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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O que a saída de Petrovic significa para a seleção brasileira de basquete

Aleksandar Petrovic durante jogo da seleção brasileira masculina de basquete contra a Croácia - Denis Lovrovic/AFP
Aleksandar Petrovic durante jogo da seleção brasileira masculina de basquete contra a Croácia Imagem: Denis Lovrovic/AFP
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Vitor Camargo

Vitor Camargo é economista formado pela Faculdade de Economia e Administração da USP. Desde 2011 escreve sobre esportes americanos, com passagens por Yahoo, Gazeta do Povo e o seu próprio site, o Two-Minute Warning. Foi comentarista de beisebol na Fox Sports e consultor técnico na tradução do livro Moneyball (2011). É autor do livro Era de Gigantes (2019), o primeiro sobre a história da NBA escrito no Brasil, e apresentador do podcast Na Era do Garrafão.

Colunista do UOL Esporte

13/09/2021 12h57

Na manhã de segunda-feira, foi anunciado pelo site oficial da Confederação Brasileira de Basquete a notícia de que Aleksandar Petrovic não é mais o técnico da seleção masculina de basquete - um mês depois das primeiras informações de que Petrovic tinha sido a escolha da CBB para retornar ao cargo após o término do seu contrato.

Segundo a nota oficial da CBB - que você pode ler na íntegra clicando aqui - a decisão partiu do próprio técnico, tendo em vista o ciclo que se aproxima e sua dupla função como técnico da seleção e da equipe italiana do Pesaro. Vale citar, no entanto, que a suposta manutenção de Petrovic era uma decisão que vinha enfrentando bastante pressão interna e externa, e o anúncio da sua saída vem em um momento onde a CBB vive uma certa crise interna após um desempenho fraco nos torneios das categorias de base. É difícil dizer se as duas coisas têm ou não uma relação direta, mas ainda é um contexto relevante que precisa ser lembrado.

E, como toda a saída de um técnico, você encontra reações bastante polarizadas entre os torcedores. Alguns acreditam que é uma notícia espetacular que vai salvar o basquete brasileiro, outros que ela prenuncia uma catástrofe. Como de costume, a verdade está mais longe dos extremos, e é preciso encontrar um ponto sensato no meio.

Por um lado, o saldo com que Petrovic sai da seleção é positivo. É preciso recordar o contexto no qual o croata assumiu o cargo em 2017, em meio a uma situação muito conturbada: seguindo a traumática derrota nas Olimpíadas do Rio de Janeiro e a polêmica saída de Magnano em meio a grandes conflitos com a confederação, e em um momento onde a excelente geração de Leandrinho, Varejão e cia estava se encaminhando para o seu fim e surgia a necessidade de uma renovação a médio prazo. É um momento muito delicado para se interromper um trabalho e reiniciar um ciclo, e coube a Petrovic segurar o rojão nesse momento complicado de transição.

E, em geral, eu acho que Petrovic fez um bom trabalho; não perfeito, é claro, teve seus erros (alguns maiores, outros menores) mas no geral a seleção se manteve acima da água e conseguiu navegar esse período difícil. Os resultados não foram espetaculares, mas a verdade - como já escrevi algumas vezes antes - é que não era razoável esperar que fossem, e por motivos que vão muito além dos jogadores e seu técnico. O Brasil conseguiu sobreviver esses anos tão difíceis com Petrovic no comando, e ele merece créditos por isso.

Ao mesmo tempo, eu também não consigo deixar de achar que essa é uma boa notícia, e que na situação atual a saída de Petrovic é o melhor para todos os envolvidos. Como dito antes, Petrovic fez um sólido trabalho guiando a seleção em um período conturbado de transição, mas agora a situação é outra. O Brasil encara de frente uma renovação por completo, e provavelmente começa quase do zero um novo ciclo com um novo projeto, e uma nova geração de jogadores. O momento pede um treinador que possa acompanhar essa nova formação de jovens talentos que devem cada vez mais assumir o protagonismo no time nacional, e que possa criar e desenvolver uma nova identidade. Isso exige renovação, e um treinador com ideias mais modernas e capaz de se relacionar com a nova geração - e, com todo o respeito a Petrovic, esse não é seu forte. Os melhores aspectos de Petrovic são sua experiência e estabilidade, e o Brasil se beneficiou delas quando essas eram as qualidades necessárias, mas nesse novo cenário elas não são mais o que você procura em um treinador. É hora de seguir em outra direção.

Alguns aspectos mais práticos também se destacam. Não é segredo nos bastidores que a CBB tem entretido há algum tempo a ideia de ter um treinador dividindo função entre treinar um time e a seleção, como forma de atingir treinadores com salários mais altos; de fato, era assim que seria o suposto acordo com Petrovic, que se dividiria entre a seleção e o VL Pesaro, na Itália. Mas, em um momento de renovação, com tanta incerteza e movimentações, não é o ideal ter um Petrovic cujo dia-a-dia será no basquete italiano. Se a CBB está decidida mesmo em ter um treinador em função dupla - e não estou dizendo que é o caso, e tampouco discutindo seus méritos ou não - então esse treinador precisa estar em constante contato com o basquete nacional, ou seja, ser um treinador dentro do Brasil que possa estar acompanhando o dia-a-dia do esporte por aqui. De novo, isso não é uma crítica ao Petrovic em si, mas as circunstâncias nas quais essa eventual volta do croata à seleção nacional estão muito longe das ideias.

E também tem a questão do clima. Petrovic sempre foi um notório "falastrão", alguém que da declarações polêmicas na imprensa e tem dificuldades na gestão pessoal dos jogadores. Notavelmente, a declaração de Petrovic após a derrota para a Alemanha no pré-olímpico de Split - na qual jogou a culpa pela eliminação nos jogadores que pediram dispensa da convocação - causou enorme mal-estar, e não são poucos (embora obviamente não sejam todos) os jogadores que não parecem insatisfeitos em ver Petrovic deixando o cargo. Na época, eu escrevi que a declaração de Petrovic tinha sido extremamente infeliz (e inverídica), que tinha o tom de alguém prestes a sair do cargo queimando suas pontes no processo, e que dificilmente ele teria clima para ele continuar na seleção; em retrospecto, é difícil dizer que estava errado.

O que vem a seguir, no entanto, ainda é uma incógnita. O nome favorito para assumir o cargo no momento é o de Gustavo de Conti, atualmente treinador do Flamengo; e, na opinião desse humilde blogueiro, seria o melhor nome possível para o cargo. Gustavo não só é (de novo, na minha opinião) o melhor treinador que o Brasil formou em muitos anos, mas é um nome ainda jovem, com ideias modernas e extremamente capaz tanto na parte tática como na parte interpessoal, muito respeitado pelos jogadores e executivos ao redor do país - o nome perfeito para assumir uma seleção jovem precisando de uma nova identidade e tendo em vista um novo ciclo, não apenas para Paris 2024, mas além.

Se não for Gustavo de Conti, a expectativa no momento é que seja outro nome nacional, embora alguns estrangeiros também estejam no radar da CBB. Se durante anos o basquete brasileiro buscou um treinador de fora, hoje o esporte vive um bom momento a esse respeito; e, repito, se a CBB for mesmo trazer um treinador em função dividida, o ideal é alguém que tenha contato direto com o esporte nacional. Caso alguma informação a respeito surja em breve, esse texto será atualizado de acordo, mas no momento apenas boatos circulam sobre o próximo nome.

Mas é importante frisar que, seja Gustavo ou qualquer outro, é importante mais uma vez ter expectativas realistas. Assim como os problemas do basquete nacional vão muito além das quadras, a solução também não virá miraculosamente de um bom treinador. Claro, nomear o técnico certo e dar a ele tempo, espaço, continuidade e liberdade para implementar seu trabalho com uma visão de médio-longo prazo seria um excelente primeiro passo, mas não é razoável colocar em quem quer que assuma o cargo a pressão de mudar sozinho o cenário do basquete brasileiro.

Ainda assim, esse é um momento onde a seleção brasileira tem a chance de iniciar uma nova etapa na sua trajetória, e essa perspectiva por si só é animadora. Pilares de outra geração como Leandrinho, Alex, Marquinhos e Hettsheimer estão se aposentando da seleção, e cada vez mais uma nova geração talentosa liderada por nomes como Caio Pacheco, Yago, Lucas Mariano, Bruno Caboclo, George de Paula e Gui Santos (para citar apenas alguns) vai ganhar espaço para brilhar. O Brasil ainda tem muito chão para voltar a ser um time realmente competitivo no cenário internacional, mas mesmo a jornada mais longa começa com um primeiro passo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL