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Julio Gomes


O que Neymar quer? Driblar ou humilhar?

01.fev.2020 - Neymar fala com o árbitro em PSG x Montpellier - Gonzalo Fuentes / Reuters
01.fev.2020 - Neymar fala com o árbitro em PSG x Montpellier Imagem: Gonzalo Fuentes / Reuters
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

04/02/2020 05h00

Resumo da notícia

  • Neymar, voando na temporada, afirma que amadureceu
  • Mas no fim de semana voltou a mostrar seu pior lado: é um bully com a bola
  • O modo como Neymar tenta humilhar os adversário prejudica somente o próprio jogador

O brasileiro adora odiar Neymar. Mas o que o brasileiro quer mesmo é poder amar Neymar. A prova? Basta ver a repercussão após o que ocorreu no fim de semana, no jogo entre PSG x Montpellier.

O triunfo de Neymar não é apenas um possível triunfo da seleção brasileira. É um triunfo do futebol brasileiro. Neymar é, no imaginário popular, a única figura capaz de "provar" que continuamos sendo os melhores naquilo que achamos que somos os melhores: jogar bola.

A veneração torna-se quase ódio quando Neymar "deixa na mão" os esperançosos e passa anos sem ser protagonista com a bola no pé - é notícia pelas festas, pelo que fala e faz, pelo comportamento discutível dentro e fora de campo. Ele vira um "traidor" no processo.

Nesta temporada, após a novela do verão e o "não" do PSG a Neymar e ao Barcelona, parece ter havido um amadurecimento relâmpago. Neymar começa o ano afastado do time e vai reconquistando o espaço na marra, jogando muito. Estamos todos ansiosos pelo início da fase aguda da temporada, o mata-mata da Champions League.

Se Neymar mantiver esse ritmo e levar o Paris ao tão sonhado título europeu, ele vira automaticamente um dos favoritos à Bola de Ouro, por exemplo.

E aí chega o jogo contra o Montpellier no fim de semana.

Neymar tenta fazer uma jogada pela esquerda e não consegue passar por Souquet (o famoso "quem?"), que tira a bola para o escanteio, com virilidade para lá de normal. Neymar irrita-se. No lance seguinte, tenta dar uma carretilha para cima do adversário, mas a bola bate no peito dele e sai pela lateral.

O jogo estava tenso, pegado, o Paris vencia por 1 a 0 e o Montpellier já tinha um a menos em campo. O árbitro Jérôme Brisard fala algo para Neymar. Não sabemos o que ele fala, mas possivelmente algo na linha "pega leve". Neymar explode, dá um verdadeiro show, gesticula, torna impossível para o árbitro não mostrar o cartão amarelo.

Importante pontuar que o amarelo é dado pela reclamação ostensiva, não pelo "drible".

Automaticamente, o Brasil inteiro toma as dores de Neymar. A linha é: isso é futebol! O drible faz parte do jogo! Estão querendo matar a arte! Querem proibir os gênios de fazerem o que sempre fizeram!

E é por isso que digo que o país tende a querer defender Neymar. A arte pura e brasileira que ele representa.

Mas o que vejo ali é a enésima explosão de quem se sente dono do mundo e não pode ser contrariado. Será que Neymar, quando faz esse tipo de coisa, quer mesmo driblar o marcador, passar por ele, criar uma jogada de gol? Ou será que Neymar quer apenas humilhá-lo em campo?

Nunca vi um marcador reclamar de um drible de Neymar em velocidade, uma genialidade dentro da área para passar pela marcação e fazer um gol.

Mas quantas vezes já vimos Neymar fazer algum lance de efeito inútil, longe do gol, com o único e exclusivo objetivo de expor seu rival?

Não é à toa que muitos jogadores mundo afora detestam Neymar. Ninguém gosta de ser humilhado enquanto desempenha a profissão. Você gostaria de ser humilhado e exposto ao ridículo por alguém melhor do que você no teu trabalho? Pois é. Existe um certo código de ética no futebol, uma regra não escrita, e jogadores não gostam disso. Messi não faz isso. Cristiano Ronaldo não faz isso. Neymar faz - mas nunca quando o time está perdendo ou em situação difícil, logicamente.

No mesmo fim de semana, vimos o jogador Claudinho, do Red Bull Bragantino, partir em velocidade em direção ao gol e pedalar para cima de Felipe Melo, sem sucesso. A reação de Felipe Melo foi completamente inaceitável, partindo para cima do rapaz e cuspindo palavrões e ofensas. Claudinho não tentava humilhá-lo, era apenas um recurso para driblar o último marcador que o separava do gol do Palmeiras.

A carretilha de Neymar não tem nada a ver com esse tipo de lance, com o drible como recurso do jogo. Tem a ver, apenas, com irritação, humilhação, agressão moral - para, em seu ponto de vista, devolver a agressão física que ele recebe em campo.

O árbitro não está lá apenas para apitar com o livro de regras. Ele está lá para mediar conflitos. E é natural que ele tenha falado para Neymar evitar aquele tipo de jogada. Logo, cabe ao jogador seguir fazendo ou não.

E aí, quando um carniceiro qualquer, com o ódio explodindo pela orelha, der uma entrada criminosa e tirá-lo da temporada?

Os dribles de Neymar relacionados ao jogo não geram ódio ou perseguição. O problema é que ele é um bully em campo com a bola no pé. Fica marcado por árbitros e adversários. Pior para quem? Para ele mesmo.

Julio Gomes