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OPINIÃO

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Após decepção, DeAndre Ayton tem futuro incerto no Phoenix Suns

Deandre Ayton em ação pelo Phoenix Suns em jogo contra o LA Clippers nos playoffs da NBA -  Adam Pantozzi/NBAE via Getty Images
Deandre Ayton em ação pelo Phoenix Suns em jogo contra o LA Clippers nos playoffs da NBA Imagem: Adam Pantozzi/NBAE via Getty Images
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Vitor Camargo

Vitor Camargo é economista formado pela Faculdade de Economia e Administração da USP. Desde 2011 escreve sobre esportes americanos, com passagens por Yahoo, Gazeta do Povo e o seu próprio site, o Two-Minute Warning. Foi comentarista de beisebol na Fox Sports e consultor técnico na tradução do livro Moneyball (2011). É autor do livro Era de Gigantes (2019), o primeiro sobre a história da NBA escrito no Brasil, e apresentador do podcast Na Era do Garrafão.

19/05/2022 04h00

DeAndre Ayton é daqueles jogadores que, infelizmente, já ficaram marcados negativamente por estarem no lugar errado na hora errada; mais especificamente, no topo do Draft que viu Luka Doncic sair apenas com a terceira escolha. Não foi culpa de DeAndre Ayton que três executivos da NBA tiveram um AVC coletivo e se convenceram de alguma forma que o adolescente que tinha sido MVP da segunda melhor liga de basquete do mundo com 18 anos não valia a primeira escolha do Draft porque... ninguém exatamente sabe. Mas os Suns - donos da primeira escolha do Draft - escolheram Ayton, e para sempre o pivô vai ficar marcado como "o jogador que foi escolhido na frente de Luka Doncic", um rótulo que ficou ainda mais irônico quando Luka Doncic massacrou os Suns no Jogo 7 que pode significar o último jogo de Ayton pela franquia.

Apesa do rótulo, no entanto, Ayton acabou se provando um ótimo jogador; não necessariamente uma estrela e muito menos um supercraque do nível de Luka, mas um bom pivô que encaixava perfeitamente no que os Suns queriam fazer: um bom defensor coletivo, excelente finalizando no garrafão vindo do pick-and-roll, passador inteligente, alguém que fazia todas as pequenas coisas na máquina de eficiência que era o Phoenix Suns. Depois de Booker e Paul, Ayton foi o melhor jogador da arracada dos Suns rumo às Finais da NBA em 2022, batendo de frente (e defendendo espetacularmente bem) o MVP Nikola Jokic e deglutindo o small ball dos Clippers dos dois lados da quadra, antes de finalmente ser batido por Giannis nas Finais (e quem não foi, nesses últimos 18 meses?). Com 23 anos recém-feitos, Ayton parecia parte fundamental de um dos melhores times da NBA, não apenas do seu presente como candidato ao título mas também do futuro da franquia após uma aposentadoria de Chris Paul.

Os primeiros sinais de problema, no entanto, apareceram um pouco depois; com Ayton entrando no último ano do seu contrato de calouro, era esperado que ele recebesse uma grande extensão contratual, mas ela não veio. Ao invés disso, Ayton viu Mikal Bridges - décima escolha no mesmo Draft - receber uma extensão de 4 anos e 90 milhões de dólares, um número consideravelmente abaixo do contrato máximo que Ayton esperava. Talvez essa diferença salarial seja o motivo dos Suns optarem por renovar o contrato de Bridge e não de Ayton, mas o fato é que, com extensões caras para Booker e Paul nos livros, o contrato de Bridges despertou questões sobre se seria financeiramente viável manter Ayton no médio prazo.

Ao longo da temporada, isso pouco importou. Vencer é a grande cura, diz o antigo ditado da NBA, e enquanto os Suns venceram e dominaram, nada disso voltou ao primeiro plano - embora tenham circulado rumores de que Phoenix teria tido conversas preliminares (e preliminares apenas) com os Pacers em uma troca de Ayton por Sabonis. Mas, após uma excelente série contra os Pelicans, Ayton despencou de uma vez no fechamento da série contra os Mavericks. Todas as suas limitações acabaram sendo expostas de forma cruel: ele foi destruído por Luka e os armadores dos Mavericks em trocas, sofreu muito mais para defender as formações espaçadas do Dallas Mavericks do que ano passado contra os Clippers, e sequer conseguiu compensar no ataque. Uma das grandes críticas a Ayton é que, apesar de todo seu tamanho e força física, ele é um tanto quanto mole no garrafão, preferindo usar de floaters ou arremessos de giro ao invés de aproveitar o tamanho e força para trombar e chegar até o aro - e isso esteve em primeiro plano contra os Suns. Parte do problema ficou maior por causa da péssima série de Chris Paul, o que fez com que Ayton não recebesse os passes em boa posição de costume e fosse obrigado a se virar mais por conta própria, mas esse de certa forma é o ponto: se o jogador depende em excesso de receber passes em posições ideais, talvez esse jogador não valha um contrato máximo.

O auge se deu no Jogo 7; uma derrota tão humilhante assim é problemática para todo o time, mas Ayton pareceu levar isso um nível além. O pivô jogou apenas 17 minutos e anotou 5 pontos no total, sendo inclusive visto brigando com seu técnico Monty Williams no banco de reservas. Após o jogo, Williams classificou o problema como "interno", o que não é muito animador. Todos os sinais parecem indicar que o tempo de Ayton em Phoenix se esgotou.

Isso levanta algumas questões difíceis. Com Ayton, os Suns são um dos melhores times da NBA e candidato ao título, apesar da derrota para Dallas; não querer pagar o máximo para Ayton é compreensível, mas perder o jogador por nada não seria algo fácil de engolir. Ayton é um agente livre restrito, o que significa que os Suns tem direito de igualar qualquer oferta que ele receba no mercado para manter o jogador, mas é válido questionar se os Suns sequer querem manter o jogador no momento (supostamente, Ayton quer deixar a equipe também, ou é o que os insiders reportam). Se ele não conseguir mais do que um contrato mediano, os Suns podem pensar a respeito e igualar a oferta, mas duvido muito que Phoenix tope manter ele em um contrato máximo ou perto disso - caso contrário, já teriam renovado com ele. Onde fica essa linha que seria aceitável para os Suns?

No papel, a solução ideal para Phoenix seria um sign-and-trade, que impediria que os Suns perdessem o jogador por nada, e uma forma da equipe de reforçar sua questionável profundidade de elenco com jogadores que não comandariam o contrato máximo de Ayton. Em teoria, esse seria o meio termo que permitiria aos Suns permanecerem candidatos ao título no curto prazo e manterem flexibilidade salarial para o futuro, mas é o tipo de coisa mais difícil de se fazer na prática do que na teoria. Ainda que um SnT aumente as opções de times possíveis, você precisa encontrar alguém que precise de um pivô, que tope pagar um contrato máximo para Ayton, E que tenha ativos que façam sentido para os Suns absorverem em retorno e caminhar esse meio termo. Muito mais difícil do que parece.

O nome que mais faz sentido como parceiro de troca - no papel - é o Atlanta Hawks, outro time que vai buscar reconstruir ao redor da sua estrela depois de um fim de ano decepcionante. Ayton faz sentido como parceiro de pick-and-roll para Atlanta e pode ser o tipo de grande movimento que os Hawks podem realisticamente esperar, mas o pacote de retorno é mais complicado: Capela é mais barato que Ayton, mas também está preso em um contrato ruim (e longo) e é uma piora. Os Hawks estariam dispostos a trocar, talvez, Hunter ou Bogdanovic junto? Escolhas de Draft interessariam Phoenix?

Charlotte - necessitado de um pivô - também é uma opção bastante interessante, mas novamente não é fácil achar uma troca que funcione. Eu imagino que Phoenix estaria interessado em PJ Washington como um pivô de small ball, especialmente depois de perder para Dallas usando justamente uma formação mais baixa, mas bater salários envolveria Terry Rozier ou Gordon Hayward - dois bons fits que trazem o mesmo problema contratual que renovar com Ayton. Os Spurs podem fazer algo em torno de Poeltl, mas vão precisar mandar mais alguma coisa, e não sei se Popovich quer pagar 30M por ano para um pivô.

Questões sobre se vale a pena pagar o máximo para um pivô que não é uma grande estrela como Embiid ou Jokic certamente farão parte da discussão, mas você pode ter certeza que a chance de pegar um pivô com potencial de All Star, de apenas 23 anos, vai apelar para muitos times em busca de talento. Já citei os Hornets, mas pode ter certeza que não serão os únicos. O Detroit Pistons tem espaço salarial suficiente para assinar Ayton direto, sem precisar de uma troca, e o pivô seria um ótimo fit dependendo do que Detroit tiver em mente para a escolha #5 do Draft. Damien Lillard já manifestou vontade de jogar com o pivô, e Portland - em busca de competir logo - pode abrir esse mesmo espaço se quiser; forçando Phoenix a decidir se iguala a proposta, ou perde o jogador por nada. Algum time inesperado vai entrar na briga. Jogadores com esse talento, pedigree não chegam no mercado aberto nessa idade. Times vão aproveitar.

Phoenix ainda tem tudo para continuar um candidato ao título, mas janelas fecham rápido na NBA, e times precisam acertar decisões difíceis em sequência para se manterem no topo. E o que fazer com Ayton é a que está no topo da lista dos Suns.