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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Com Westbrook, Lakers adicionam astro, mas abandonam fórmula campeã de 2019

Russell Westbrook sorri antes de jogo do Washington Wizards contra o Atlanta Hawks pela NBA - Casey Sykes/Getty Images/AFP
Russell Westbrook sorri antes de jogo do Washington Wizards contra o Atlanta Hawks pela NBA Imagem: Casey Sykes/Getty Images/AFP
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Vitor Camargo

Vitor Camargo é economista formado pela Faculdade de Economia e Administração da USP. Desde 2011 escreve sobre esportes americanos, com passagens por Yahoo, Gazeta do Povo e o seu próprio site, o Two-Minute Warning. Foi comentarista de beisebol na Fox Sports e consultor técnico na tradução do livro Moneyball (2011). É autor do livro Era de Gigantes (2019), o primeiro sobre a história da NBA escrito no Brasil, e apresentador do podcast Na Era do Garrafão.

Colunista do UOL Esporte

10/08/2021 04h00

A não ser que você tenha se retirado para um mosteiro tibetano após as Finais da NBA, você provavelmente já ouviu a essa altura que o Los Angeles Lakers novamente roubou as manchetes ao trazer mais uma grande estrela para a Califórnia: Russell Westbrook, MVP da NBA em 2017 e nove vezes All-Star, que chega por meio de troca com o Washington Wizards.

A chegada de Westbrook foi um grande choque, com os Lakers adicionando um ex-MVP e futuro Hall da Fama para jogar ao lado de LeBron James e Anthony Davis no mais novo "Big Three" da NBA. Westbrook pode não ser mais o jogador que foi quando venceu o MVP, mas vem de uma boa temporada com os Wizards, em que quebrou vários recordes e impulsionou a equipe aos playoffs. Em um momento no qual a grande narrativa da NBA gira em torno de suas estrelas se juntando, é natural que essa história tenha dominado o debate ao redor da liga. Isso é ainda mais verdade se tratando de uma franquia tão polarizadora como os Lakers e de um jogador tão polarizador como Westbrook. Mas, deixando de lado a fanfarra e as narrativas, o que essa contratação significa em termos de basquete?

Embora o termo "Big Three" esteja na moda e a percepção seja de que todos os times na NBA estejam em busca de juntar três grandes craques, a questão é mais complexa que isso. Para times que já têm dois grandes nomes, o dilema de adquirir um terceiro —com um contrato caro, possivelmente precisando trocar ativos valiosos— é um entre talento e profundidade. A terceira estrela aumenta seu teto e oferece proteção contra uma lesão em outro dos seus principais jogadores, mas também significa que agora o resto do seu elenco ao redor do trio tende a ser muito mais limitado e magro, tornando sua dependência maior em poucos jogadores. Não existe uma resposta "certa" sobre qual é o melhor jeito de se ganhar um título de NBA.

Os Lakers também precisaram tomar uma decisão entre esses dois "modelos" na hora de adquirir Westbrook. Considerando as lesões de Davis, a idade avançada de LeBron e que o time acabou de vir de uma eliminação precoce relacionada a contusões nos seus dois astros, é compreensível porque Los Angeles acharia atraente a ideia de adicionar um jogador do calibre de Westbrook ao lado de Davis e LeBron. Mas, inegavelmente, isso também tem um custo: o time perdeu jogadores de alta minutagem e papel importante que os Lakers agora não têm condições de repor à altura, especialmente com o contrato gigantesco de Westbrook atulhando a folha salarial ao lado dos máximos para Davis e Bron. Isso limitou os Lakers basicamente a buscar reforços em contratos mínimos, aumentou a multa salarial a ser paga pela equipe (o que, por sua vez, custou ao time Alex Caruso, talvez seu terceiro melhor jogador) e reduz as opções de reforço da equipe. É um trade-off com seus prós e contras.

O que eu acho curioso, no entanto, é que os Lakers optaram por esse all-in nas três estrelas sendo que o time acabou de vencer um título com o modelo oposto. Em 2018, quando os Lakers montavam seu elenco, a ideia era originalmente formar um Big Three com LeBron, Davis e Kawhi Leonard. Quando esse último assinou com os Clippers, os Lakers inteligentemente mudaram o foco e usaram esse espaço salarial aberto para encher o elenco de bons coadjuvantes que formassem um elenco de apoio ideal ao redor de Davis e LeBron: Caldwell-Pope, Danny Green, Rajon Rondo, Alex Caruso, Kyle Kuzma, Dwight Howard, todos jogadores que contribuíram dos dois lados da quadra e forneceram aos Lakers solidez, versatilidade e complementos coerentes que permitiram aos dois grandes astros do time serem a melhor versão de si mesmos.

Com Westbrook, isso foi pela janela. Os dois melhores defensores de perímetro do time, Caruso e KCP, foram embora; o primeiro porque LA queria economizar nas multas salariais, o segundo envolvido na troca. Kuzma estava longe de ser um craque e foi mal nos playoffs, mas evoluiu em 2021 e fazia um papel importante vindo do banco, e também vai ter a ausência sentida. A escolha #22 era particularmente valiosa para adicionar um talento jovem e barato em um Draft profundo, mas deixou de ser uma opção. Basicamente, após a troca, Los Angeles tinha quatro jogadores sob contrato —Bron, Davis, Westbrook e Marc Gasol— e precisava preencher mais nove posições no elenco com contratos mínimos e exceções pequenas.

