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Julio Gomes

Milan de 'Ibra e seus garotos' conseguirá mesmo lutar pelo título italiano?

Brahim e Ibrahimovic se abraçam após um gol do Milan - DANIELE MASCOLO/REUTERS
Brahim e Ibrahimovic se abraçam após um gol do Milan Imagem: DANIELE MASCOLO/REUTERS
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

13/11/2020 04h00

Quando o Milan entrou em campo no último fim de semana, para enfrentar o Verona e tentar ampliar sua vantagem na liderança do Campeonato Italiano, o time tinha uma média de idade de 25 anos. Tire um tal zlatan Ibrahimovic da conta e a média cairia para 23.

"Esse time faz com que eu me sinta jovem. Eles precisam trabalhar e seguir as ordens do mister. A pressão e a responsabilidade podem deixar para mim". A fórmula, escancarada nas palavras de Ibra, e uma temporada com calendário apertado, que atrapalha todos os times e nivela os campeonatos por baixo, são os trunfos do Milan para voltar ao topo. Um topo que não alcança há tanto tempo.

Segundo maior campeão europeu, segundo maior campeão italiano. Um clube vitorioso, o Milan viveu, ao longo da década que se encerra, os que talvez tenham sido os anos mais vergonhosos de sua história. Já são sete temporadas seguidas sem ficar entre os três primeiros da classificação - precisamos voltar aos anos 30, no período entre as duas grandes guerras, mas encontrar o único outro momento da história em que isso aconteceu. Já são nove temporadas sem o título italiano, o que só aconteceu uma vez de 1950 em diante, entre 1968 e 1979 (ainda assim, com três títulos de Coppa Itália e uma Recopa neste intervalo).

A era Berlusconi, que começou em 1986, foi a mais vitoriosa dos rossoneri. A transferência definitiva da empresa AC Milan para as mãos de investidores (chineses e, depois, americanos) ocorreu em 2017, mas começou dois anos antes. Toda essa instabilidade gerou a década perdida para o clube.

Mas, agora, a coisa parece estar voltando para os trilhos. O Milan conseguiu montar um time jovem, promissor e que encontrou em Ibrahimovic seu grande tutor. Ninguém imaginava algo assim quando Ibra voltou ao clube, em janeiro, com 38 anos de idade, para buscar "uma última dose de adrenalina", segundo suas próprias palavras.

"Eu gosto da mescla", disse Kaká, ídolo eterno do clube, em recente entrevista. "Ibra faz todos subirem o nível, ajuda os jovens, faz o grupo crescer e tira a pressão. Será um campeonato longo e duro, mas ele fará a diferença até o final", opinou o brasileiro.

O Milan mostrou-se especialmente forte desde o retorno do futebol em meio à pandemia. Juntando a temporada passada com a atual, foram 24 jogos sem perder (18 vitórias) em todas as competições. A primeira derrota veio na semana passada, 3 a 0 para o Lille, da França, em jogo da Europa League. No fim de semana, com a chance de abrir na ponta do Italiano, o Milan ficou no 2 a 2 com o Hellas Verona.

Ibra fez o gol de empate já nos acréscimos. Mas, antes disso, havia batido um pênalti patético na lua, errado muitas decisões durante o jogo e, para variar, reclamado com os companheiros, gesticulando e esbravejando. Ou seja, bastou uma noite esquisita de Ibrahimovic para o Milan mostrar uma face mais condizente com as expectativas para a temporada: de um time jovem ainda, que precisa de tempo para aprender a sair de situações difíceis.

E aí ficaram ainda mais fortes os questionamentos. Será mesmo que esse Milan tem chance de disputar o título até o fim? "Precisamos ter fome. Aqui não se fala de Scudetto. É jogo a jogo, encarando todos como finais", avisa o sueco, "dono" do time.

A temporada estranha pode ser benéfica para o Milan. É um calendário estrangulado. Times grandes bem ajeitados e com bom entrosamento podem se dar bem, pois usam um elenco mais recheado para rodar jogadores, evitar lesões e, ainda assim, conseguir resultados. Mas, tirando o Bayern, quem mais pode fazer isso na Europa? O que vemos são os grandes times sofrendo com o calendário, sem tempo para recuperar jogadores, corrigir erros e encontrar soluções.

Trazendo para a realidade do Milan, quem se vê muito afetada é a Juventus. Após nove títulos seguidos, trocou de técnico, tem peças novas e não está encontrando tempo para ajustes. Cristiano Ronaldo ameaça sair. E, enquanto isso, os pontos vão ficando pelo caminho na Série A. A Inter é quem, em teoria, deveria se aproveitar disso. Mas não o fez e também tem perdido muitos pontos. O resultado é que temos uma Série A com o Milan na liderança após o ótimo início e que só não tem uma vantagem maior porque empatou esse jogo em casa com o Verona.

O técnico do Milan é Stefano Pioli, um cara que já está rodando há algum tempo e teve vários trabalhos interrompidos. Não é uma aposta que pode dar muito certo ou muito errado, como Pirlo (na Juventus), e nem uma garantia de trabalho sólido, como Conte (na Inter). Só o tempo dirá se ele vai se mostrar à altura do desafio.

Donnarumma, 21 anos, é o goleiro considerado sucessor de Buffon, já titular da seleção italiana. Calabria, lateral direito de 23 anos, e Romagnoli, zagueiro de 25, também são jogadores de seleção. Theo Hernández, o lateral francês que o Real Madrid tirou do Atlético de Madrid pagando multa rescisória, foi comprado pelo Milan em 2019. Tem só 23 anos e é uma das peças fundamentais do projeto.

É no meio de campo que estão os grandes valores deste novo Milan. O marfinense Kessié, 23, e o argelino Bennacer, 22, são os motores do time. E agora têm a companhia de Tonali, de apenas 20 anos, considerado o "novo Pirlo", que o Milan foi buscar no Brescia. Na frente, uma fornada de jogadores "classe 1999", todos com 21 anos. O português Rafael Leão é a grande esperança. Tem também o norueguês Hauge, o belga Saelemaekers e o espanhol Brahim Díaz, este emprestado pelo Real Madrid.

Outros jogadores um pouquinho mais experientes compõem o elenco, mas só um, o zagueiro dinamarquês Kjaer, acima dos 30 anos (tem 31). E, claro, Ibra com seus 39.

"É só um número. Eu não penso nisso", conta Zlatan. "Minha filosofia é: jogar do jeito que treina. Eu encaro cada partida com mentalidade vencedora e confiança. Teremos momentos difíceis, mas é minha responsabilidade transformar tudo em algo positivo. Tenho experiência, sou o líder e devo mostrar o caminho nestes momentos. Nunca podemos estar satisfeitos. Começamos bem, mas ainda não ganhamos nada".

Este é um Milan com nome e sobrenome. Um Milan que virou selo e estátua na Suécia. Um Milan faixa preta em tae kwon do. Um Milan pai do Max, de 14 anos, e do Vincent, de 12. Um Milan campeão de 13 dos 16 campeonatos de pontos corridos que disputou. Um Milan explosivo, polêmico e genial.

Com a licença do grande Leovegildo Júnior, temos um novo vovô-garoto na praça. Este é o Milan de Zlatan Ibrahimovic. E eu não duvido de Zlatan.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL