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Julio Gomes


Medo do coronavírus gera situação de absurda injustiça esportiva na Itália

Na França, em partida entre Lyon e Juventus pelas oitavas da Liga dos Campeões, torcedores também optaram pelo uso de máscaras de proteção contra coronavírus - Franck Fife/AFP
Na França, em partida entre Lyon e Juventus pelas oitavas da Liga dos Campeões, torcedores também optaram pelo uso de máscaras de proteção contra coronavírus Imagem: Franck Fife/AFP
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

28/02/2020 17h59

O mundo inteiro para por um vírus. Saberemos nas próximas semanas se estamos sendo ridiculamente medrosos ou corretamente precavidos. Por enquanto, dada a taxa de mortalidade dos primeiros dados publicados, parece uma reação extrema para uma... gripe. Mas quem sou eu para dizer para alguém não viajar ou não deixar de ir a um jogo de futebol?

Eu mesmo, no momento, não gostaria de entrar em um avião.

O fato é que todos os eventos esportivos possíveis estão neste momento sob risco. Até a Olimpíada de Tóquio, apesar de os organizadores negarem. Qualquer evento esportivo tem como premissa a reunião de muitas pessoas - então como NÃO cancelá-los enquanto o pânico não passar?

Nem estou falando sobre a gripe passar. Ela não vai passar. O mundo é global, todo mundo viaja, todo mundo se esbarra, ninguém tem anticorpos, não existe vacina, todo mundo, pelo jeito, vai acabar pegando o coronavírus. O que precisa passar é o pânico, para que eventos sigam acontecendo normalmente.

Senão teremos de conviver com grandes aberrações e injustiças esportivas.

Neste fim de semana, alguns jogos do Campeonato Italiano serão disputados com portões fechados. Entre eles, Juventus x Inter de Milão.

Estamos falando do confronto mais esperado da temporada na Itália - ainda que a Lazio esteja metida entre elas na disputa pelo título, a Juve é primeira, a Inter é terceira e este confronto de returno está marcado na agenda, pois sempre teve cara de "final".

Uma final que a Juventus disputará sem sua torcida. Qual o tamanho de um prejuízo como este? Nem falo do financeiro, que também é óbvio e grande, mas falo do prejuízo esportivo.

Outro jogos, que não têm implicação de título, mas com outras disputas importantes para o campeonato, terão a mesma situação. E estamos falando só do começo.

Tem toda a pinta de que isso acontecerá também nos outros países europeus. E por que não imaginar que jogos decisivos dos Estaduais por aqui ou as primeiras rodadas da Libertadores terão de ser obrigatoriamente disputados com portões fechados?

Quando falamos de campeonatos que ainda não começaram - a Fórmula 1, por exemplo, que pode ter várias corridas canceladas -, estamos observando apenas o prejuízo financeiro.

Mas imaginem, por exemplo, que as partidas de volta da Champions League tenham de ser disputadas com portões fechados? Pensem no tamanho do prejuízo esportivo para os times que jogaram a ida fora de casa.

O momento é de medo, de tensão e de medidas extremas. Talvez a decisão de manter o calendário e obrigar os times a jogarem com portões fechados tenha a ver com as TVs, que pagam para terem eventos transmitidos. Ou dirigentes não querem dor de cabeça com calendário já espremido, em um ano com Eurocopa e Copa América.

Mas me parecem decisões extremamente injustas com algumas equipes. Se o medo é tal, que encontrem um jeito de testar as pessoas que entram no estádio. Uma limitação de público. Ou que adiem os jogos! Muito melhor estar todo mundo no mesmo barco, apertando o calendário lá no fim, cancelando campeonatos, que seja, do que o prejuízo unilateral que a Itália começa a promover - e que outros podem copiar.

Julio Gomes