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Julio Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Opinião pública inglesa e alemães implodem a Superliga de Florentino

Peter Cech conversa com torcedores do Chelsea que protestam contra a Superliga - Charlotte Wilson/Offside/Offside via Getty Images
Peter Cech conversa com torcedores do Chelsea que protestam contra a Superliga Imagem: Charlotte Wilson/Offside/Offside via Getty Images
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

20/04/2021 18h31

O Manchester City já anunciou oficialmente que sairá da Superliga, dois dias depois de ser anunciada a adesão. Os outros cinco clubes ingleses resolveram ir na mesma direção. Implode o polêmico projeto elitista que queria convencer o mundo inteiro que "o futebol precisa ser salvo".

Em um programa de entrevistas cheio de amigos, na segunda à noite, Florentino Pérez, presidente do Real Madrid e que virou o grande rosto da odiada Superliga, argumentou que o projeto veio para "salvar o futebol". Oras bolas. O mundo inteiro, em todos os níveis e setores, sofre com a pandemia. O mundo inteiro precisa ser salvo. Todas as empresas, famílias e governos fazem ajustes. E o que propõem Florentino e os clubes mais ricos? Salvar suas finanças ganhando mais dinheiro e matando tudo o que há em volta. É uma cretinice indefensável.

A solução para o futebol europeu, que obviamente exagerou nos gastos, já foi dada por Rummenigge, presidente do Bayern de Munique: apertar os cintos. Virem-se. A escalada econômica não tinha sentido. O futebol não precisa ser salvo pelo señor Florentino e seus amigos investidores americanos do JP Morgan. Ele existe desde muito antes antes de magnatas quererem corromper o jogo. E seguirá existindo depois. Aliás, americano e futebol nunca formaram um belo casal.

A humilhação de Florentino Pérez vai se cristalizando a cada minuto na rápida sucessão de eventos. Até porque o outro grande articulador, o presidente da Juventus, Andrea Agnelli, não está dando a cara da mesma maneira. A imprensa europeia especula que Agnelli possa deixar o cargo na Juve, assim como Ed Woodward, presidente do Manchester United.

As chaves da implosão estão na Alemanha, na França e na Inglaterra.

Na Alemanha, Bayern de Munique e Borussia Dortmund imediatamente rechaçaram a possibilidade de entrar na Superliga e se mantiveram fieis à Bundesliga e à Uefa. Uma Superliga sem o mercado alemão perde muita força, era imperativo que o Bayern estivesse nela.

Na França, o PSG, que teoricamente deveria ser um dos grandes interessados em fazer parte do projeto, também se pronunciou contrário à Superliga. Aqui, a questão é menos conceitual e mais de alianças. O Catar, que é dono do PSG, tem rabo preso com Fifa (Copa do Mundo) e Uefa (Al Khelaifi faz parte do comitê executivo e é muito próximo do presidente, Aleksander Ceferin).

Mas a grande reação mesmo veio da Inglaterra. Foi impressionante como a opinião pública se juntou contra a criação da Superliga.

A Inglaterra acabou de sair da Europa, o Brexit foi um movimento traumático para todos. Acho que ninguém estava muito preparado para outra saída dessas e ainda ver o seu próprio campeonato, que é o melhor e mais rentável do mundo, ser jogado para segundo plano. A elitização do futebol ocorreu na Inglaterra, mas de alguma maneira as raízes foram mantidas. O torcedor-raíz nunca engoliu essa história de russos e americanos e árabes tomando o controle dos clubes. Parte da imprensa inglesa sempre mostrou certa combatividade desde que começou a jorrar dinheiro no Chelsea, há 18 anos.

Por duas décadas, foi sendo criada uma sensação de que o futebol de verdade estava sendo tirado deles, torcedores. E, agora, com a Superliga, este sentimento explodiu.

A opinião pública inglesa está dando uma aula de pensamento coletivo. Vocês conseguem imaginar uma torcida de qualquer clube brasileiro indo à porta do estádio protestar porque seu clube vai ganhar MAIS dinheiro? Pois é. Foi o que fez hoje a torcida do Chelsea, antes do jogo contra o Brighton, em Stamford Bridge.

Não são os clubes ingleses que merecem elogios, hein. Atenção. Eles se juntaram a Florentino. E viram que "deu ruim". São ratos que vão pular fora do barco. Quem merece elogios são os torcedores e a opinião pública inglesa. É essa a pressão que está implodindo o projeto.

Os jogadores do Liverpool, através de seu capitão, Henderson, também se manifestaram dizendo que são contrários à criação da Superliga. De Bruyne, do Manchester City, fez o mesmo. Klopp e Guardiola se pronunciaram contrários. Mais e mais reações de atletas virão.

Na Espanha e na Itália, há alguma reação, mas nada nem parecido com o que ocorre na Inglaterra. Até porque na Espanha e na Itália são os torcedores do clube que não foram convidados que estão demonstrando revolta. Enquanto na Inglaterra quem protesta são os próprios supostos beneficiados.

Acredito que outros roerão a corda. O Barcelona, apesar de enforcado, pode deixar o Real Madrid sozinho na humilhação que representaria o fracasso do projeto. Laporta, novo presidente, sempre pode jogar a culpa no anterior, Bartomeu, que foi quem definiu a entrada na Superliga.

O projeto não vai morrer. Em 98, já surgiu a primeira ideia de Superliga e a Uefa reagiu. Agora, parece que o mesmo ocorrerá. Mas certamente a reação pública foi muito maior e muito mais negativa do que pensavam os dirigentes e investidores dos clubes grandões. O que o recuo significará na hora de sentar à mesa com a Uefa? O que vai sair de tudo isso? Veremos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL