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OPINIÃO

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A ascensão de Jordan Poole chega na hora perfeita para os Warriors

Jordan Poole e Stephen Curry comemoram vitória sobre o Denver Nuggets  - Kelley L Cox/USA TODAY Sports
Jordan Poole e Stephen Curry comemoram vitória sobre o Denver Nuggets Imagem: Kelley L Cox/USA TODAY Sports
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Vitor Camargo

Vitor Camargo é economista formado pela Faculdade de Economia e Administração da USP. Desde 2011 escreve sobre esportes americanos, com passagens por Yahoo, Gazeta do Povo e o seu próprio site, o Two-Minute Warning. Foi comentarista de beisebol na Fox Sports e consultor técnico na tradução do livro Moneyball (2011). É autor do livro Era de Gigantes (2019), o primeiro sobre a história da NBA escrito no Brasil, e apresentador do podcast Na Era do Garrafão.

13/05/2022 04h00

O Golden State Warriors de Steve Kerr sempre foi associado de forma muito próxima a arremessos de três pontos, mas você sabe quem lidera a equipe em aproveitamento de trás do arco nesses playoffs? Não é Stephen Curry, o duas vezes MVP e um dos 10 maiores jogadores de todos os tempos; tampouco Klay Thompson, outro lendário arremessador famoso pela forma como pega fogo em certos jogos de playoffs. O melhor arremessador de três pontos dos Warriors nesses playoffs tem sido Jordan Poole.

Escolha #28 do Draft de 2019, Poole foi rapidamente subindo na hierarquia dos Warriors, de jogador de fundo de banco para jovem com potencial, para um jogador promissor, para algo próximo de uma legítima estrela. Depois de dois anos atípicos da franquia em geral em 2020 e 2021, com falta de competitividade em meio a lesões para suas estrelas, os Warriors voltaram com tudo em busca do título em 2022, e Poole deu mais um salto definitivo para se estabelecer como parte fundamental da rotação da equipe. Com Klay Thompson perdendo metade da temporada lesionado, foi Poole quem assumiu a posição (e também quem assumiu o buraco deixado quando Steph se machucou) e teve um ano espetacular com 19 pontos por jogo, 36% nas bolas longas, evoluindo na defesa e na criação, e basicamente sendo a terceira estrela dos Warriors depois de Curry e Draymond - sendo que ambos perderam boa parte do ano machucados, e Poole jogou 76 partidas.

E não é só questão de talento bruto, mas Poole tem o conjunto de habilidades perfeito para complementar um núcleo de Curry-Klay-Green que, apesar de ainda muito bom, está envelhecido e caminhando para o fim da carreira. Poole tem o bom arremesso para encaixar no estilo dos Warriors, mas ele também oferece um pouco de criatividade e agressividade a partir do drible que (tirando Curry) os Warriors não tem desde a saída de KD, uma presença mais agressiva em direção ao garrafão, alguém capaz de criar com a bola mas também se mover e achar espaços sem ela. Os Warriors sempre foram um time que buscavam no encaixe coletivo um resultado maior do que a soma das suas partes, e Poole encaixou como uma luva nesse sentido.

E falar em talento nesse sentido é até um desserviço a Poole. Todo jogador da NBA é insanamente talentoso. Talento determina o seu piso, mas seu caráter determina o teto, já dizia o grande Bill Belichick, e Poole é um ótimo exemplo disso. Veja por exemplo esse lance abaixo do Jogo 3 contra Memphis:

Eu lembro de ver esse lance em tempo real, levantar do sofá em choque e pensar: "Meu Deus, ele foi igualzinho ao Steph agora!". Usar o drible para desmontar a defesa, fazer o passe certo, e imediatamente aproveitar esse instante de relaxamento da defesa para se reposicionar em quadra e receber o passe para uma bola de três pontos é uma arte que Steph dominou melhor do que qualquer jogador da história do basquete, e ver Poole fazer exatamente a mesma coisa, com os mesmos movimentos e leituras, foi surreal. Foi quase como ver um mini-Steph em quadra, e mostra o quanto Poole não evoluiu apenas consigo mesmo, mas sim absorvendo truques e a experiência dos craques com quem ele teve o privilégio de dividir uma quadra e um vestiário.

Mas inúmeros outros jogadores ao longo da história tiveram a chance de fazer isso, e pouquíssimos conseguiram assimilar novas habilidades dessa maneira. Isso é um testamento não só ao talento, mas ao QI de basquete e principalmente à disposição e ética de trabalho de Poole que lhe permitiu absorver caracteristicas de dois dos melhores arremessadores da história. O Poole que vemos hoje é uma combinação do seu enorme talento E do que ele conseguiu acumular com experiências e vivências nesses três anos de NBA. Nada disso é por sorte ou por acaso.

E os playoffs de 2022 tem sido a grande anunciação de Poole como estrela da NBA. O terceiranista tem médias de 20 pontos e 5 assistências por jogo, arremessando 53% de quadra, 43% de três e 90% em lances livres, e frequentemente sendo o principal pontuador ou criador dos Warriors - o mais importante desses sendo seus 31 pontos, 8 rebotes, 9 assistências no Jogo 1 contra Memphis, jogo que os Warriors venceram por um único ponto (Poole foi +10 em quadra). Ele tem sido tão dominante, e a dimensão que ele traz para esse time com seus dribles, arremesso, versatilidade e capacidade atlética é tamanha que ele praticamente forçou Steve Kerr a escalá-lo de titular no Jogo 5 da série contra os Nuggets apesar da volta de Steph Curry (não escalar Poole de titular contra Memphis, inclusive, tem sido uma das críticas ao técnico dos Warriors), e ser figurinha carimbada nas principais formações da equipe para fechar jogos.

Essa ascensão de Poole também vem no momento perfeito para um Warriors que, durante parte da temporada (devido a lesões, é verdade) parecia estar ficando sem gás. Klay voltava de duas lesões gravíssimas, e apesar de estar bem melhor que o esperado, claramente também não é o mesmo jogador do auge. Curry e Green lidaram com múltiplas lesões ao longo do ano, e havia dúvidas sobre chegariam nos playoffs. Com os três saudáveis e em ritmo, todo mundo concordava que os Warriors eram candidatos ao título, mas era um "se" considerável, e a margem de erro era mínima. Esse salto de Poole, e sua emergência como estrela, mudaram por completo essa equação, dando ao time mais flexibilidade e opções enquanto também eleva o teto que esse time pode vir a ser. Ele é parte fundamental do que tem feito dos Warriors tão espetaculares nos playoffs até aqui.

Isso não quer dizer, claro, que Poole fez dos Warriors um Big 4, que os Warriors são os novos francos favoritos ao título, que o encaixe é perfeito, que é como se os Warriors tivessem Kevin Durant de volta. Ofensivamente, sim, o encaixe dele com Curry e Thompson é fantástico, e é extremamente difícil defender os Warriors quando os três estão juntos em quadra; mas defensivamente o encaixe é muito menos limpo, e torna muito mais difícil aos Warriors equilibrarem ataque e defesa nas suas principais formações. Curry é um bom defensor mas Golden State não quer ele marcando armadores explosivos, Klay não é mais o defensor ágil de antes das lesões, e Poole é apenas mediano na defesa - com os três juntos, Golden State tem muita dificuldade de marcar a infiltração ou conter armadores velozes (motivo pelo qual Gary Payton vinha sendo o principal marcador de Morant na série), e acaba deixando o time um pouco baixo demais (parte de porque a formação da morte funcionava muito melhor com caras altos e mais físicos como Durant, Iguodala e até Harrison Barnes). O "novo" quinteto da morte com Poole e Wiggins destruiu os Nuggets nos primeiros três jogos, mas não tem sido consistente desde então.

Mas isso faz parte. O encaixe perfeito de Durant e dos outros times dos Warriors foram a exceção, não a norma. Toda equipe lida com esses dilemas de como maximizar as formações com seus melhores jogadores em quadra. O importante é que a presença de Poole oferece uma peça a mais para Kerr, mais uma variável a ser usada que aumenta em muito a margem de erro e de segurança da equipe, que pode decidir ou mudar um jogo sozinha, e que pode eventualmente pode se tornar a estrela do time conforme absorve cada vez mais a responsabilidade dos veteranos. Com Poole (e Kuminga), Golden State efetivamente aumentou suas chances de título agora enquanto monta uma base para um futuro além do seu Big Three - uma das linhas mais difíceis de se caminhar e equilibrar da NBA.

Nada mau para a 28ª escolha do Draft.