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Julio Gomes

Renascido na Bombonera, o Inter é o novo time a ser batido. Dá tempo?

Yuri Alberto comemora gol do Internacional contra o São Paulo no Morumbi - Marcello Zambrana/AGIF
Yuri Alberto comemora gol do Internacional contra o São Paulo no Morumbi Imagem: Marcello Zambrana/AGIF
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

21/01/2021 04h00

O Internacional estava morto. Briga política, saída de Coudet por se sentir desprestigiado, elenco que não é nenhuma fartura. Solução? Uma não-solução. Abelão. O único que, por amor ao clube, toparia ser um treinador tampão por alguns meses, até a nova administração assumir e fazer as mudanças que fossem necessárias. Alguém que conseguiria levar ali o trabalho de campo dignamente à margem da turbulência, sem contestação da comunidade colorada.

Abel Braga tem uma grande história no futebol, que exige muito respeito. Mas os últimos trabalhos, especialmente o contraste que vimos entre o Flamengo dele e o subsequente, de Jorge Jesus, nos indicavam um treinador que havia ficado para trás.

Eu e todos que apontavam esta realidade não estávamos errados. Só que, no futebol brasileiro, métodos e visões antigas não necessariamente são divorciados de resultados. Abelão, como Felipão, por exemplo, domina a arte da principal corrente de ideias entre os treinadores: o resultadismo. Eles não precisam de muito. É a velha mescla de um punhado de jogadores cascudos, dispostos a fazer o trabalho sujo com muita dedicação, com uma molecada que corre para diabos.

Você quer um prato sofisticado? Esqueça. Mas o arroz com feijão, que alguns demoram horas e horas para fazer - e fazem mal -, eles resolvem em 5 minutos. E dá para viver de arroz com feijão por um tempo. Tudo depende da necessidade.

Entre os últimos jogos de Coudet, os primeiros de Abel, a interrupção pelo contágio com coronavírus e o retorno, o Inter acumulou uma vitória, três empates e quatro derrotas. Sendo esta única vitória contra o América-MG, que acabaria em eliminação nos pênaltis na Copa do Brasil. Ou seja, um mês de novembro sem uma razão sequer para sorrir.

Quando o Inter chegou para enfrentar o Boca Juniors em La Bombonera, naquele dia 9 de dezembro, parecia o encerramento da temporada. Eliminado da Copa do Brasil. Eliminado da Libertadores. Muitos e muitos pontos e posições para trás no Brasileiro. Nas mãos de um técnico ultrapassado. Acabou.

Mas, naquele 9 de dezembro, não acabou. Recomeçou. O arroz com feijão saiu da panela velha para a mesa. E onde o recomeço vai, de fato, fazer o Inter chegar? Ainda não sabemos. A improvável vitória por 1 a 0 sobre o Boca foi a primeira de oito consecutivas. E o "morto" ressuscitou para assumir a ponta do Brasileirão após os 5 a 1 sobre o São Paulo, ontem, no Morumbi.

Em Buenos Aires, foram resgatadas a autoestima e a confiança. Abel encontrou um time que funcionou. Resgatou Dourado, foi identificando os moleques para fazer estragos na frente, não deixou Peglow desabar após o pênalti perdido na Bombonera e deu protagonismo ao menino, superou a despedida tão emocionante quanto melancólica de D'Alessandro, voltou a contar com Patrick e Edenílson inteiros e prontos para fazer o trabalho brutal que fazem.

É arroz com feijão na veia! Marcação forte, bolas aéreas ofensiva e defensiva bem trabalhadas, velocidade. Abel sabe comandar um elenco e jogadores respondem a qualquer trabalho quando eles veem o benefício. Contra o Boca e contra o São Paulo, os jogos das duas pontas desta caminhada, Abel usou elementos da herança de Coudet, a pressão bem feita no campo de ataque, sufocando o adversário. Em outras partidas, bastou mesmo sua visão de futebol. É um mix que, por exemplo, Diniz não parece ser capaz de fazer. A escola do resultadismo exige essa, digamos, falta de convicção tática. Porque o que importa é chegar lá, não importa a estética do "como".

É claro que não bastava ao Inter dar a arrancada que deu para chegar à ponta. O derretimento do São Paulo, a instabilidade do Atlético e os incríveis tropeços do Flamengo, que não se encontrou com Rogério Ceni, ajudaram muito. Foi, até aqui, uma tempestade perfeita.

E se o Inter vencer o Gre-Nal no domingo, um clássico que não vence há muito tempo, desde setembro de 2018 (11 jogos)? Pois eu aviso que, depois do duelo contra o maior rival, o Inter encerra a campanha contra Bragantino, Athlético-PR, Sport, Vasco, Flamengo e Corinthians. Sem bichos papões.

"O time a ser batido no Brasileiro". O posto mudou de mãos como talvez nunca tenhamos visto. E agora está com o Inter. É ele que só depende de si para ser campeão. É nele que, agora, recai a responsabilidade. Quem for o último "time a ser batido" acabará campeão. Dá tempo de baterem o Inter?