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14 Anéis

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Analisando as escolhas de primeira rodada do Draft da NBA, Parte 1

O ala-armador Cade Cunningham, o jogador mais cobiçado no Draft da NBA de 2021 - Arturo Holmes/Getty Images/AFP
O ala-armador Cade Cunningham, o jogador mais cobiçado no Draft da NBA de 2021 Imagem: Arturo Holmes/Getty Images/AFP
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Vitor Camargo

Vitor Camargo é economista formado pela Faculdade de Economia e Administração da USP. Desde 2011 escreve sobre esportes americanos, com passagens por Yahoo, Gazeta do Povo e o seu próprio site, o Two-Minute Warning. Foi comentarista de beisebol na Fox Sports e consultor técnico na tradução do livro Moneyball (2011). É autor do livro Era de Gigantes (2019), o primeiro sobre a história da NBA escrito no Brasil, e apresentador do podcast Na Era do Garrafão.

Colunista do UOL Esporte

30/07/2021 04h00

O tão aguardado dia finalmente chegou, e depois de quatro horas frenéticas e cansativas que envolveram polêmicas, surpresas e muitas trocas, o Draft 2021 da NBA finalmente é história.

Eu (Vitor) e o grande Giancarlo Giampietro cobrimos todo o evento em tempo real no UOL Esporte, então se quiser ler os nossos comentários e opiniões sobre toda a primeira rodada com mais profundidade e complexidade, é só entrar no link que ainda está lá tudo que falamos sobre a noite do Draft. Mas, mesmo assim, ainda é válido tirar um tempo para fazer uma análise mais rápida e direta aqui no 14 Anéis sobre essas escolhas.

Assim como o Mock Draft, essa análise se dividiu em três partes para otimizar o espaço: começamos hoje com a análise do Top10, depois das escolhas #11-#20, e por fim #21-#30.

As notas que eu vou dar, vale sempre citar, são das minhas reações imediatas, então não leve elas a sério DEMAIS; ninguém sabe o que esses jogadores serão no futuro, e não passa de um palpite educado do processo ligado à minha avaliação dos jogadores - que 90% do tempo estarão erradas.

#1. Detroit Pistons - Cade Cunningham
Nota: A+

Difícil dar errado com essa. Apesar dos muitos boatos de que os Pistons estavam divididos nessa escolha ou mesmo ponderando uma possível troca, Detroit fez o óbvio e foi com o melhor jogador dessa classe. Cunningham é um dos jogadores mais completos e versáteis que eu já analisei no Draft, alguém que chega para contribuir imediatamente e eleva aos zero minutos o teto dessa reconstrução do Detroit Pistons - que também abriu cerca de 20M em espaço salarial com algumas trocas menores, possivelmente visando trazer veteranos para ajudar sua nova estrela.

#2. Houston Rockets - Jalen Green
Nota: A-

Com Cunningham indisponível, Green era a escolha óbvia no #2: um ala-armador extremamente explosivo e talentoso que tem tudo para ser um dos melhores pontuadores da NBA em alguns anos. Algumas pessoas preferiram Mobley pelo potencial, mas Green é mais o tipo de jogador que se cobiça na liga hoje em dia, criadores dinâmicos capazes de desmontarem defesas e carregarem um ataque. Green precisa refinar sua defesa e suas habilidades como criador e passador de modo geral - o que vai determinar seu teto na NBA - mas o talento é muito especial.

#3. Cleveland Cavaliers - Evan Mobley
Nota: B+

Admito que não estou tão empolgado com Mobley como outros, que chegam a colocar ele como o melhor jogador do Draft. Entendo o apelo: ele tem as ferramentas para ser o pivô perfeito na NBA moderna, protegendo o aro e trocando a marcação na defesa, e com um refinado jogo de perímetro do outro lado da quadra, chutando de três, jogando com a bola nas mãos e criando a partir do drible. Se ele realizar tudo que promete, vai ser um jogador realmente incrível.

Mas falam muito de Mobley como se ele já fosse esse jogador, quando a maior parte disso hoje é só projeção. A defesa está mais avançada e da a ele um bom piso - um dos motivos pelo qual acho totalmente válido ele sair aqui - mas ofensivamente... ele PODE vir a chutar três, mas chutou só 30% de 3 em USC e 69% do lance livre. Ele PODE vir a ser um grande criador, mas teve 74 turnovers contra 79 assistências. Ele PODE vir a ser um finalizador técnico do perímetro, mas a maioria do seu ataque veio de ganchos fáceis sobre defensores menores, e sofreu contra defensores mais atléticos e fortes. Ele pode desenvolver as habilidades desejadas? Sem dúvida, tem o instrumental, e se o fizer vai ser um grande jogador. Mas está longe de ser uma certeza.

#4. Toronto Raptors - Scottie Barnes
Nota: D

E aqui o Draft começou a ficar estranho. E a nota é um misto de achar que tinha um jogador muito melhor disponível - Jalen Suggs - e também porque, honestamente, eu não entendo esse apreço todo por Barnes. Ele é outro daqueles jogadores que vivem muito de projeções: o potencial é atraente, e existe uma versão dele que resolve todos os problemas - arremesso péssimo, falta de dinamismo, incapacidade de criar consistentemente, tomada de decisões - e vira um grande jogador com sua capacidade de passe, dimensões físicas e versatilidade defensiva. Mas a gente tem visto o quão difícil é para passadores sem habilidades de criação E arremesso renderem ofensivamente na NBA (e vimos também no torneio da NCAA, onde Barnes foi péssimo), e seu atleticismo é apenas sólido. Se ele não desenvolver seu ataque muito além de uma curva normal de desenvolvimento, tem grandes chances de virar um jogador quase ijogável na NBA. Péssima escolha.

#5. Orlando Magic - Jalen Suggs
Nota: A

O lixo de um é o tesouro de outro, já dizia o ditado. Suggs chegou a ser cotado para ser a primeira escolha do Draft em dado momento, e tem caído porque seu estilo de jogo - cerebral, versátil, completo, eficiente - não impressiona tanto nos treinos contra ginásios vazios do pré-Draft. Sorte de Orlando, que pegou um dos melhores jogadores da classe que é exatamente o tipo de peça de alto piso, alto potencial para um elenco que tem muitos jovens talentosos mas nenhuma certeza. O jogo de Suggs não só é muito bom por si só, mas combina com diferentes estilos e finalmente oferece coesão a esse elenco de Orlando na sua reconstrução.

#6. Oklahoma City Thunder - Josh Giddey
Nota: B

Essa foi a primeira GRANDE surpresa da noite - bem mais que Barnes para Toronto - e embora me pareça um pouco cedo pegar Giddey a essa altura, é difícil dizer também que não existe um sentido e um padrão por trás da escolha. Oklahoma não tem pressa nenhuma na sua reconstrução e tem apostado em jogadores versáteis e playmakers enormes, e Giddey encaixa muito nesses moldes: um armador de mais de dois metros de altura e um excelente passador, mas ainda bastante cru e que precisa desenvolver seu arremesso e sua defesa. Oklahoma tem uma visão meio cientista maluco do seu elenco, mas Giddey encaixa nela e vale a aposta no seu potencial, ainda mais em um time que vai dar liberdade para ele se desenvolver nos próximos anos.

#7. Golden State Warriors - Jonathan Kuminga
Nota: B-

Uma escolha esquisita, mas que faz sentido... o que é uma combinação estranha por si só.

No papel, Kuminga - um jogador de altíssimo potencial, ainda que muito cru, e que chegou a ser cotado como escolha de topo do Draft em certo momento - caindo no seu colo no #7 é uma grande vitória, e um grande valor a essa altura. O que é verdade. Ao mesmo tempo, Golden State tem uma necessidade por contribuidores imediatos, e Kuminga dificilmente vai ter muito a oferecer no curto prazo para a equipe; é uma aposta de potencial a longo prazo, que ainda precisa de muito desenvolvimento para poder render na NBA. Não vou negar que essa escolha cheira muito a uma pensando em uma troca futura... o que leva a outro problema.

Como já disse, o cru Kuminga é um dos jogadores de maior risco, maior potencial do Draft, alguém que pode vir a ser um talento devastador ou um fracasso retumbante. E dada sua trajetória - começou tarde a jogar basquete, passou por três colegiais, temporada irregular na G-League - ele precisa mais do que ninguém de uma situação estável e paciente para se desenvolver, que é o oposto do que vai encontrar em Golden State, onde será uma moeda de troca ambulante e terá pressão para contribuir rapidamente. Não me parece a situação ideal.

De novo, é uma boa escolha de valor, vale a aposta, e talvez os Warriors estejam confiantes de que sua defesa e atleticismo podem ajudar no curto prazo em um time veterano enquanto se desenvolve... mas é um encaixe bem estranho.

#8. Orlando Magic - Franz Wagner
Nota: B

Outro caso de encaixe esquisito: Wagner era meu #5 da classe e um dos meus jogadores favoritos, então não da para criticar Orlando. O estilo de Wagner - coadjuvante que conecta as peças, faz de tudo um pouco, eleva seus companheiros - é ótimo para dar sentido a um conjunto irregular de talento, como é o caso do Magic. Mas ao mesmo tempo, que peças exatamente ele vai conectar em Orlando? E ele já não vai disputar minutos com dois outros alas em Okeke e Isaac, que não só jogam a mesma posição mas tem como característica JUSTAMENTE fazer esse papel secundário sem a bola? Não é uma escolha ruim, mas é um encaixe que me incomoda. Dependendo de como será usado, pode ser um sucesso ou um fiasco.

#9. Sacramento Kings - Davion Mitchell
Nota: D-

Ah, os Kings. Um time extremamente irregular, com vários problemas ao longo de todo o elenco, e cuja ÚNICA parte do seu elenco que parece ter uma base para o futuro seja na armação com Fox e Haliburton, vai lá e pega no #9... um armador de 23 anos e 1,80, com teto bastante limitado e que é difícil ver jogando mais que 15 minutos atrás de Fox/Hali. Mitchell é bom, mas não faz nenhum sentido nesse contexto. Tinha jogadores melhores, tinha valores melhores, tinha encaixe melhores, e pegaram o jogador que MENOS fazia sentido entre os disponíveis. Que fracasso completo, Kings!

#10. Memphis Grizzlies - Ziaire Williams
Nota: B+

Ziaire é um prospecto complexo, muito bem cotado saindo do colegial e com grande potencial, mas sofreu com uma temporada ruim no College e problemas extra-quadra que acabaram por levantar dúvidas sobre seu valor. Mas os Grizzlies parece que não se importaram muito, e apostaram no potencial - um luxo que eles podem se dar depois de anos achando ouro no recrutamento.

Muito do que você acha dessa escolha depende da sua opinião sobre Ziaire, mas eu sou otimista quanto ao ala de Stanford, e vale citar que ele - no papel, se realizar o que prometia - é um encaixe perfeito nesse time de Memphis, um versátil pontuador de perímetro que complementa bem demais o núcleo extremamente promissor Ja-Brook-Clarke-Jackson. Gostei muito da aposta.

Continua...

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL