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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Quem é Gustavo de Conti, o novo técnico da seleção masculina de basquete

Gutavo de Conti, novo técnico da seleção brasileira de basquete - CBB
Gutavo de Conti, novo técnico da seleção brasileira de basquete Imagem: CBB
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Vitor Camargo

Vitor Camargo é economista formado pela Faculdade de Economia e Administração da USP. Desde 2011 escreve sobre esportes americanos, com passagens por Yahoo, Gazeta do Povo e o seu próprio site, o Two-Minute Warning. Foi comentarista de beisebol na Fox Sports e consultor técnico na tradução do livro Moneyball (2011). É autor do livro Era de Gigantes (2019), o primeiro sobre a história da NBA escrito no Brasil, e apresentador do podcast Na Era do Garrafão.

20/09/2021 12h55

Quando foi anunciada na semana passada a saída do técnico Aleksandar Petrovic do comando da seleção brasileira masculina de basquete, logo começaram as especulações de quem seria o próximo nome a ocupar o cargo. E um nome em particular se destacava nas conversas: o de Gustavo de Conti, treinador da equipe de basquete do Flamengo e atual tricampeão brasileiro.

Esse fato se dava principalmente por dois motivos: primeiro, porque ele era considerado pela maioria das pessoas o melhor nome possível para o cargo, dada sua trajetória, qualificações e inegável qualidade. Para uma seleção que há anos navegava na mediocridade, a perspectiva de um nome do calibre de Gustavo era atraente, Mas, segundo, porque isso fez dele um sonho antigo do torcedor brasileiro da modalidade; nos últimos anos, toda vez que se tinha uma mudança de técnico ou até mesmo a perspectiva de uma, o nome de Gustavo era pedido a altos brados pela torcida mesmo que na maioria das vezes não houvesse uma tração real. Boatos circulavam de problemas de relacionamento entre Gustavo e a cúpula da CBB desde a complicada ruptura com a gestão de Ruben Magnano no comando da seleção, de quem Gustavo era assistente técnico. Então embora Gustavo fosse o favorito para assumir o cargo após a saída de Petrovic, sua contratação ainda não era uma certeza.

Mas na segunda-feira (20/09) foi oficializada a contratação de Gustavo para o cargo, e a notícia foi recebida com festa. O sonho antigo tinha finalmente se realizado, e o Brasil tinha o treinador que queria no comando da seleção.

Quando escrevi sobre a saída de Petrovic, eu deixei claro que partilhava da opinião geral que Gustavo era o melhor nome possível para a seleção. Se o que precisamos é um treinador de alta capacidade, o currículo de Gustavo fala por si só: em onze anos como treinador principal, de Conti soma três títulos nacionais (2018, 2019 e 2021), quatro títulos estaduais, um título continental da Champions League America, dois títulos da Copa Super 8, e foi quatro vezes eleito o melhor técnico da temporada do NBB. Em 2021, Gustavo levou o Flamengo a conquistar a inédita quadrúplice coroa: a equipe foi campeã do campeonato carioca, do NBB, do Super 8 e da Champions League America, com sobras. Por qualquer definição possível, Gustavo é um dos melhores técnicos do basquete nacional.

Mas o que faz de Gustavo de Conti o nome ideal para a seleção nesse momento não é apenas o que ele fez, mas como ele fez. Apesar da carreira ainda jovem, Gustavo mostrou enorme capacidade de adaptação e de brilhar em diferentes situações e contextos. Ele começou sua carreira no Paulistano, primeiro como assistente, depois treinador principal. Lá, uma de suas principais atribuições foi o desenvolvimento de jogadores das categorias de base; sem um orçamento capaz de bater de frente com as grandes potências do basquete nacional, o sucesso do Paulistano dependia em muito da sua capacidade de desenvolver os talentos em casa e das apostas nos jovens jogadores.

E Gustavo não apenas foi brilhante nessa função, como ao longo dos seus 9 anos à frente do Paulistano ele mostrou uma capacidade excepcional para tirar o máximo de elencos limitados com salários muito aquém dos principais candidatos ao título. Apostando em uma vantagem tática e no pioneiro uso de estatísticas e análises avançadas, o Paulistano se estabeleceu como um dos times mais consistentes e competitivos do país apesar de lidar com grandes mudanças no elenco quase todo ano. Em 2014, Gustavo levou pela primeira vez o Paulistano para a final do NBB (onde perdeu para o Flamengo) e faturou seu primeiro prêmio de técnico do ano. O Paulistano repetiria a dose em 2017 (perdendo para Bauru nas finais após uma brilhante arrancada nos playoffs) antes de finalmente conquistar seu primeiro título em 2018, vencendo Mogi nas finais e sacramentando o trabalho espetacular de Gustavo como melhor técnico do Brasil.

Após o título, Gustavo foi contratado pela maior potência do basquete nacional, o Flamengo, e tudo que tem feito desde então foi vencer. Em uma realidade totalmente diferente da que conduziu no Paulistano - agora em um clube de grande orçamento, com um elenco recheado de estrelas mais velhas e consagradas - de Conti soube tirar o melhor de um elenco mais estabelecido, focando no maior volume de jogo e qualidade dos seus atletas, enquanto continuava com uma mentalidade de vanguarda no esporte nacional em termos de análise e desenvolvimento de jogadores. Ainda que seu trabalho no Flamengo - em grande parte pela maior qualidade dos atletas - talvez não exponha tão bem e em primeiro plano sua capacidade tática como foi no Paulistano, ainda é inegável a excelência do Flamengo nesse aspecto e essa é parte importante da sua dominação sob o comando de Gustavo, conquistando os dois títulos nacionais disputados com sobras (lembrando que, por causa da pandemia, a temporada 2020 foi cancelada e não teve campeão).

Eu trago essa trajetória do Gustavinho porque ela é fundamental para ilustrar as qualidades que ele possui como treinador, e que fazem dele o nome perfeito para o comando da seleção. O Brasil hoje vive um momento de transição de gerações, com a aposentadoria de nomes como Alex, Hettsheimer e Marquinhos (além de outros que já aposentaram nos últimos anos como Leandrinho, Splitter e Nenê) e o surgimento de uma nova e talentosa geração liderada por figuras como Georginho, Yago e Bruno Caboclo. Vai ser preciso criar uma nova identidade e trajetória para a seleção quase do zero, e para isso é de grande importância que o novo treinador da seleção seja capaz de trabalhar e desenvolver atletas mais jovens, algo que Gustavo demonstrou continuamente ao longo da sua carreira, tanto no Flamengo como principalmente no Paulistano. Embora Petrovic tenha feito um trabalho sólido durante esse momento de passagem de gerações, era notável seu relativo desconforto (principalmente na derrota para a Alemanha no Pré-Olímpico de Split) em se utilizar mais amplamente dos jogadores mais jovens, apostando por longos momentos nos atletas mais experientes. Com Gustavo no comando, a seleção tem alguém mais capaz, preparado e experiente em fazer essa transição para uma geração nova e talentosa.

Sua eficiência tática, fundamental no sucesso das suas equipes, também é um ponto importante em um momento onde, cada vez mais, o Brasil percebe que não pode mais depender apenas do talento bruto dos seus atletas para ter sucesso no nível internacional: conforme o nível FIBA fica cada vez mais sofisticado e competitivo, o Brasil precisa conseguir cada pequena vantagem que puder encontrar dentro E fora de quadra, incluindo em áreas como de preparação estatística e analítica, onde Gustavo tem sido há anos um dos técnicos mais engajados e modernos.

O sucesso de Gustavo de Conti em situações diferentes ao longo da carreira também é um ponto positivo. Hoje, o Brasil se encontra em uma posição mediana e de azarão no basquete FIBA, e para desafiar potências mais completas em busca de resultados maiores vai precisar compensar as desvantagens como puder - e nós vimos Gustavo fazer exatamente isso no Paulistano, tirando o máximo de elencos inferiores com enorme capacidade de adaptação, variabilidade e compreensão inteligente das forças e fraquezas dos seus atletas. Da mesma forma, o Brasil ainda é uma potência Top2 na América latina e que vai continuar contando com grandes nomes internacionais no seu elenco, e por isso a experiência bem-sucedida de Gustavo na potência nacional que é o Flamengo, com grandes craques e grandes egos, também vai ser de enorme valia no comando da seleção. E vale citar que, em um momento onde na CBB vive grande pressão interna e externa e Petrovic lidava com uma crise pública com seus jogadores, vai ser difícil achar um treinador mais respeitado e capaz do que Gustavo para manejar o grupo e o coletivo para limpar os ares e criar uma nova identidade nacional.

Todos esses fatores, aliados à sua inegável capacidade, fazem de Gustavo - a meu ver - o melhor treinador que o basquete nacional formou em décadas e o nome certo para a seleção brasileira. Mas embora eu esteja extremamente feliz com o anúncio e acredite que ele seja a melhor coisa que aconteceu com o esporte nacional em anos, é importante tomar cuidado para não criar expectativas desmedidas e irrealistas. Faz tempo que eu insisto que o Brasil ficou para trás no cenário internacional não por falta de capacidade dos seus jogadores e técnicos, mas por causa de um trabalho muito malfeito nos níveis de federação e nas categorias de base, parando no tempo conforme o resto do mundo nos ultrapassou. A chegada de um excelente técnico como Gustavo representa um excelente primeiro passo e oferece motivo de otimismo e esperança, mas é errado e injusto colocar nas suas costas a expectativa de repentinamente solucionar todos os problemas do mundo e levar o Brasil a disputar medalhas, passando por cima magicamente de anos de má gestão e planejamento no nível macro. Da mesma forma, a chegada de Gustavo não pode ser feita pensando apenas no ciclo de três anos até Paris 2024. O basquete masculino brasileiro não tem uma identidade ou continuidade há muito tempo, e para tirar o melhor do trabalho de Gustavo serão necessários tempo e paciência, que um ciclo encurtado em meio a circunstâncias tão extremas não será suficiente. O Brasil já parte muito atrás de diversos competidores ao redor do mundo, e precisará de anos e anos com um técnico competente para começar a tirar esse atraso - o primeiro passo foi dado, mas não podemos cair na complacência de achar que foi o último.

Tradutor: Colunista do UOL Esporte

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL