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Julio Gomes

Obrigação do Flamengo não é ganhar o Brasileiro. É trabalhar direito

Pedro consola Arão após volante do Fla perder pênalti contra o Racing - EFE/Antonio Lacerda POOL
Pedro consola Arão após volante do Fla perder pênalti contra o Racing Imagem: EFE/Antonio Lacerda POOL
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

02/12/2020 04h00

A frase que mais ouviremos hoje: "Agora, o Brasileiro é obrigação para o Flamengo". Ouviremos no rádio, na TV, na boca do torcedor furioso. Se bobear, ouviremos até de dirigentes do clube.

Ganhar um campeonato nunca é obrigação. Obrigação é fazer o melhor trabalho possível, gastar o máximo de energia e realizar o máximo de entrega em busca dos objetivos. Obrigação é respeitar regras, adversários e acordos (coletivos e individuais).

Será que a diretoria do Flamengo cumpriu a obrigação dela neste ano?

Quando eu disse que o Flamengo teve sorte com Jorge Jesus no ano passado, eu não me referia à sorte na obtenção dos resultados. Como diz meu amigo Leonardo Sakamoto, faltam amor e interpretação de texto no Brasil. Eu me referia à sorte que deu a mesma diretoria que assumiu o clube apostando em Abel Braga ao "acertar a mão" com Jesus.

Esses caras sabem muito pouco de futebol, pessoal. Do jogo mesmo. O que eles sabem é de politicagem, de negócios, de poder, de influência. O que eles sabem é tocar clubes de futebol como se fossem empresas deles (mas sem dinheiro deles). O que muitos querem é alavancar carreiras políticas ou negócios paralelos. Aliás, isso não é exclusividade do Brasil.

A busca por Domenech Torrent na Europa, entre outras entrevistas de trabalho, fez parecer que esses caras são grandes conhecedores. Algo que não condiz com a realidade.

As brigas políticas por poder no Flamengo estão quentes e, claro, chegaram ao campo. O clube mais rico do Brasil (porque a gestão anterior não entendia nada de futebol, mas entendia de administração e finanças) montou um elenco que, sim, está em outro patamar no futebol brasileiro. Que, sim, poderia e ainda pode construir uma dinastia.

Mas o campo não tem vida independente do clube. Os dirigentes do Flamengo é que não fizeram a obrigação de trabalhar bem. Tudo começa daí. A partir daí, podemos encontrar outros atores que não estão trabalhando bem, e isso inclui muitos jogadores, talvez outros departamentos do futebol, como o médico.

O que o Flamengo tem, a partir de agora, é a obrigação de trabalhar bem e dar o máximo. Em cada setor do clube, em cada treino, em cada jogo. Se o fizer e com calendário desafogado, fatalmente ganhará o Campeonato Brasileiro.

Já o torcedor tem a obrigação de torcer e, se quiser, tentar participar da vida política do clube. Tem a obrigação de manter o respeito pelos profissionais que trabalham no Flamengo e que trabalham cobrindo o Flamengo - digo isso porque a madrugada teve agressões à imprensa por parte de bandidos disfarçados de torcedores do lado de fora do Maracanã.

Obrigação de ganhar? Nada disso. Obrigação de trabalhar e tentar, sem deixar de respeitar os outros, que também estão trabalhando com o mesmo objetivo. Falar em "obrigação de ganhar" em qualquer esporte é um discurso fácil, vazio e populista.

No esporte, times têm favoritismo, têm vantagens (financeiras ou qualitativas) sobre outros. Tem maiores probabilidades de vitórias. Logo, é preciso confirmar isso no terreno de jogo. Para fazê-lo, é preciso cumprir a obrigação número um: trabalhar bem. O Flamengo não trabalhou bem em 2020.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL