PUBLICIDADE
Topo

Alicia Klein

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como é possível amar Valdivia e questionar Rony?

Rony, do Palmeiras, comemora gol contra o Cerro Porteño pela Copa Libertadores - NELSON ALMEIDA / AFP
Rony, do Palmeiras, comemora gol contra o Cerro Porteño pela Copa Libertadores Imagem: NELSON ALMEIDA / AFP
só para assinantes
Alicia Klein

Alicia Klein tem quase 20 anos de mercado esportivo em posições de liderança no Brasil e no exterior. Escreveu a biografia de Michael Schumacher, trabalhou na NFL, no universo olímpico e no da Copa do Mundo. Decidiu que é hora de falar sobre misoginia, racismo, trabalho infantil e tudo que o esporte aceita em nome dos resultados dentro e fora de campo.

07/07/2022 13h30

Ou, então, por que é tão difícil amar os que trabalham duro?

Ontem, Rony finalmente marcou seu tão esperado - e tentado - gol de bicicleta. Uma pintura. A consagração de Ronybikeson. O quinto do Palmeiras no jogo, o 33o na Libertadores 2022 e seu 18o pelo alviverde na competição.

Com 16, ele havia igualado Pelé e Zico em Libertadores. Com 18, ele se descola, pleno, inalcançável pelos gigantescos ídolos do nosso futebol.

E por que ele próprio não alcança este status, o de ídolo inquestionável?

Titular praticamente absoluto de um time incrivelmente vencedor, artilheiro (mesmo atuando fora de posição), recordista, destinatário de declarações de amor de um técnico chato ("Uns gostam, outros não gostam... Eu o amo"), dedicado em níveis provavelmente inéditos. Jogador de uma marcha só, a quinta, ou a sexta. Que nunca desacelera, não importa o contexto.

Impressiona-me ver uma torcida que idolatrou Jorge Valdivia encontrar dificuldades para se jogar nos braços de Rony. Vê-la comemorar, celebrar e aplaudir o camisa 10 de hoje, mas nunca sem ressalvas.

Não tem cacoete de centroavante. Só joga na Libertadores. Perde gols absurdos. Não desiste dessa bicicleta.

Quem não se contenta com sua dedicação quase insana deveria se contentar com os números. Peça chave das conquistas da era Abel, especialmente das Libertadores, ostenta as seguintes estatísticas:

Rony em Libertadores pelo Palmeiras

2020: 11 jogos, 5 gols, 8 assistências, 1 amarelo
2021: 10 jogos, 6 gols, 1 assistência, 0 cartões
2022: 7 jogos, 7 gols, 1 assistência, 2 amarelos

Consistência que chama. Algo que tantos outros nunca tiveram. Suor que tantos outros nunca doaram. Pressão a que tantos outros sucumbiram.

Rony é (ou deveria ser) ídolo inquestionável. Rony é histórico. Rony é único.

Nunca riam de Rony. Porque é injusto e, sobretudo, inútil. Ele não tem freios.