperto na pandemia em 2021, deveria ficar para 2024 e pronto. Assim, equiparava-se ao calendário internacional, sendo simultânea à Eurocopa, e segue a vida.

No continente que mais dificuldades teve para controlar a pandemia e no país que mais desdenhou dela, realiza-se um campeonato de futebol que, além de tudo, tem pouco sentido e pouca qualidade.

Porque as eliminatórias da Copa são uma coisa. Jogos em casa e fora, eventos únicos, vagas para o Mundial, equilíbrio e competitividade. A Copa América é outra, esportivamente muito menos relevante.

O Brasil ganhou de 3 a 0 da Venezuela. Poderia ter sido por mais. Deveria, até. Afinal, era uma Venezuela sem um monte de jogadores pelo surto de Covid que pegou a delegação. Em relação ao time que segurou um 0 a 0 com o Uruguai, nas eliminatórias, semana passada, a Venezuela tinha apenas três titulares em campo.

Esportivamente, é um torneio que se arrastará por semanas para classificar quatro dos cinco times de cada grupo. Desafio nenhum. Era perfeitamente possível fazer uma Copa América curtinha, com mata-mata desde o início. Era perfeitamente possível engolir o prejuízo, deixá-la para 2024 e não tomar tempo das forças públicas com o que não importa.

Ao mesmo tempo, começa a Eurocopa. Com público nos estádios. Porque, mesmo sem ter uma vacinação tão rápida quanto a americana, a maior parte dos países da Europa cuidou bem de suas populações. Eu estou na Europa e, para entrar aqui, precisei apresentar teste negativo e cumprir quarentena. Para voltar para o Brasil, não precisarei nem de uma coisa nem de outra. É só um pequeno exemplo.

A Eurocopa tem público, tem cara de "vida voltando ao normal", enquanto a Copa América tem cara de funeral e de tristeza.

Eu me coloco no lugar de Tite, dos jogadores do Brasil e de outros países e não vejo a mesma facilidade que outros veem na exigência para que eles se posicionassem. É uma situação muito delicada, que demandaria uma ação coletiva muito corajosa. Não somos educados, na América do Sul, a sermos coletivos.

A Copa América seguirá, nós acompanharemos e, no mata-mata, é claro que vai chamar a atenção. Mas é um torneio triste. É difícil gostar dela.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL