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OPINIÃO

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Mavericks e Warriors se enfrentam na final do Oeste; quem tem a vantagem?

Stephen Curry defende Luka Doncic em partida da temporada regular de 2022 - Ron Jenkins/Getty Images
Stephen Curry defende Luka Doncic em partida da temporada regular de 2022 Imagem: Ron Jenkins/Getty Images
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Vitor Camargo

Vitor Camargo é economista formado pela Faculdade de Economia e Administração da USP. Desde 2011 escreve sobre esportes americanos, com passagens por Yahoo, Gazeta do Povo e o seu próprio site, o Two-Minute Warning. Foi comentarista de beisebol na Fox Sports e consultor técnico na tradução do livro Moneyball (2011). É autor do livro Era de Gigantes (2019), o primeiro sobre a história da NBA escrito no Brasil, e apresentador do podcast Na Era do Garrafão.

18/05/2022 04h00

Se você - além de bom basquete - gosta de narrativas interessantes e poéticas, a final da Conferência Oeste entre Warriors e Mavericks é um prato cheio para você.

A mais óbvia delas, e a que estará em primeiro plano, é o confronto entre os armadores. Ambas as equipes tem no seu armador principal o grande astro do time, mas eles representam eras e estilos opostos do basquete: Stephen Curry, por um lado, foi o símbolo da última década na posição, um excelente arremessador e gênio do jogo coletivo e da movimentação de bola, enquanto Luka Doncic, do outro lado, se posiciona como grande armador da próxima década, um grande passador e criador que centraliza as jogadas da sua equipe. Curry já é um dos maiores da história, e Luka caminha para ser - um confronto carregado de simbolismo que é a cereja no topo desse excelente confronto.

E se os times possuem filosofias e identidades muito diferentes no ataque - Golden State é o supra-sumo do jogo coletivo, o segundo time que mais passa a bola na NBA e o que mais da assistências, enquanto Dallas é um time que centraliza a bola mais do que quase qualquer outro, com Luka controlando todas as ações e um dos que menos da assistências e mais joga em isolações da liga - ambos os times têm em comum o fato de que encontraram seu melhor basquete usando formações mais baixas e espaçando a quadra.

Golden State, é claro, encontrou isso sete anos atrás; formações baixas com Draymond Green de pivô foram o segredo do time que dominou a NBA e revolucionou a nossa forma de pensar basquete no processo. Nesse ano, o time novamente tem tido sucesso nesse sentido, especialmente com a ascensão de Jordan Poole, e não temos motivo para acreditar que isso vá ser diferente tão cedo - ainda que eu acredite que os Warriors possam (e devem) jogar um pouco mais "alto" nessa série.

Mas ver Dallas se encontrando da mesma maneira - colocando Maxi Kleber (arremessando 49% de três nos playoffs!) de pivô, espaçando cinco jogadores no perímetro e maximizando o espaço e opções para Luka atacar no 1 vs 1 - foi particularmente interessante considerando que Dallas por anos apostou alto em Kristaps Porzingis, um pivô cuja principal característica ofensiva era justamente o arremesso, mas nunca chegou realmente a jogar esse small ball com cinco jogadores abertos. Sem Porzingis, no entanto, Dallas tem abraçado cada vez mais a formação, e tem sido seu grande trunfo nos playoffs: formações com Luka e Kleber, e sem outro pivô, está +52 em quadra nessa pós-temporada. Você pode ter certeza que veremos muito dessa formação contra Golden State.

Estranhamente, essa dominação de Dallas jogando com Kleber de pivô é o maior motivo pelo qual eu não acho que os Warriors deveriam se comprometer com suas formações mais baixas como padrão nesse confronto: com Iguodala fora e Klay Thompson não sendo mais o defensor que foi no passado, essas formações oferecem opções DEMAIS para Luka Doncic caçar individualmente jogadores que não vão ser capazes de defender Luka sem ajuda; e, nesses quintetos mais espaçados, essa ajuda precisa percorrer distâncias maiores. Não que os Warriors devam jogar sempre com um pivô como Kevon Looney, mas vai ser uma série para os Warriors apostarem nas formações intermediárias, com Kuminga ou Otto Porter no lugar de Poole ou outro splash brother - uma forma de aumentar o tamanho defensivo da equipe, aumentar as opções, e diminuir a facilidade que Luka vai ter para caçar mismatches.

Do outro lado, eu também fico curioso para ver como a defesa de Dallas se comporta. Ela tem sido o grande destaque dos Mavs nessa pós-temporada, e o que fizeram com os Suns no Jogo 7 foi uma obra de arte. Olha essa posse de bola, por exemplo:

Tudo é perfeito nessa posse; a dobra, as leituras, as rotações, Dallas consegue sufocar as ações dos Suns antes de começarem e ainda fecharem os espaços que a ajuda deixa antes que a bola chegue nos jogadores de Phoenix.

Mas o ataque dos Warriors oferece um desafio completamente diferente em relação ao ataque metódico dos Suns. O ataque de Phoenix é brilhante por causa da sua eficiência; são jogadas simples e arremessos até comuns, só que eles executam tão bem e tão rápido, sem perder um instante sequer, que mesmo o básico se torna letal. A defesa dos Mavericks, em diversos momentos e em especial nos Jogos 6 e 7, se mostrou à altura disso: sabendo o que os Suns iriam fazer, eles conseguiram ser tão rápidos, tão perfeitos na execução e tão fluidos nas ações que conseguiram sufocar o que o adversário tentava fazer. Não que seja minimamente fácil FAZER isso, claro, senão todos fariam, mas essa execução quando você tem uma noção do que esperar e do que os Suns farão simplifica a tarefa.

O ataque de Golden State é o oposto; eles fogem mais do que qualquer outro dos padrões da NBA que times são acostumados e treinados para defender, e ao invés disso fazem o adversário passar por uma série de ações, movimentações e inversões incomuns que torna tudo mais difícil para a defesa. Ao invés de executar algo bem definido, a defesa precisa primeiro fazer as leituras certas e na velocidade ideal para acompanhar um time que tem esse estilo internalizado com perfeição - e essas leituras não só são muito mais rápidas e complexas em relação as outras, mas elas fogem tanto da norma que mesmo a lógica e o raciocínio que a defesa precisa processar nessa fração de segundos é muito diferente do que estão acostumados. Fazer isso com a sincronia e entrosamento necessários, então, é um desafio gigantesco - e um que a defesa de Dallas pode estranhar no começo depois de enfrentar dois ataques tão mais tradicionais em Phoenix e Utah.

No fundo, eu tendo a achar que as equipes tem mais em comum do que de diferente: ambas se fiam em um armador historicamente dominante, com excelentes defesas coletivas, ataques que gostam de espaçar a quadra, e que arremessam muito de três pontos. O como elas chegam nisso diferente, mas o resultado é bem próximo.

E eu simplesmente acho que os Warriors estão fazendo isso faz mais tempo; eles já enfrentaram mais, viram mais do que Dallas, e tem respostas para mais questões que aparecerão. Luka pode ser o melhor jogador da série, mas os Warriors tem mais talento individual, e igualam os Mavs em proficiência coletiva. Pode ser um apego excessivo a times que já se provaram e mostraram essa capacidade de adaptação, mas querendo ou não, é uma vantagem que os Warriors tem.

Se vão fazer valer, naturalmente, é outra história.

Palpite: Warriors em 7