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Julio Gomes

Flamengo abre as portas para qualquer um ser campeão do Brasileirão

Lincoln lamenta gol perdido durante Flamengo x Atlético-GO - Thiago Ribeiro/AGIF
Lincoln lamenta gol perdido durante Flamengo x Atlético-GO Imagem: Thiago Ribeiro/AGIF
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

15/11/2020 03h30

O Flamengo está começando a gostar da brincadeira de não ser campeão brasileiro. Pelo menos é o que parece. Depois do empate no Maracanã contra o Atlético-GO, em uma rodada em que os adversários diretos ganharam jogos bem mais complicados, a tabela do campeonato ficou embolada de tal maneira que podemos abandonar de vez a noção de que o bi flamenguista é só questão de tempo.

Esta noção, claro, nunca fez parte dos planos de dirigentes ou torcedores de outros clubes. Mas ela sempre norteou minhas análises, por exemplo. Mesmo que o Flamengo ganhe o campeonato, admito desde já o meu erro de leitura. Ninguém ganha na véspera campeonato no Brasil, aqui a aleatoriedade é muito maior.

O time titular do Flamengo-2019 jogou um futebol totalmente diferente do que vimos nos últimos 20 anos no país. Outro patamar (sem zoeira). Mas o tal "quarteto fantástico" está há 24 partidas sem começar um jogo junto. Jorge Jesus foi embora. A diretoria quis fazer graça ao buscar Domenec Torrent na Europa. O Maracanã, sempre cheio e pulsante, está vazio. E agora, nem tão de repente assim, temos um campeonato escorrendo das mãos rubro-negras.

Não é "de repente" porque o primeiro turno já foi marcado pelo equilíbrio no topo da tabela. Mas sempre pareceu que, quando o Flamengo acelerasse, tivesse os jogadores de volta, conseguisse de reagrupar, passaria a ganhar os jogos como fazia no ano passado e abriria vantagem na liderança. A demissão de Dome e a "correção de rota" com Rogério Ceni, que vê e trabalha futebol de um jeito mais parecido com o de Jesus, pareciam colocar o Flamengo de volta nos trilhos. Isso ainda pode acontecer, claro.

Eu chamei a rodada 21 do Brasileiro de "recomeço" do campeonato. Porque não só o Flamengo, mas o líder, o Inter, também trocou de técnico. O Palmeiras, que também acaba de trocar de comando e estava cheio de desfalques, teria pela frente um adversário bem mais perigoso do que os últimos que enfrentara. O São Paulo teria de provar sua capacidade de ganhar jogos complicados fora de casa. E o Atlético Mineiro teria de provar que a reação era verdadeira - em um campo em que não costuma ganhar.

Era uma rodada grande, dessas com asterisco do lado, para lembrarmos dela no futuro. E, nessa rodada grande, todos provaram seu valor. Ou melhor, quase todos. Os dois times da ponta, de técnicos novos, fracassaram.

O Inter, sinceramente, com a escolha de Abel Braga e os problemas políticos que se aprofundam, parece cada vez mais carta fora do baralho. Até o Grêmio, apesar do descaso de Renato com o Brasileiro, já passa a impressão de ser mais competitivo que o rival na competição. Por pontos perdidos, estão empatados.

Por falar em pontos perdidos, o Flamengo já perdeu nove a mais que o São Paulo, cinco a mais que o Galo, um a mais no Palmeiras. É muita coisa! Já cruzamos o Equador do campeonato e a maratona vai continuar, com Copa do Brasil e Libertadores correndo paralelamente.

Vejam essa hipótese. Se o Flamengo ganhar do São Paulo na quarta e avançar na Copa do Brasil, ele seguirá envolvido em três competições (assim como o Palmeiras). Já o São Paulo passará a se dedicar exclusivamente ao campeonato, que é o que já fez o Atlético. Se o Flamengo for eliminado, será ele que ficará em duas competições, assim como o São Paulo. O calendário desafoga um pouco. Mas e a confiança?

Também na quarta-feira, o Galo recupera seu jogo adiado da segunda rodada e recebe o Athlético-PR. Se vencer, o time de Sampaoli abrirá cinco pontos de frente na liderança, e aí já estamos falando de um buraco importante. É neste cenário que o Flamengo pode acordar na quinta-feira.

O jogo a menos do Palmeiras será em casa contra o Vasco, ainda sem data. O jogo a menos do Grêmio será em casa contra o Goiás, no dia 30 de novembro - e aí é o duelo entre Grêmio e Flamengo, da 23a rodada, que ficará sem data.

O São Paulo recupera os jogos a menos que tem nas próximas semanas, pois não está nem na Libertadores nem na Sul-Americana. Será a maratona são-paulina no Brasileiro, enfrentando fora o Ceará (dia 25) e o Goiás (3/12) e, em casa, o Botafogo (9/12).

Podemos chegar na primeira semana de dezembro com um cenário (bem possível, para não dizer provável) tipo assim: Atlético com 47 pontos (em 23 jogos, se vencer Athletico, Ceará e Botafogo), São Paulo com algo tipo 45 pontos (22 jogos), Palmeiras com 40 pontos (22 jogos) e o Flamengo com 39 (vencendo o Coritiba e chegando a 22 jogos). Estamos falando de diferenças importantes e com vários times à frente.

Foi uma rodada francamente ruim para o Flamengo, que vai seguir no meio de uma maratona, com técnico novo, com muita gente machucada, enfrentando times mais inteiros fisicamente e que só terá duelos diretos contra seus rivais pelo título lá em 2021. Sim, com todos os erros, azares e contextos, o Flamengo deixou o campeonato ficar aberto - algo que parecia inimaginável alguns meses atrás. Quem souber aproveitar, levará uma taça para lá de improvável.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL