Topo

Coluna

Campo Livre


Sobrevivendo ao cabeça de área

Jamir foi campeão brasileiro pelo Botafogo em 1995, mas também jogou pelo Flamengo - Reprodução/Instagram
Jamir foi campeão brasileiro pelo Botafogo em 1995, mas também jogou pelo Flamengo Imagem: Reprodução/Instagram
Leandro Ramos

Leandro Ramos

Carioca, suburbano e flamenguista, Leandro Ramos é ator, diretor, roteirista e centro-avante de pelada. Dirigiu o Larica Total e o Matador de Passarinho entre outros, e é o Julinho da Van, do Choque de Cultura.

30/10/2018 13h20

Acompanho futebol desde os 7 anos de idade. Sempre fui muito apaixonado pelo Flamengo e sobrevivi a muitos jogadores inexplicáveis. Digo sobreviver porque é isso mesmo que o torcedor ao longo dos anos precisa fazer, manter-se vivo enquanto o adversário ou o jogador do seu próprio clube te matam um pouco por dentro, seja fazendo gol na sua meta, seja fazendo merda no seu time. Muita gente abandona a paixão após decepções muito traumáticas causadas por grandes carrascos dos rivais ou jogadores odiáveis em nossos próprios clubes. Hoje vamos nos deter ao fogo amigo.

Eu posso dizer que sobrevivi a Maurício porque minha primeira grande decepção foi aquele fatídico Botafogo e Flamengo roubado em 89. Eu tinha 8 anos na época, mas não importa se você é muito jovem, a criança ela reconhece a dor quando ela chega. Sobrevivi a Valdir Bigode e nada é pior do que sofrer com gols do Bigode, o vascaíno nunca vai saber o que é isso, ele tinha pinta de filho do dono da padaria da esquina, mas metia gol que nem um catiço em cima do Flamengo. Quero destacar aqui humildemente também minha resistência sem maiores sequelas ao time do Vasco cheio de carrascos em 97/98 com Edmundo (o homem que mais me fez sofrer), Juninho Pernambucano (que era um carrasco íntegro, matava o jogo com elegância), Mauro Galvão (zagueiro que me impedia de ser feliz, mesmo com Sávio e Romário no ataque) e Felipe (canhoto driblador machuca demais o adversário). Saí com vida também do confronto com o Grêmio de 97 naquela final amarga da Copa do Brasil, e a partir deste ano, aos 16 anos de idade, graças a um único jogador, eu já sabia que não abandonaria mais o Flamengo. Não foi por ninguém do time do Grêmio, equipe com alguns ótimos jogadores, mas que não era nenhum bicho-papão, mas principalmente porque eu provei que era capaz de torcer pelo Jamir em campo. Foi um jogador do meu Flamengo quem testou o meu amor de verdade.

Vocês me deem licença mas eu vou abrir um parágrafo aqui agora só pra falar de Jamir porque eu devo isso a ele, afinal, ele testou todos os limites da minha paciência e humanidade. Poucos jogadores me fizeram sentir tanta raiva quanto o Jamir. Talvez Maurinho, aquele lateral direito para quem a torcida no dia da mentira chegou a cantar "Maurinho é selecão! Hil Hil Hil, Primeiro de Abril!!!", só que Maurinho era tão ruim que deu a volta na escala de ruindade e começou a jogar bem em determinado momento. Mas Jamir não, Jamir era um fenômeno da natureza, ele nunca jogou bem no Flamengo, tinha um comprometimento com a ruindade talvez só equiparado por China, que fora trazido por um olheiro que era deficiente visual.

O cabeça de área Jamir era de uma regularidade incrível. Ele havia sido campeão brasileiro pelo Botafogo e eu acho que o time alvinegro estava tão encaixadinho que Jamir passou o ano de titular sem tocar na bola e ninguém reparou que ele tava ali no campo. Aí o Benfica chegou guloso para contratar um jogador do campeão e a diretoria malandramente empurrou Jamir. Chegando lá pessoal da terrinha se ligou na "fera" que tinham importado e venderam em um ano pro Flamengo. Então meu desespero começou.

O fato é que depois de um determinado momento, com Jamir há mais de um ano acabando com meus domingos, eu fiquei anestesiado e já nem xingava mais a fera. Ele era tão ruim que eu comecei a apoiar por angústia. Eu não conseguia mais me concentrar nos jogos, ele tocava na bola e meu coração parava de bater, eu tinha vontade de enfiar a cabeça na televisão e arrancar Jamir do campo, mas como não era possível eu torcia com aquela calma que só desespero dá. Foi aí que eu vi o bem que ele estava me fazendo no sentido cármico. Eu estava me tornando um ser humano melhor. Serenei e torci pelo passar do tempo quando percebi que se eu sobrevivesse a Jamir atrapalhando ali no meio de campo, eu estava pronto para encarar qualquer decepção com meu Flamengo.

E foi dito e feito. Alguns anos depois, eu tive decepções futebolísticas que se não fosse o volante-desespero preparando meu coração eu não teria condições de sobreviver: Santo André e Cabañas com seu América do México. Isso sem falar na legião de "Jamires" que vieram ao longo dos tempos mas não abalaram tanto minha paz de espírito: Walter Minhoca, Josuel, Leco, Dimba, Carlos Eduardo, Lucas Mugni, Sambueza, El Tigre Ramirez…todo mundo com potencial para ser odiado, mas que graças à evolução espiritual que o ex-botafoguense me impôs, não tinham mais como abalar meu amor pelo Flamengo.

Obrigado, Jamir, por moldar meu caráter. 

Campo Livre