PUBLICIDADE
Topo

Bolsonarismo aproxima Tarcísio de PMs, e Garcia tenta ligação com agentes

Os pré-candidatos ao governo de São Paulo, Rodrigo Garcia (PSDB, à esquerda) e Tarcísio de Freitas (Republicanos, à direta) - Willian Moreira/Estadão Conteúdo e Aloisio Mauricio/Estadão Conteúdo
Os pré-candidatos ao governo de São Paulo, Rodrigo Garcia (PSDB, à esquerda) e Tarcísio de Freitas (Republicanos, à direta) Imagem: Willian Moreira/Estadão Conteúdo e Aloisio Mauricio/Estadão Conteúdo

Leonardo Martins

Do UOL, em São Paulo

04/07/2022 04h00

A quatro meses das eleições, o ex-ministro da Infraestrutura Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o governador paulista Rodrigo Garcia (PSDB) intensificaram a disputa pelo apoio dos policiais militares do estado —classe com representação nacional e cada vez mais presente na política— na pré-campanha ao governo de São Paulo.

Nessa concorrência, no entanto, PMs (oficiais e praça) da reserva ouvidos pelo UOL apostam que Tarcísio, o pré-candidato do presidente Jair Bolsonaro (PL), é o preferido dos agentes por seu histórico militar. Enquanto isso, Garcia luta por espaço e tem de lidar com a rejeição histórica do PSDB dentro da corporação.

Os dois pré-candidatos costumam explorar o tema da segurança pública com discursos combativos, visando afagar o eleitorado conservador.

Tarcísio de Freitas, por exemplo, já chegou a dizer que o governo paulista "fez um pacto com o crime organizado" e é crítico das câmeras nas fardas dos PMs —a letalidade foi reduzida em batalhões que adotaram a medida.

Garcia também apostou em um discurso mais agressivo. Como governador, tem intensificado ações policiais, a exemplo da Operação Sufoco, e acenado aos PMs: entregou 27 mil pistolas aos agentes na última semana e disse que as armas não eram para que o policial "fizesse cafuné na cabeça de bandido". Em maio, ele havia afirmado que quem levantasse a arma para a polícia "levaria bala".

A última pesquisa Datafolha aponta que, sem o ex-governador Márcio França (PSB) na disputa, o pré-candidato do PT Fernando Haddad, lidera a corrida pelo Palácio dos Bandeirantes com 34%. Ele é seguido por Rodrigo Garcia e Tarcísio, empatados com 13%.

'Alergia ao PSDB'

A rejeição dos PMs ao PSDB é histórica. Segundo profissionais da segurança pública, esse sentimento negativo remonta ao governo Mário Covas, atravessa as gestões de Geraldo Alckmin, José Serra e João Doria.

No caso de Doria, a repulsa parece ser ainda maior porque, na avaliação dos policiais, a tropa se sentiu usada politicamente pelo ex-governador durante sua campanha. A questão central sempre foi o reajuste salarial para a classe, que Doria entregou no último ano de seu mandato, mas que teria sido considerado insatisfatório. Outro ponto seria a promessa, não cumprida, de oferecer "os melhores advogados" aos PMs que matassem suspeitos durante ações.

"A categoria policial vem traumatizada pelo governo do PSDB pela pior política remuneratória para o serviço público. O Rodrigo [Garcia], assim como [ex-governador Márcio] França, está perdendo a oportunidade [de melhorar os salários dos agentes]. Pode ser o divisor de águas do segundo turno", afirmou o diretor-legislativo e jurídico da Feneme (Federação Nacional de Entidades de Oficiais Militares Estaduais), o coronel reformado da PM Elias Miler.

O coronel Ernesto Puglia Neto, secretário-executivo da Defenda PM (Associação de Oficiais Militares do Estado de São Paulo em Defesa da Polícia Militar) e que trabalhou na ativa por 34 anos, analisa que as agendas públicas de governador com a PM não indicam um apoio da classe ao pré-candidato tucano.

"Ele [Garcia] é governador e merece todas as honras e respeito incondicional, não interessa quem é a pessoa que está lá [no governo], será respeitada. Mas isso não quer dizer que a classe apoia ou não o governador. [A recente investida de Garcia, com agendas] É uma maneira de passar para a população em geral que ele é próximo ao policial. Não é uma forma de falar que a PM está junto a ele", afirmou Puglia Neto.

29.jun.2022 - Governador Rodrigo Garcia (PSDB) cumprimenta policiais militares durante agenda de segurança pública em São Paulo - Willian Moreira/Estadão Conteúdo - Willian Moreira/Estadão Conteúdo
29.jun.2022 - Governador Rodrigo Garcia (PSDB) cumprimenta policiais militares durante agenda de segurança pública em São Paulo
Imagem: Willian Moreira/Estadão Conteúdo

O presidente da Associação dos Cabos e Soldados da Polícia Militar do Estado de São Paulo, Milton Vieira, cabo da reserva com 20 anos de serviço na ativa, chama atenção para a implementação das câmeras nas fardas dos policiais como ponto negativo de Garcia. "Os policiais não vão falar isso porque na PM ordem se cumpre, mas a insatisfação dos policiais usando as câmeras de patrulhamento é muito grande", afirma Vieira.

"O policial militar tem alergia ao PSDB. Eu não enxergo dessa forma, mas a grande maioria tem alergia. Outro detalhe: o atual governador não é tão conhecido dentro da corporação. Eu percebo que ele quer se aproximar das forças de segurança, mas o próprio PSDB do passado queimou muito a imagem dos políticos do PSDB dentro da corporação", conclui.

Vieira, no entanto, diz ver o governador como um bom nome, assim como Tarcísio de Freitas, mas aposta: "Dentro da PM, se fizer uma enquete, o Tarcísio ganha. Falo com tranquilidade". O coronel Elias Miler arrisca uma estimativa. "No mínimo, 80% da corporação apoia o Tarcísio, com certeza. Mais na PM e um pouco menos na Polícia Civil."

Bolsonarismo, farda ou 'perfil técnico'?

Os policiais da reserva apontam que a identificação dos PMs com Bolsonaro e a retórica militar é o principal fator que os aproxima da pré-candidatura de Tarcísio de Freitas.

"É a identificação com o bolsonarismo. Se não fosse isso, ele não teria chance nenhuma. Ninguém conhece o Tarcísio. Ele foi capitão, é militar da reserva. Isso gera uma identidade", afirma Miler.

"O Tarcísio fala um linguajar que o policial gosta de ouvir. Esse vínculo dele, esse espelho dele ao Bolsonaro, ajuda muito dentro do sistema da segurança pública, principalmente entre os praças", diz Vieira.

O coronel da reserva Ernesto Puglia Neto não vê, contudo, a corporação tão vinculada ao bolsonarismo e aposta no "perfil técnico" do ex-ministro como a principal característica de atração dos policiais.

"Eu contesto a aproximação com Bolsonaro. O que Bolsonaro fez para as policiais concretamente?", questiona o coronel. "Tarcísio aparece como um técnico, alguém que trabalhou no governo Dilma [Rousseff], [Michel] Temer e no governo Bolsonaro, a quem até hoje não ouço críticas."

O presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Renato Sérgio de Lima, especialista em gestão pública, analisa que, apesar do descontentamento com os governos do PSDB, foi por meio deles que os policiais obtiveram a "profissionalização" em São Paulo.

"A polícia se profissionalizou, e não é obra exclusiva da corporação, mas porque o governo garantiu, com concursos e tecnologia", afirma.

Lima também diz acreditar que a pré-candidatura de Tarcísio deve ter mais apoio na PM, mas se opõe a algumas explicações sobre isso. "A ideia do Tarcísio como técnico é uma visão que eles acreditam que existe, mas não é verdade. Ele foi um gestor, mas tem tomado decisões eminentemente políticas que agradam à base eleitoral dele."

"Se a decisão fosse por perfil técnico, o Rodrigo Garcia, na gestão há 20 anos, seria um candidato técnico também. A única ideologia como sistema de ideias que regulamenta e mobiliza as polícias é o militarismo. A ideia do Tarcísio ganhar mais apoio é por ele ser oriundo do meio militar. Não é porque ele é técnico."

Governador defende 'diferenças de posicionamento'

Em nota, o governador Rodrigo Garcia (PSDB), por meio de sua pré-campanha, disse que os profissionais de segurança fazem parte de uma corporação formada por 120 mil homens "com diferenças de posicionamento político e plena liberdade para exercer os seus direitos democráticos como qualquer outro cidadão".

Ele ainda afirma: "Todas as entidades de classe devem ser respeitadas, mas, em um contingente dessa magnitude, as diferenças de posicionamento e opções políticas não têm como ser mensuradas, mas devem ser respeitadas e aceitas sempre".

A pré-campanha de Tarcísio de Freitas também foi procurada e, caso um posicionamento seja enviado, esta reportagem será atualizada.