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Diego Garcia

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sem vacina, Djokovic será o maior da história só no ranking dos babacas

Novak Djokovic, durante treino antes do Australian Open - Mike FREY / AFP
Novak Djokovic, durante treino antes do Australian Open Imagem: Mike FREY / AFP
Diego Garcia

Repórter desde 2010, passou por Folha de S. Paulo, ESPN, Terra e Placar. Ganhou dois prêmios Aceesp (2014 e 2016) e foi indicado aos prêmios Comunique-se (2019), República (2017, 2018 e 2021), Folha (2018 e 2019) e Fenacor (2020). Cobriu Copa do Mundo, Olimpíadas, Mundial de Clubes e outros grandes eventos. Contato: garciadiegosilva@gmail.com

Colunista do UOL

15/01/2022 12h43

Já estamos no sábado, 15 de janeiro, a dois dias do Australian Open, e a insuportável cruzada de Novak Djokovic contra a ciência continua. Há 10 dias, o sérvio desembarcou na Austrália pleiteando uma bizarra isenção sanitária para disputar o primeiro Grand Slam da temporada sem tomar vacina. No meio da pandemia mais mortal dos últimos 100 anos. Tudo para quebrar um recorde que, convenhamos, diante do que vivemos, ninguém se importa.

Quem Djokovic pensa que é? Porque, ao meu ver, ser o número 1 do mundo em coisa alguma não basta para estar acima da população de todo um país, que enfrenta regras e restrições há quase 2 anos para conter o avanço da Covid-19.

Durante muito tempo, as fronteiras da Austrália ficaram fechadas mesmo entre os estados. Apenas nativos ou quem tem algum tipo de visto para se tornar cidadão local podem circular, entrar ou sair do país. Estudantes estrangeiros, por exemplo, estão "presos".

E, após as festas de fim do ano, como acontece no Brasil, o ômicron invadiu o território australiano batendo recordes de infecção.

Mas nada disso basta para que Novak Djokovic tenha vergonha na cara e dê o fora da Austrália com seu negacionismo. Mesmo após ser barrado, detido e, agora, ter seu visto cancelado, ele insiste no erro de querer ficar. Deve entender mais de medicina do que os maiores especialistas do planeta. Se julga superior aos demais reles mortais. Por isso, tenta, na marra, ingressar em um país que não o quer.

Não existe o direito a não tomar vacina em meio a uma pandemia. Ou você se imuniza e protege não apenas a si mesmo, mas também os demais que o cercam de se contaminarem, ou desconhece os conceitos básicos de cidadania. E é um completo babaca, egoísta, egocêntrico, mesquinho, que só pensa em si mesmo e ignora a calamidade pública que assola o planeta há 22 meses.

Caras como Djokovic são tão ególatras que não percebem: até o direito à própria liberdade tem limite. Existe não apenas dentro dos ordenamentos jurídicos de uma vida em sociedade, mas também até que afete a capacidade do próximo de ser livre. É o que acontece quando você não se imuniza em meio a uma pandemia que já dizimou 5,5 milhões de pessoas e contaminou outras 330 milhões.

Mas o que dizer de um cara que, logo após ser contaminado pela Covid, encontrou crianças, participou de eventos, foi para uma entrevista e sessão de fotos para uma revista, tudo sem máscara? Ou que organizou o patético Adria Tour, desnecessário torneio de exibição que contaminou vários atletas enquanto o mundo padecia contra o coronavírus?

Djokovic lembra muito o infame presidente do Brasil e seus seguidores. Com uma teimosia burra, que espalha desinformação, defende o indefensável e coloca a todos em risco por se considerar acima do bem e do mal. É por isso que o clã dos bolsonaristas saiu em defesa do sérvio nas redes sociais. Os cretinos podem ser desprovidos de inteligência, mas são unidos. E jogam ao lado do vírus, não contra ele.

Dentro de quadra, o sérvio é um monstro. Ele luta para permanecer na Austrália e ganhar novamente o Grand Slam que mais conquistou - nove vezes, e ainda é o atual tricampeão -, principalmente porque está atrás do recorde de títulos desse porte. Atualmente, está empatado com Rafael Nadal e Roger Federer, com 20 para cada.

Mesmo sendo o mais jovem do trio (um ano a menos que o espanhol e seis que o suíço), ele já vence em outros critérios de desempate na briga pelo posto de mais vitorioso da história: faturou mais Masters 1000 (37, contra 36 de Rafa e 28 de Roger) e tem mais triunfos nos confrontos diretos (30 a 28 contra Nadal e 27 a 23 contra Federer).

Ou seja: Djokovic tem tudo para ser o mais vitorioso da história do tênis. Mas nunca será o maior. Falta-lhe grandeza. Que justiça seja feita, com o sérvio antivacina recolhendo suas tralhas e saindo banido da Austrália antes mesmo de a bola rolar. Ou, se ficar, que caia na semi justamente para Rafael Nadal, e veja o rival, atleta muito mais consciente e humano, ultrapassá-lo na briga pelo recorde.

Independentemente do resultado do torneio, porém, Novak Djokovic já tem lugar garantido no ranking dos maiores da história entre os babacas.