Tony Marlon

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Opinião

O poder da opinião: quem fala e quem fica de fora?

Acontece quase sempre, nos eventos jornalísticos e empresariais: as periferias e favelas numa mesa sobre si mesmas. Ou, falando sobre alguma dor, escassez ou ausência. Ou, opinando sobre um recorte específico num tema macro. Você que me lê talvez não tenha percebido isso ainda, meu convite é que a partir de hoje perceba. E se pergunte: por quê?

Por exemplo, num evento sobre os desafios na educação brasileira vai ser raro encontrar uma diretora de rede pública do Capão Redondo, periferia de São Paulo, sentada numa mesa para falar para além de sua realidade local. Para analisar os desafios da educação brasileira serão chamadas as mesmas pessoas de sempre, formadas no mesmo lugar de sempre, ocupando as mesmas cadeiras de sempre. Que, em geral, constrói o mesmo pensamento de sempre. Se pergunte, por quê?

Por aí e aqui vira e mexe eu repito: o que nos trouxe até aqui não nos levará adiante. Ou, quem nos trouxe até aqui não nos levará adiante. Ou, o modelo de pensamento que nos trouxe até aqui não nos levará adiante. Com isso, alguém pode imaginar que eu estou defendendo que essa ou aquela pessoa não participe mais das conversas. Ou que essa ou aquela classe social não participe mais das conversas. Não é isso. Minha defesa é que todas as pessoas participem das conversas. Mais que isso.

Que a participação de algumas pessoas não seja restrita a um pedaço do assunto, mas que especialistas vindos dos núcleos de produção de pensamento de periferias e favelas possam debater o que pode vir a ser educação nacional. Ou que poderemos fazer com a educação do país todo a partir de muitas experiências que seguem invisibilizadas. Em geral, essa pessoa é convidada para dar o seu relato. Contar a sua boa prática ou experiência. Recebe aplausos e reconhecimento do público. Depois, a mesa com o debate. Sem ela. Se pergunte: por quê?

Pode parecer um detalhe, mas não é. Especialmente para quem fica de fora das mesas. É que a opinião é um lugar de poder. Num evento, então, isso se multiplica por mil. Ter 50, 100 ou mil pessoas com presença e atenção plena para o que você traz, nos dias de hoje, é algo raro. E é nesse lugar, da opinião especialista, que se produzem as imagens do futuro, que se alargam os horizontes comuns. Que se traz para o centro do palco, e da conversa, outras possibilidades de sentir, pensar e de fazer. Na encruzilhada em que estamos como humanidade, acredite, precisaremos de todas as possibilidades que tivermos disponíveis. Ou talvez não tenhamos muitas chances, ali adiante.

Meu convite é a observação. No próximo painel ou roda de conversa em que sua atenção estiver, observe a quem está destinado o espaço de opinião. Se atente a quem pode falar do todo e quem falará sobre um recorte do recorte do recorte. E se pergunte: sim, isso tudo aqui é muito rico e interessante, mas quais outros pensamentos não apareceram nessa conversa?

Por exemplo, numa mesa sobre os rumos da economia do país, tem alguma pessoa especialista que não seja do Sudeste? Ou são todas do Sudeste? Que tenha vindo dos estados do norte brasileiro, por exemplo. E, com essa pessoa ali, a conversa foi para onde? O que você aprendeu de diferente de tudo que tinha aprendido até aquele momento? Quais pensamentos novos nasceram na sua imaginação e na das pessoas ao seu lado?

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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