Um problema adicional é que, embora Westbrook individualmente seja um jogador muito bom, o seu encaixe com Davis e LeBron é bastante complicado. Westbrook está no seu melhor com a bola nas mãos, atacando a cesta e centralizando o jogo, mas ele é um dos piores arremessadores da história da NBA, e se tem algo que a história nos ensina é que LeBron e Davis estão no seu melhor quando atacam a cesta cercados de bons arremessadores que espacem a quadra. Esse Big Three oferece muito pouco espaçamento uns para os outros, e todos jogam melhor no garrafão —que promete ser muito congestionado sempre que os três dividirem a quadra. Esse já o dilema da dupla LeBron-Davis, mas é elevado ainda mais com Westbrook no elenco. Já faz muitos anos que Russ tem sido praticamente um zero ofensivo no ataque sempre que não está com a bola nas mãos, e adversários vão se aproveitar muito disso para estrangular o ataque dos Lakers. Mas, se você coloca a bola nas mãos de Westbrook, você tira ela das mãos de talvez o melhor playmaker da NBA em LeBron James, o que também não é uma receita para o sucesso. Espaçamento pode ter virado uma palavra mágica na NBA moderna que, às vezes, acaba sendo exagerada —os Lakers de 2019 não tinham o melhor espaçamento do mundo e foram campeões mesmo assim— mas não deixa de ser um fator importante.

Dada a situação salarial complexa já mencionada, eu até acho que os Lakers fizeram as contratações certas para cercar seu novo Big Three. Focaram em trazer bons arremessadores como Kent Bazemore, Wayne Ellington, Malik Monk, Carmelo Anthony e Kendrick Nunn, que é o que você precisa para complementar o elenco. Mas, por mais que eu tenha gostado das adições, ainda existe um motivo para todos eles estarem disponíveis pelo contrato mínimo em primeiro lugar: são todos jogadores profundamente falhos, que oferecem bom arremesso mas pouco a mais, e na NBA de hoje —em especial nos playoffs— cada vez mais times precisam de jogadores que executam o máximo possível de funções enquanto oferecendo o mínimo possível de buracos a serem explorados. Nenhuma das contratações dos Lakers se encaixa nisso —defesa, em particular, está muito em falta— o que é um grande problema e reflexo direto desse modelo de montagem de elenco.

E, acima de tudo, essa é minha crítica aos Lakers: não à troca em si, mas à maneira que essa montagem de elenco tomou forma. Não só os Lakers já mostraram sucesso com um modelo de mais profundidade de elenco e melhor encaixe como, a meu ver, mesmo agora era a direção que dava à equipe as melhores chances de título. Los Angeles supostamente tinha acordado uma troca com os Kings para trazer Buddy Hield por Kuzma e KCP antes da negociação por Westbrook, e esse cenário me pareceria muito melhor pelo time: LA traria um chutador de elite em Hield, manteria Caruso e THT, teria a escolha #22 para usar em um jogador pronto para contribuir... e então poderia tranquilamente trazer esses jogadores unidimensionais em contratos mínimos, que estariam em condições muito melhores de contribuir com suas forças sem ter suas fraquezas expostas. O time faria mais sentido, teria mais opções, e Davis e LeBron estariam cercados dos jogadores certos para brilharem.

A impressão que fica, e que tem ganhado força nos círculos de NBA, é que essa opção de apostar num Big Three veio não da diretoria tomando as decisões que achava melhor para o time, mas da pressão de seus dois astros pela aquisição de um terceiro —e de que isso empurrou os Lakers a uma direção que não era a que estavam preparados ou mais confortáveis seguindo.

E nada disso quer dizer que os Lakers estejam condenados, que não possam ser campeões, e que a movimentação não vai dar certo. Eu já repeti várias vezes que, se os Lakers tiverem Davis e LeBron saudáveis, eles são fortes candidatos ao título mesmo comigo de armador —e Westbrook é um pouco melhor do que eu. O encaixe de West/LeBron/Davis é ruim, mas Los Angeles está apostando não em corrigir seus defeitos, mas em aumentar suas forças: são três jogadores que colocam EXTREMA pressão sobre o aro com infiltrações, muito atléticos em transição, e embora defensores possam tratar Westbrook como Rondo no perímetro e abandonar a marcação para congestionar os espaços no garrafão, West é muito mais explosivo para aproveitar esses espaços e atacar uma defesa bagunçada. Existe valor nesse tipo de ataque constante ao aro que quebra defesas e gera confusão nos adversários, e os Lakers acreditam que agora podem fazer isso ainda melhor. Ter Westbrook para aliviar a carga ofensiva de LeBron também pode ser importante na temporada regular para ajudar James a chegar mais saudável na pós-temporada, embora essa equação vá ser mais complicada nos playoffs. Encaixe é importante na NBA, mas talento também é —e os Lakers têm de sobra no seu Big Three.

No fim do dia, Los Angeles vai continuar sendo um favorito ao título em 2022. Eles o seriam independentemente da troca de Westbrook; a questão era qual caminho maximizava suas chances e colocava o time mais perto do caneco. Pessoalmente, não acho que apostar nesse encaixe ruim do Big Three e um elenco com pouquíssima profundidade e defesa de perímetro fosse a resposta, mas foi o que LA escolheu, e agora nos resta acompanhar o que promete ser um ano bem interessante para a franquia mais estrelada da NBA —acabe ela em mais um título ou não.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL