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O Flamengo foi buscar uma teoria. E a prática estava bem mais pertinho

Jogadores do Flamengo lamentam derrota para o Independiente del Valle na Libertadores  - Pool/Getty Images
Jogadores do Flamengo lamentam derrota para o Independiente del Valle na Libertadores Imagem: Pool/Getty Images
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

17/09/2020 22h56

A escolha do Flamengo é respeitável. O clube quis substituir Jorge Jesus com uma mente europeia e foi buscar Domenec Torrent. Apesar de ter já 58 anos, um sujeito com pouca experiência como treinador, mas muitos anos trabalhando como auxiliar de Pep Guardiola.

Mas o Flamengo de Dome joga como os times de Guardiola? Bem, nesta quinta definitivamente não jogou, quando levou de 5 a 0 do Independiente del Valle, no Equador.

É difícil jogar como Guardiola no Brasil, dizem. Concordo. O jogo de posição é desconhecido por aqui e demanda muita inteligência e interpretação do jogo. Se, nas bases, nada disso é visto, como aplicar no profissional?

Por aqui, o jogo é, digamos, mais simples. Jorge Jesus, um técnico "normal" na Europa, torna-se sobrenatural no Brasil. Não inventou a roda, apenas colocou em prática coisas que, por aqui, pouco vemos.

Talvez a invenção da roda tenha vindo do próprio Flamengo, ao buscar um treinador querendo ir tão além.

Se a ideia era essa, buscar uma "evolução" do jogo de Jesus, talvez a resposta para um jogo de posição eficiente e já testado em nosso continente estivesse mais perto. E, nesta quinta, o Independiente del Valle, treinador por Miguel Ángel Ramírez, nos lembrou disso nos 5 a 0 em cima do Flamengo.

Não é uma derrota qualquer, essa do Flamengo. Foi uma derrota de um time que passou praticamente toda a partida submetido ao adversário. O Del Valle foi dominador do confronto inteiro e a goleada foi apenas consequência de tal superioridade.

Para jogar como Guardiola, não é necessário ser Guardiola. É necessário entender, estudar, convencer, colocar em prática, treinar, corrigir. A prática, muitas vezes, talvez na maioria das vezes, acaba superando a teoria.

"O jogador te aprende. O treinador tem que ser capaz de transmitir isso e apaixonar o jogador pelo jogo. Depende do treinador liderar o que tenha em mãos e o resto acontece como consequência", disse recentemente o técnico Ramírez no programa "Bola da Vez", da ESPN.

Será que Dome será capaz de transmitir isso a um elenco laureado, como o do Flamengo? Um elenco que naturalmente prefere repetir do que criar?

O Flamengo foi buscar uma teoria, que talvez vire prática (virar título não significa virar prática, importante frisar). Mas a prática da teoria buscada estava ao lado. Bem pertinho.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL