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Minha maior derrota no Maracanã foi um empate

Sávio era um dos ídolos daquele time - Patrícia Santos/Folha Imagem
Sávio era um dos ídolos daquele time Imagem: Patrícia Santos/Folha Imagem
Leandro Ramos

Leandro Ramos

Carioca, suburbano e flamenguista, Leandro Ramos é ator, diretor, roteirista e centro-avante de pelada. Dirigiu o Larica Total e o Matador de Passarinho entre outros, e é o Julinho da Van, do Choque de Cultura.

23/10/2018 04h00

Meu pai é muito flamenguista e, por isso, ele costuma dizer que sou Flamengo desde antes de nascer. Meu nome é uma homenagem ao lateral direito campeão do mundo em 1981, que, segundo papai foi o maior lateral e o melhor zagueiro que ele viu jogar. Eu só ganhei o nome de Leandro em cima da hora, porque, a princípio, estava tudo combinado entre meus pais, e eu iria chamar Hiawata (Deus abençoe a inspiração do lateral). Talvez por gratidão à sábia decisão de papai, que motivado pela paixão futebolística me rebatizou, desde bem pequeno, eu costumo ir ao estádio com ele e nunca dizia não a esse programa.

Nós vimos muitas vitórias e muitas derrotas, mas ficamos alguns anos sem ir quando eu tinha entre sete e 13 anos de idade, por questões de orçamento familiar e porque morávamos muito longe do estádio. Nunca esquecerei nosso retorno ao maior do mundo, pois foi uma das maiores derrotas da minha vida, mesmo o jogo terminando empatado. Não era uma final, não foi um grande jogo, não valia nada além de três pontos, eram dois times medíocres, mas o futebol é um esporte tão apaixonante que um simples Flamengo x Criciúma valendo nada pode nos reservar grandes emoções e marcar nossa alma para sempre.

Fomos eu, meu irmão, meu pai e um primo flamenguista. Seria o primeiro jogo que veríamos no estádio na era pós Zico e Júnior, o ano era 1994, e o Flamengo tinha Nélio e Sávio, meus únicos ídolos daquele time. No caminho pro jogo, estávamos todos certos de uma vitória tranquila em casa, Sávio estava despontando, e o Criciúma não tinha um grande time. Quando chegamos estávamos eufóricos e na descida do carro, já senti a primeira grande emoção: meti o pé com vontade numa bosta de cavalo fresquinha numa rua próxima do estádio. O tênis enfiou tão gostoso na merda que chegou a sujar a meia e entrar no calçado. Sinal de boa sorte, disse papai que sempre foi um grande otimista. Não desanimei, tirei as meias, limpei por dentro do tênis, joguei as meias fora e calcei de novo meu conguinha. Bola pra frente.

Passamos pela catraca e subíamos a rampa que dá às arquibancadas quando tudo começou a ruir e comecei a desconfiar de que seria uma derrota para mim. Naquela época, o Maracanã era mais selvagem, então nem todo mundo ia ao banheiro para fazer xixi, muitas pessoas faziam na rampa mesmo, por isso minhas recordações de estádio nos anos 80 e 90 cheiram a cerveja e urina. E nesse fatídico dia, subia eu com meu conguinha sem meias pós cocô de cavalo, quando eu derrapei no mijo de outrem e caí de costas na poça de xixi. O jogo não tinha nem começado e eu já estava perdendo de dois a zero para a vida. Meu pai, meu irmão e meu primo não conseguiram se conter e riram de desespero. E eu, deitado na urina, tentava levantar, mas como era uma rampa de cimento liso e molhada, só fazia derrapar no esforço de ficar em pé.

Recomposto e humilhado depois do tombo, tirei a camisa e coloquei numa sacola plástica, mas o cheiro estava em mim, eu sabia disso. Meu pai quis abortar o jogo e voltar pra casa para eu me lavar, mas eu, bancando o machão aos treze anos, não quis e disse que veria o jogo todo. Partida morna, eu lá segurando meu saquinho com a camisa do Mengão molhada de xixi, pessoal em volta na torcida me olhando de cara feia, aquele cheiro de mijo em mim e de repente numa rebatida na área o pior: gol do Criciúma. Meu pai olha pra mim e pergunta se eu não quero ir pra casa, se não está bom já. Eu insisto em ficar, e bem no momento em que eu dizia que não iria embora, enquanto o Flamengo não virasse o jogo, uma dor no meu peito. Não, não enfartei, era um copo. Um copo que veio voando. Um copo cheio de mijo que veio voando. Um copo cheio de mijo que veio voando e explodiu no meu peito. Três a zero para a vida, um a zero para o Criciúma. Papai olhou pra mim, agora sem rir, cheio de pena, e insistiu para irmos embora.

Mas eu  nasci flamenguista e teimoso. E disse não. Aliás, característica básica de qualquer apaixonado por futebol tem que ser essa: teimosia. Tem épocas na nossa vida, não importa o time, que para continuar amando o futebol e nosso clube só sendo teimoso. Na época de Flamengo com Maurinho e Jamir de titulares do time, eu teimava em ser Flamengo, porque não tinha nenhum outro motivo para eu ir no estádio. Mas voltando ao jogo, eu insisti em ficar porque era teimoso e, apesar do copo de mijo quente no meu peito, o jogo continuava morno. Até que o juiz marcou um pênalti para a gente. Nélio converteu minha primeira e única alegria do dia. O ponto baixo do gol de empate foi ver meu irmão, meu primo e meu pai se abraçarem e ninguém me abraçar em razão do cheiro de mijo que era inerente à minha pessoa naquele momento. Não me abati, comemorei de longe com eles, mas apesar da minha torcida de cheiro forte o jogo terminou assim. 1 a 1 sem graça. Todo mundo frustrado com o empate, descíamos as rampas de saída para o Del Rey de papai quando aconteceu o impossível, eu escorreguei de novo no mijo. Dessa vez caí sentado e não aguentei. Antes que todo mundo em volta pudesse rir, eu chorei de raiva. Arranquei o short na rampa mesmo, os tênis conga de solado liso e isolei tudo o mais longe que pude. Voltei para o carro só de cueca, descalço, com meu manto sagrado mijado dentro de um saco e no caminho jurei nunca mais usar tênis conga, nem pisar de novo no Maracanã. A promessa do tênis consegui cumprir e nunca mais usei um conga de sola lisa, mas duas semanas depois, já estava eu de novo no estádio passando raiva com o Flamengo. Dessa vez culpa do Gelson  Baresi, mas essa é uma outra história. 

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