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Julio Gomes


Copa do Brasil e a democracia de mentira

Funcionário do Caxias agrediu árbitro Lucas Canetto Bellote após eliminação para o Botafogo - Reprodução
Funcionário do Caxias agrediu árbitro Lucas Canetto Bellote após eliminação para o Botafogo Imagem: Reprodução
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

06/02/2020 06h00

Resumo da notícia

  • Copa do Brasil começa com 6 times beneficiados por um regulamento ridículo
  • Torneio é feito para pequenos caírem logo e clubes poderosos decidirem entre eles
  • Para ser democrática de verdade, Copa do Brasil deveria incluir mais e beneficiar menos os grandes

Imaginem uma partida de tênis, melhor de 3 sets, em que um tenista já comece com 1 set a 0. Ou uma corrida de Fórmula 1 em que um piloto comece com uma volta de vantagem sobre os outros. Escolha o benefício esportivo que você quiser. Esta é a Copa do Brasil.

Muitos chamam a Copa do Brasil de "competição mais democrática do país". Uma falácia.

Bem, até posso fazer uma concessão aqui. Não é que não seja democrática. É que é uma democracia de discurso, vazia, em que na verdade, na verdade, tudo é feito para que alguns poucos cheguem e os outros dancem. Assim, mais ou menos como a democracia brasileira em si.

Como é possível uma cabeça "pensante", de alguém que trabalha com e para o futebol, idealizar um torneio em que um time jogue por dois resultados contra o outro?

Esta é a Copa do Brasil da CBF. Na primeira fase, os times de melhor ranking jogam por um empate para avançar. Fora de casa, é verdade. Será que alguém em sã consciência pode equiparar a vantagem de jogar em casa com a vantagem de jogar pelo empate? Vou repetir: o melhor time (em teoria) tem a vantagem do empate.

É um regulamento feito para os pequenos Brasil afora participarem.... por uma fase. Ou duas, no máximo. Três? Já começa a ser estorvo.

A quarta de abertura do torneio teve 15 jogos. Somente quatro mandantes ganharam. Zebra mesmo? Só a eliminação do Bahia, que levou um gol no fim do River, no Piauí. Seis empates foram registrados, ou seja, seis times se beneficiaram do regulamento esdrúxulo. Entre eles, o Botafogo, que empatou em Caxias do Sul em um jogo com dois pênaltis não marcados para o Caxias.

É o fim da picada.

Na segunda fase, os empates já levam a pênaltis. A segunda fase é a única fase legal da Copa do Brasil, que imita a maioria das Copas domésticas europeias. Um jogo apenas, quem ganhar, ganhou. Falta só sortear mando.

A partir da terceira fase, ida e volta, para já ficar impossível um pequeno eliminar um grande. Sobram, então, cinco clubes. De 80, sobram 5. E aí, claro, você está perto do título, certo? Errado, erradíssimo.

É neste momento que entram outros ONZE clubes, que passaram quatro fases descansando. Sendo que, dos onze, oito são times de Libertadores. Ou seja, estamos falando dos melhores times do país. A Copa do Brasil virou, essencialmente, um torneio para eles. Se antes quem jogava a Libertadores não podia jogar a Copa do Brasil, hoje o conceito está invertido. Quem joga a Libertadores é quem ganha a Copa do Brasil.

Vai ocorrer uma exceção ou outra. Serão isso, exceções, aberrações, quase.

Para se ter uma ideia, na Copa da Inglaterra os 44 times de primeira e segunda divisões entram na terceira fase e se juntam a outros 20. Os 20 da Premier, portanto, entram numa fase de 64 competidores.

Seria justo, por uma questão de calendário, que os times da nossa Série A entrassem mais adiante. 20 de 64 estaria ótimo, 20 de 32 até funciona. Mas 11 entrarem em uma fase de 16? É ridículo.

É feito um funil tão estreito, tão estreito, que nunca mais os pequeninos conseguirão jogar com os times de Libertadores. Flamengo em Manaus, Belém, Natal, Campina Grande ou Teresina? Pff. Esqueçam.

Poderíamos ter uma Copa do Brasil com TODOS os times do país, com jogos únicos em todas as fases, com sorteio de mando, com sorteio puro entre os times, com aleatoriedade, com inclusão de verdade. Mas não. Temos uma bizarrice em que times jogam por empate para passar e os clubes mais ricos e estruturados entram em um estágio em que, na prática, só tem eles.

Ah, e lembrando que a Copa do Brasil paga premiações maiores até do que o Brasileirão. Quem fica com elas? Os que já têm mais dinheiro. É o abismo se ampliando.

É um torneio feito para os pequenos perderem o mais rápido possível e saírem do caminho. Bela democracia, essa.

Julio Gomes