PUBLICIDADE
Topo

14 Anéis

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

O otimismo e as dificuldades para o Phoenix Suns voltar às Finais da NBA

Chris Paul e Cameron Johnson comemoram durante partida entre Phoenix Suns e Milwaukee Bucks - NBAE via Getty Images
Chris Paul e Cameron Johnson comemoram durante partida entre Phoenix Suns e Milwaukee Bucks Imagem: NBAE via Getty Images
Conteúdo exclusivo para assinantes
Vitor Camargo

Vitor Camargo é economista formado pela Faculdade de Economia e Administração da USP. Desde 2011 escreve sobre esportes americanos, com passagens por Yahoo, Gazeta do Povo e o seu próprio site, o Two-Minute Warning. Foi comentarista de beisebol na Fox Sports e consultor técnico na tradução do livro Moneyball (2011). É autor do livro Era de Gigantes (2019), o primeiro sobre a história da NBA escrito no Brasil, e apresentador do podcast Na Era do Garrafão.

Colunista do UOL Esporte

24/07/2021 04h00

Apesar do sabor amargo inevitavelmente depois de perder as Finais da NBA, é difícil enxergar a temporada 2021 como uma gigantesca vitória para o Phoenix Suns. Desde a saída de Steve Nash em 2011, os Suns eram uma das grandes piadas da liga, com um péssimo dono, uma diretoria disfuncional e sendo um cemitério de talentos onde jogadores promissores jogavam suas carreiras fora. Sua última aparição em playoffs tinha sido em 2010; a única temporada com mais vitórias que derrotas desde então foi 2014.

Por isso 2021 foi um ano tão especial para os Suns: segunda melhor campanha de toda a NBA, título de conferência, a duas vitórias do título da NBA. Foi o tipo de campanha para exorcizar um milhão de demônios e recuperar o lugar de direito dos Suns entre os grandes times da NBA, o ano que tudo da certo: os jovens jogadores evoluem, os veteranos funcionam, o ambiente é excelente dentro e fora das quadras, e uma torcida apaixonada é recompensada com a chance de abraçar um time único, carismático e extremamente divertido em uma grande trajetória. A falta de título não pode e nem deve apagar essa temporada espetacular do Phoenix Suns.

Mas, baixada a poeira, é hora de olhar para o futuro, o que por sua vez traz algumas perguntas. Para os Suns, a principal delas é: essa temporada foi uma miragem no deserto, ou é apenas o começo de algo maior e o torcedor pode contar com outras campanhas parecidas, quem sabe dessa vez culminando no tão sonhado título?

Para responder essa pergunta, é preciso considerar dois ângulos diferentes. Primeiro, entender exatamente o que foi a temporada 2021 dos Suns, para saber de onde esse time parte. Depois, ver o que o que pode mudar para 2022 e além.

E, para começar, é importante deixar algo muito claro: o Suns de 2021 foi um time muito, muito bom. Nada vai mudar isso. Eles terminaram a temporada com a sexta melhor defesa, sétimo melhor ataque e terceiro melhor saldo de pontos, e tiveram a melhor campanha de toda a NBA contra times de topo das suas respectivas conferências. Eles possuíam quase todas as ferramentas possíveis que você pode pedir em um candidato ao título: uma defesa agressiva com diversos alas capazes de trocarem marcação, arremessadores de três por todo o elenco, dois armadores agressivos capazes tanto de criar por conta própria como usar esse espaço para acionar os companheiros, um ótimo técnico... você pode até encontrar algumas falhas (como a falta de playmakers nas alas, por exemplo) mas os Suns atingem mais marcas nesse sentido do que talvez qualquer outro time da NBA. E você ainda pode argumentar que é ainda mais bem construído para os playoffs, com DeAndre Ayton mostrando que é capaz de ficar em quadra mesmo contra ataques mais espaçados de pós-temporada e o jogo brilhante de meia distância de Paul e Booker servindo de antídoto para as defesas mais fortes da NBA.

Ao mesmo tempo, é sempre perigoso observar apenas o resultado final de uma temporada para basear sua avaliação. Cada temporada é diferente da outra, e ao longo do ano a trajetória de cada time é influenciada por alguns fatores fora do seu controle. E é difícil negar que, em um ano tão caótico como esse, os Suns foram um dos times que mais deram "sorte" com esses fatores além do controle: foi o time menos afetado por lesões e COVID durante a temporada regular, dando a ele uma continuidade e consistência que pouquíssimos outros times tiveram. Isso não quer dizer que os Suns só tenham sido bons por isso, claro, mas foi algo que agiu a favor dos Suns em comparação com outras equipes e que dificilmente deve se repetir nos anos seguintes.

O mesmo pode ser dito sobre a pós-temporada, no qual os Suns tiveram imensa sorte com lesões: a equipe passou por um Lakers com Anthony Davis machucado, depois pelo Nuggets sem Jamal Murray, enfrentou os Clippers com Kawhi Leonard de fora, e ainda pegou os Bucks com Giannis vindo de uma lesão séria no joelho. De novo, isso não quer dizer que os Suns sejam uma fraude e que só chegaram nas Finais por causa de lesões nos outros times - os Suns são excelentes e poderiam perfeitamente ter chegado lá mesmo caso todos esses jogadores estejam saudáveis - mas é inegável que isso tornou o caminho mais fácil para Phoenix.

Sua própria lesão possivelmente grave - o ombro de Paul contra os Lakers - ilustra bem esse aspecto de aleatoriedade: na época, eu escrevi sobre como a lesão tinha invertido o equilíbrio da série a favor dos Lakers. Se Davis não se machuca, os Lakers possivelmente se aproveitariam da lesão de Paul para vencer a série, e a conversa seria o oposto, e os Suns teriam sido eliminados na primeira rodada embora fossem tão bons quanto na vida "real" quando chegaram nas Finais. Não é para diminuir o que os Suns fizeram; aleatoriedade faz parte do esporte, e Phoenix só teve a boa sorte de ser o beneficiado dessa vez.

Ou seja, os Suns são bons, muito bons. Esse time é um legítimo candidato ao título, circunstâncias favoráveis ou não. Mas ser candidato ao título não é uma variável binária, e as chances da equipe aumentam e diminuem de acordo com certas variáveis. Esses fatores aleatórios dificilmente estarem a favor dos Suns não significa que não poderão mais brigar por títulos, mas certamente torna a tarefa um pouco mais difícil.

Dito isso, o que podemos esperar dos Suns de 2022? Vai ser tão bom como esse, melhor, ou pior?

Bem, se eu soubesse a resposta, estaria apostando na loteria, mas podemos dar um palpite educado. Em geral, os Suns estão em boa forma: seu trio de jovens jogadores (Booker, Ayton e Bridges) tão fundamental para essa conquista estará um ano mais velho, mais experiente e possivelmente ainda melhor. Além disso, em todo o seu núcleo central, o único agente livre importante é Cameron Payne. O armador reserva foi espetacular nos playoffs e provavelmente se colocou fora do alcance financeiro da equipe. Payne faria bastante falta, especialmente considerando a falta de criadores em geral do time fora Paul/Booker, mas os Suns ainda podem tentar incluir uma renovação de Payne na exceção anual de 9M que todos os times têm - o que limitaria bastante as condições dos Suns de adicionarem novos jogadores no time, mas pelo menos manteria uma peça importante na equipe.

A grande incógnita dos Suns, no entanto, tem a ver com a peça final da montagem desse time vencedor: Chris Paul. Paul ainda tem mais um ano de contrato pagando um total de 44,2 milhões de dólares, mas pode optar por anular esse último ano e se tornar agente livre. No papel, uma reunião aqui faz todo o sentido para ambos os lados: Paul pode optar por encerrar esse contrato e assinar um novo, que pague menos por ano, mas que dure mais e tenha um valor total maior - algo que seria razoável para um armador dessa idade.

Mas não é uma certeza. Primeiro porque é difícil ler o que Paul, um dos jogadores mais imprevisíveis da NBA, vai fazer a essa altura. Ele pode optar por ir para outro time que enxerga com mais chances de título no curto prazo, talvez até aceitando um contrato menor para encaixar salarialmente em um time já pronto, caso seu objetivo agora seja um título a todo custo - não digo que vá ser o caso ou que seja o mais provável, mas é uma possibilidade.

Também é possível que a questão financeira pese demais e o próprio Suns não queria dar uma extensão desse tamanho para o armador: Ayton e Bridges ambos estão disponíveis a partir de agora para assinarem uma extensão contratual que não vai ser barata, e entre isso, o contrato de Booker e MAIS a extensão de Paul, os Suns estão diante de uma folha salarial gigantesca que certamente colocará os Suns acima da luxury tax - ou seja, pagando multas milionárias para manter o time junto. Normalmente, times não se importam tanto de pagar essas multas desde que seja para manter um junto um candidato ao título, o que os Suns parecem ser, mas Robert Sarver (dono da franquia) é famoso por ser um dos donos mais muquiranas de toda a liga, alguém que evita gastos como a praga, e é incerto se ele vai querer desembolsar todo esse dinheiro. Um meio-termo nesse sentido poderia ser Paul aceitar os 44M de 2022 e sair em 2023, quando as extensões de Ayton e Bridges começam a valer - evitando o maior dos gastos.

E embora eu ainda ache que a manutenção de Paul em Phoenix seja o mais provável, também vale lembrar o seguinte: Paul vai fazer 37 anos na temporada 2022 da NBA, e é incerto o quanto ele consegue manter de nível conforme envelhece cada vez mais. Ele foi ótimo em 2021, mas conseguirá ficar saudável (um problema toda a carreira) e manter a produção mesmo com mais um ano no odômetro? Vai ser 90% tão eficiente como em 2021? 80% 70%? E quanto disso a evolução dos companheiros pode ajudar a mitigar?

Essas são algumas das questões que os Suns enfrentam indo para 2022, e o cenário em geral parece ser de otimismo: uma volta de Paul ainda é o mais provável no momento, e com Paul e o núcleo intacto os Suns devem continuar sendo uma força a ser temida no Oeste e candidato ao título. Só é importante temperar esse otimismo com alguma cautela, e lembrar que colocar as Finais da NBA novamente como cenário-base não é realista, e ignorar alguns dos fatores que ajudaram Phoenix a chegar lá em primeiro lugar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL