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Alicia Klein

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Alicia Klein: CBF prova do próprio veneno com arbitragem medíocre

Raphinha sangra após cotovelada de Otamendi em clássico Argentina x Brasil pelas Eliminatórias - Lucas Figueiredo/CBF
Raphinha sangra após cotovelada de Otamendi em clássico Argentina x Brasil pelas Eliminatórias Imagem: Lucas Figueiredo/CBF
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Alicia Klein

Alicia Klein tem quase 20 anos de mercado esportivo em posições de liderança no Brasil e no exterior. Escreveu a biografia de Michael Schumacher, trabalhou na NFL, no universo olímpico e no da Copa do Mundo. Decidiu que é hora de falar sobre misoginia, racismo, trabalho infantil e tudo que o esporte aceita em nome dos resultados dentro e fora de campo.

17/11/2021 16h59

Em um lance de chocar até quem desistiu de se decepcionar com o futebol, a equipe de arbitragem de Argentina e Brasil conseguiu ignorar, ao vivo e pelo vídeo, um lance grotesco de agressão de Otamendi a Raphinha. Juiz não viu, bandeira não viu, VAR não viu. O diálogo da checagem é constrangedor (veja abaixo).

Já a Conmebol não pôde ignorar a situação, suspendendo os uruguaios do apito e do vídeo para não aumentar a vergonha.

Não acredito em favorecimento à Argentina, perseguição ao Brasil. A realidade, talvez mais triste, é que a arbitragem sul-americana é terrível. Amadora, caseira, desacreditada. Os erros pululam nas partidas de clubes e, perversamente, também nas mais importantes do continente: aquelas que valem a ida para a Copa do Mundo.

Como se não bastasse o baixo nível técnico de quem joga bola: há gente podendo ir ao Catar com 40 por cento de aproveitamento (17 pontos em 14 jogos, metade do primeiro colocado). O lance de ontem escancara a pobreza do nosso continente em todos os aspectos.

A CBF, como não poderia deixar de ser, vociferou, pediu que a Conmebol puna Otamendi. Que, aliás, fez questão de aumentar a chacota, brincando no Instagram: "Foi na bola".

(Se me permitem mais um aliás, chamou-me a atenção a apatia dos brasileiros na sequência da cotovelada. Raphinha sangrando copiosamente, uma checagem relâmpago no VAR, nada a marcar e um quase silêncio do lado verde e amarelo. Ficaram atônitos?)

A ironia é ver uma confederação que acabou de limar Leonardo Gaciba do comando da comissão de arbitragem pela péssima condução do apito no país precisando, agora, reclamar do que ela própria não consegue resolver dentro de casa. O sujo falando do mal lavado.

Não é uma crítica à CBF pela reclamação. Obviamente, cabe à Confederação proteger seus atletas e protestar uma decisão que poderia ter mudado o curso do jogo. Mas cabe a ela também olhar para o próprio umbigo.

O futebol sul-americano segue vivendo de talentos sobrenaturais que de vez em quando produzimos. Não dá para sermos só isso: produção de matéria-prima, pé-de-obra de exportação. Tudo precisa crescer ao redor, inclusive a arbitragem. Quando vamos nos levar a sério, de verdade?

"AVAR: Cuidado com o rosto
ASSISTENTE: Toca a perna, para mim não há golpe. Venha, por dúvidas.
AVAR: Cuidado com a cara.
ASSISTENTE: Eu não vejo golpe.
VAR: Com o antebraço, na cara. Me dá em velocidade normal, quero ver a intensidade. VAR: É com o antebraço. Deu falta pelo menos?
AVAR: Não.
VAR: Eu considero que aqui, o golpe é com o antebraço no rosto, com intensidade média. Sim, no rosto.
VAR: Isso me parece que é falta, de cartão amarelo, não considero cartão vermelho. Estamos de acordo?
AVAR: Estamos de acordo.
VAR: Andrés, checagem completa. Uso de braços indevido ao limite. E é fora da área VAR: Me dá 10 segundos a mais, por favor. Volta.
AVAR: Espera, não recomeça, espera.
VAR: Vamos confirmar. Fora, o golpe é fora. Vamos, siga."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL