PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Julio Gomes


Como um jogo que não existia virou mais importante que o clássico de Milão

Milan nega deixar San Siro e fala em reforma, mas estuda estádio próprio para o futuro -
Milan nega deixar San Siro e fala em reforma, mas estuda estádio próprio para o futuro
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

09/02/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Bayern x RB Leipzig vale a liderança na Alemanha neste domingo
  • Milan x Inter vale muito pouco na Itália
  • 10 anos: tempo suficiente para o balanço de forças mudar na Europa

Às 14h deste domingo, entrarão em campo Bayern de Munique x RB Leipzig na Allianz Arena de Munique. Às 16h45, jogarão Inter x Milan, no San Siro. Qual jogo desperta mais interesse?

Pois é...

Em 10 anos, um jogo que nem existia tornou-se muito mais relevante do que um clássico histórico. Lembro-me quando a saudosa Placar, em uma edição de 1989 ou 1990, algo assim, chamou Milão de "capital mundial do futebol". Eram tempos de Gullit, Van Basten e Rijkaard de um lado, Matthaues, Klinsmann e Brehme do outro. Ainda não bebíamos Red Bull nessa época.

Os jogos (não dá para chamar de clássicos, porque não se aplica ao duelo alemão) deste domingo são um verdadeiro sinal dos tempos. Emblemáticos, pois mostram exatamente como um clube grande precisa atuar para continuar sendo grande. Mostram também como investimento bem feito pode transformar qualquer um em "player" no futebol europeu, mesmo sem a tradição por trás. E mostram como, se não forem bem cuidadas, grandes marcas vão para o buraco.

Dez anos atrás, Bayern, Milan e Inter eram gigantes dentro e fora do campo, honravam as tradições e a história construídas ao longo do século 20.

Em 2009, a Red Bull montava um plano ambicioso e comprava o SSV Markranstadt, da quinta divisão alemã, para ter um time na Bundesliga. Em 2010, a Inter de Milão era campeã da Europa, derrotando o próprio Bayern na final. Em 2010, o Milan começava sua última temporada vitoriosa na Itália, que acabaria em Scudetto. Aliás, o Milan nunca perdeu um mata-mata contra o Bayern (quatro duelos).

Agora acelere uma década no tempo.

O Bayern continua gigante. Com uma administração financeira moderna, agressiva, mas sem fazer loucuras, se manteve no topo do continente, competindo de frente com os gigantes espanhóis e ingleses. Ganhou a Europa em 2013, chegou a várias semifinais e quartas de Champions, ganhou as últimas sete Bundesligas e é líder da atual edição.

Quem está em segundo? O Leipzig. O confronto deste domingo vale a liderança e, uma década após o início da aventura, a Red Bull está não só na Bundesliga, mas, de fato, na disputa por ela. Após a ascensão meteórica, o Leipzig chegou à elite alemã em 2016 e logo foi vice-campeão. Sempre ficou entre os seis primeiros desde então.

Na atual edição da Bundesliga, o Bayern, com um estádio em que cabem 75 mil pessoas, tem média de público de... 75 mil pessoas. A Red Bull Arena tem capacidade para 42146 pessoas, com média de público de 40504. A empresa deu uso a um estádio novinho, feito para a Copa de 2006, que era um elefante branco daquela edição. O único estádio na ex-Alemanha Oriental, sem time na elite para jogar nele.

Hoje, o RB Leipzig disputa o título alemão e, daqui a 10 dias, enfrenta o Tottenham, por uma vaga nas quartas de final da Europa.

A Inter não participa do mata-mata europeu desde 2012. O Milan, desde 2014, que foi também sua última participação na Champions League. O maior tempo longe da elite continental desde os anos 80.

E o pior: sem perspectiva. O Milan está em sétimo na Itália, junto com os possantes Cagliari e Parma. Depois da saída de Berlusconi, que comandou o clube com mão de ferro por mais de duas décadas e trouxe todo o tipo de benefício político e financeiro possível, já que era também primeiro-ministro do país, o Milan entrou em franca decadência administrativa. Passou pela mão de chineses e hoje acabou nas mãos de um fundo de investimento americano.

A Inter está nas mãos de um grande grupo chinês (que já foi acusado de lavar dinheiro no clube pelo governo central, em Pequim) e pelo menos tem conseguido contratar bem. Tem um técnico importante (Conte), está vice-liderança na Itália, mas não parece forte ainda para quebrar o domínio da Juventus. Pelo menos irá de novo para a Champions e estará no top 3 do país pela primeira vez desde 2011. Dá alguns sinais de vida.

Se 10 anos atrás o Milan estava em sétimo na lista de clubes mais ricos do mundo, hoje não aparece nem no top-20. Está no oitavo técnico em cinco anos - havia passado a década anterior inteira nas mãos de Carlo Ancelotti. O clube era sinônimo de estabilidade, hoje virou de bagunça.

Faço uma confissão, que já fiz no passado. Na infância/adolescência, quando me apaixonei por futebol europeu, escolhi a Juventus para torcer. Eu detestava o Milan. Até conhecer... o Milan. Um clube espetacular, que tive a oportunidade de visitar muitas vezes nos anos em que fui correspondente na Europa.

Mas, já naqueles anos, eu via modernidade quando visitava Madonna di Campiglio e via algo errado por trás das fachadas. Como havia tantos jogadores brasileiros, conversava muito com eles sobre o clube. E ouvia relatos não muito animadores sobre o conhecimento científico extra-campo (medicina esportiva, fisioterapia, etc). Peguem os casos de Kaká e Pato e vocês entenderão o que quero dizer.

E, o principal. Sempre me chamou a atenção o ambiente de um jogo do lado de fora do San Siro. Tem uma loja lá, que vende produtos de Inter e Milan. Ela é pequena e fica meio escondida. Os clubes, logicamente, não conseguem explorar devidamente o estádio, que foi renovado para a Copa do Mundo de.... 1990! Outros tempos. A média está acima de 50 mil torcedores por jogo, mas cabem 80 mil em San Siro e as zonas de camarotes/exploração comercial precisam ser alternadas de um clube para o outro.

Em volta do estádio, as ruas são tomadas por barradas, uma enorme feira, com venda de camisetas, cachecóis e todos os tipos de produtos. "Não oficiais", logicamente. Como ganhar dinheiro desse jeito?

Munique e Milão estão separadas por 500km, uma agradável viagem de trem que já fiz algumas vezes. O Bayern está separado do Milan e da Inter por uma estrada sem fim.

Julio Gomes